Jackson Cionek
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A rede olha você enquanto ensina você a olhar

A rede olha você enquanto ensina você a olhar

IA, Pedra–Papel–Tesoura e a semiose social que estamos construindo juntos

Antes de falar de inteligência artificial, volte comigo alguns anos.

Duas crianças colocam as mãos para trás.

Pedra. Papel. Tesoura. Já.

Papel vence Pedra. Pedra vence Tesoura. Tesoura vence Papel.

Parece apenas uma brincadeira. Mas repare no que a criança precisa compreender: nenhuma escolha é absolutamente superior. A resposta que vence agora pode perder na próxima relação.

Em um estudo de Jie Gao, Yanjie Su, Masaki Tomonaga e Tetsuro Matsuzawa, 38 crianças entre 35 e 71 meses aprenderam justamente essa estrutura circular. O experimento não testava apenas se sabiam brincar: investigava se conseguiam resolver um problema de relações transitivas circulares, combinando papel > pedra, pedra > tesoura e tesoura > papel. O desempenho na condição em que as três relações eram misturadas melhorou com a idade e ficou acima do acaso a partir de aproximadamente 50 meses, sugerindo que essa capacidade se torna mais consistente por volta dos quatro anos. (PubMed)

Agora talvez você já esteja vendo conosco por que essa brincadeira interessa à BrainLatam.

Não porque uma criança esteja literalmente “ativando três conectomas”.

Mas porque, muito cedo, ela encontra uma pequena ecologia de estratégias em que:

nenhuma resposta vence em todos os encontros.

Essa talvez seja uma das melhores portas de entrada para Pedra, Tesoura e Papel.

Pedra não é erro. Pedra também é competência

BrainLatam utiliza Pedra, Tesoura e Papel como metáforas operacionais para diferentes modos funcionais do Corpo-Território, e não como três estruturas anatômicas independentes do cérebro. Pedra aproxima-se de hábito, execução rápida e repertórios já incorporados; Tesoura, de análise, comparação e planejamento deliberado; Papel, de fruição, atenção ampliada e metacognição. (brainlatam)

Pare por um momento.

Você precisou pensar conscientemente em cada movimento dos dedos para rolar esta página?

Provavelmente não.

Ainda bem.

Se tivéssemos de reconstruir deliberadamente cada gesto já aprendido, viver seria quase impossível.

Na leitura estendida que BrainLatam faz de Yãy hã mĩy, observar, imitar, repetir e incorporar permite que algo inicialmente custoso se transforme em repertório disponível. Na infância, esse processo aparece com enorme clareza: antes de explicar, a criança observa; antes de dominar, repete; depois, aquilo pode tornar-se gesto, linguagem, habilidade e pertencimento. (brainlatam)

Assim, Pedra pode ser alta performance.

O músico não calcula cada dedo.

O atleta não reconstrói cada movimento.

A criança que finalmente aