Jackson Cionek
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A CONSCIÊNCIA É UM MOVIMENTO QUE SE PERCEBE SER

A CONSCIÊNCIA É UM MOVIMENTO QUE SE PERCEBE SER

Um epílogo para os onze caminhos do Corpo-Território

Uma criança pergunta por que o rio está secando.

Uma médica observa a desidratação. Uma engenheira calcula a vazão. Um biólogo acompanha espécies desaparecidas. Uma economista mede perdas. Uma artista dá forma ao silêncio deixado pela água.

Cada área percebe uma parte verdadeira. O problema começa quando uma parte acredita ser o todo.

Os onze blogs caminharam do cérebro isolado ao Corpo-Território; do Corpo ao Bioma; da atenção capturada à democracia; dos dados extraídos ao rendimento coletivo; e das instituições herdadas ao Jiwasa Real.

Faltava uma linguagem para manter áreas diferentes na mesma conversa.

A hipótese BrainLatam começa com uma frase:

A consciência é um movimento que se percebe ser no metabolismo produzido.

Ela não encerra o problema da consciência. Propõe uma ponte entre matéria, informação, sentimento, espaço, memória, tempo vivido e território.

Antes de percebermos, o Corpo-Território já preparou espaços

Quando falamos das três dimensões do Corpo-Território 5D, não imaginamos uma tela escondida dentro do cérebro.

Falamos de espaços internos de representação construídos pela transdução.

Luz, som, pressão, temperatura e substâncias químicas são convertidos em sinais biológicos. Ao mesmo tempo, batimentos, respiração, fome, dor, tensões viscerais e posição corporal informam o estado do organismo.

O mundo exterior é transduzido.

O corpo interior também.

Esses sinais encontram memórias, hábitos, cultura e necessidades metabólicas. Uma voz pode recrutar alguém. Um cheiro aproxima uma cozinha antiga. Uma praça pode pré-ativar caminhos e perigos antes da decisão consciente.

No modelo BrainLatam, o 3D é essa espacialidade interna: profundidade, proximidade, distância, posição e relação entre representações construídas a partir de estímulos externos, interocepção, propriocepção e memórias recrutadas. (brainlatam)

Tekoha, APUS e a atenção que flutua

Chamamos de Tekoha o campo interoceptivo pelo qual respiração, coração, vísceras, temperatura, fome, dor e metabolismo deixam rastros no Corpo-Território.

Chamamos de APUS o campo proprioceptivo e espacial pelo qual o corpo reconhece postura, direção, alcance, equilíbrio e possibilidades de movimento.

Tekoha e APUS se atravessam. Uma notícia modifica a respiração; o medo reorganiza a postura; uma queda lembrada altera a aproximação de uma escada.

A atenção pode flutuar entre espaços parcialmente pré-ativados. Pode aproximar uma lembrança, ampliar uma ameaça, acompanhar uma tensão visceral ou ensaiar uma ação futura.

Pesquisas com cientistas do Chile e da Argentina sustentam acoplamentos dinâmicos entre cérebro e corpo e a participação da interocepção na autoconsciência corporal. Não provam o modelo 5D, mas oferecem caminhos para investigá-lo. (PubMed)

O tempo nasce quando os espaços se movem

O relógio conta segundos.

O Corpo-Território vive duração.

Uma respiração oferece um intervalo. Um batimento oferece outro. Caminhar até uma porta, repetir um gesto, esperar uma resposta ou recordar quantas vezes algo aconteceu cria referências temporais.

Uma memória retorna rapidamente porque foi percorrida muitas vezes. Uma espera parece longa porque a ameaça permanece ativa. A repetição também marca o tempo pela força do rastro, familiaridade e sequência incorporada.

No Corpo-Território 5D, o tempo vivido emerge quando espaços internos pulsam, aproximam-se, afastam-se, retornam, competem e mudam de prioridade.

Há evidências de relações entre interocepção, sinais cardíacos e precisão temporal, e de que a duração percebida varia ao longo do ciclo cardíaco. Respiração e batimentos também modulam a percepção. Isso sustenta que o tempo vivido não está separado dos ritmos corporais. A ideia de que ele deriva do movimento relativo dos espaços internos permanece como hipótese BrainLatam. (Frontiers)

O tempo, nesse modelo, não precisa ocupar um eixo separado.

Ele aparece quando um espaço muda em relação a outro.

Uma ameaça que se aproxima cria urgência.

Uma lembrança que se afasta produz esquecimento.

Um espaço que permanece sem solução cria espera.

Um movimento repetido muitas vezes torna-se familiar e pode ser realizado mais rapidamente.

Assim, a percepção temporal nasce da relatividade entre espaços reais interiores que se modificam no Corpo-Território.

Matéria, informação e sentimento

O Monismo de Triplo Aspecto, proposto pelo pesquisador brasileiro Alfredo Pereira Jr., ajuda a evitar uma separação rígida entre corpo e mente.

Uma experiência consciente reuniria três aspectos de uma mesma realidade:

  • matéria e energia do corpo vivo;

  • padrões dinâmicos de informação;

  • sentimento ou qualia vivido em primeira pessoa.

Pense em um copo de água.

Existe matéria: água, temperatura e circulação. Existe informação: localização, memória e possibilidade de alcançá-lo. Existe sentimento: urgência, alívio ou prazer.

No Corpo-Território 5D, as três dimensões dão forma às representações; o movimento transforma suas relações; e os qualia dão intensidade vivida ao que acontece.

Os modelos não são idênticos, mas podem conversar sem separar materialidade, informação e sentimento. (ResearchGate)

A Mente Damasiana e o pertencimento da experiência

Antonio e Hanna Damasio propõem que sentimentos homeostáticos são fundamentais para a consciência: o organismo representa não apenas objetos, mas como sua própria vida está sendo modificada. (MIT Press Direct)

A imagem de um rio pode ser sede, infância, perigo, sustento ou perda.

É essa referência ao organismo que permite dizer, mesmo antes das palavras:

Isto está acontecendo comigo.

A BrainLatam acrescenta que esse “comigo” é um Corpo-Território: dinâmica cerebral, tensões viscerais, postura, memória, cultura e relação com o Bioma.

A consciência não seria uma fotografia pronta, mas a atualização de espaços internos nos quais o movimento ganha sentido e é sentido.

Não percebemos apenas o objeto que se aproxima.

Percebemos também o que sua aproximação faz com a respiração, o coração, a postura, as memórias e as possibilidades de ação.

O metabolismo não termina na pele

O metabolismo utiliza oxigênio, água, alimento e relações produzidas fora da pele.

A linguagem vem de outras pessoas. A calma depende de segurança. A ansiedade pode carregar dívida ou violência. O alimento depende do solo, da chuva e do trabalho.

Por isso, o Corpo-Território deveria ser a unidade mínima do Estado.

O Bioma não é cenário da mente. Participa da produção do metabolismo que torna a experiência possível.

Isso não significa afirmar que todo Bioma tenha consciência humana. Significa reconhecer que toda consciência humana conhecida é biomadependente.

Quando o rio é contaminado, algo muda no território, no metabolismo, nos sentimentos e nas possibilidades futuras.

Quando a atenção é capturada por um algoritmo, algo muda nos espaços internos que recebem prioridade.

Quando uma dívida mantém o futuro permanentemente pré-ativado como ameaça, o tempo vivido pode tornar-se mais estreito.

Política, economia, tecnologia e ambiente também participam da organização material da consciência.

DANA: pluralidade espiritual e responsabilidade material

Na formulação BrainLatam, um Estado Laico DANA não escolhe qual verdade transcendente é correta.

Protege o direito de acreditar, não acreditar, duvidar e mudar de crença. Ao mesmo tempo, não permanece indiferente quando religião, ideologia, tecnologia ou mercado produzem consequências destrutivas sobre Corpos-Territórios e Biomas. (brainlatam)

Uma pessoa pode considerar o rio criação divina.

Outra, presença ancestral.

Outra, ecossistema.

O Estado não precisa escolher uma interpretação.

Precisa impedir que o rio seja envenenado.

DANA não transforma ciência em religião. Oferece um princípio de responsabilidade: diferentes explicações podem coexistir, mas nenhuma deveria receber autorização para destruir as condições materiais que permitem à vida sentir, acreditar, duvidar e continuar existindo.

Uma linguagem comum entre as áreas

As áreas não precisam aceitar uma teoria final da consciência. Podem começar com perguntas comuns:

O que está materialmente acontecendo?
Que sinais foram transduzidos?
Que memórias e espaços foram pré-ativados?
Como esses espaços se movimentam e são sentidos?
Que Corpo-Território e que Bioma sustentam o fenômeno?

Exatas estudam padrões, energia e informação; Engenharias, estruturas; Biológicas, metabolismo e ecossistemas; Saúde, interocepção e cuidado; Agrárias, água, solo e alimento; Sociais Aplicadas, crédito e leis; Humanas, história e poder; Letras e Artes, qualia ainda sem medida.

Nenhuma área precisa abandonar sua precisão.

A física não precisa transformar movimento em poesia.

A arte não precisa transformar sentimento em marcador fisiológico.

A medicina não precisa explicar sozinha a origem social da dor.

A linguagem comum serve para que cada área reconheça onde sua explicação termina e onde a escuta de outra área precisa começar.

NeuroDesafio Latam: medir sem reduzir

Parte desses rastros pode ser medida.

EEG acompanha dinâmica cerebral e atenção; NIRS, alterações hemodinâmicas; ECG, respiração, eletromiografia, condutância da pele, postura e movimento acompanham outras dimensões.

Mas nenhuma medida registra diretamente um qualia.

Estudos brasileiros alertam que tarefas de percepção dos batimentos possuem limitações, e trabalhos com fNIRS mostram que respiração e frequência cardíaca podem confundir interpretações quando não são registradas. (PubMed)

Um eletrodo não mede o medo como experiência.

Uma mudança cardíaca não revela sozinha esperança, ameaça ou alegria.

O NeuroDesafio deve convocar todas as áreas e combinar medidas corporais, relatos em primeira pessoa, memória, cultura, ambiente e participação comunitária.

A pergunta não será qual disciplina possui a consciência.

Será:

Conseguimos observar o movimento sem retirar de quem o vive o direito de interpretá-lo?

Quando a vida percebe que está acontecendo

Voltemos ao rio.

As áreas continuam percebendo coisas diferentes. Agora reconhecem algo comum:

há matéria sendo transformada;

há sinais organizando espaços internos;

há memórias preparando possibilidades;

há ritmos oferecendo referências temporais;

e há alguém sentindo as consequências.

Talvez os onze blogs tenham procurado dizer uma única coisa:

Não existe cérebro sem corpo.
Não existe corpo sem território.
Não existe território sem Bioma.
E não existe consciência humana fora do movimento material que permite à vida perceber que está acontecendo.

A consciência é um movimento que se percebe ser porque um Corpo-Território transduz o mundo, recruta sua história, pré-ativa espaços, percorre possibilidades e sente as transformações produzidas.

Não é uma resposta final.

É uma linguagem para que diferentes áreas possam olhar o mesmo rio sem esquecer que nenhuma delas, sozinha, é a água.

Referências essenciais

Pereira Jr., Alfredo. Conscious Experience in Triple-Aspect Monism and Philosophy of Neuroscience. 2022.

Pereira Jr., Alfredo. A Metafísica do Monismo de Triplo Aspecto. 2023.

Signorelli, Camilo Miguel et al. From Brain-Body Function to Conscious Interactions. 2022.

Candia-Rivera, Diego et al. Interoception, Network Physiology and the Emergence of Bodily Self-Awareness. 2024.

Damasio, Antonio; Damasio, Hanna. Feelings Are the Source of Consciousness. 2023.

BrainLatam. World Cup 2026 and the 5D Body-Territory. 2026.






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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States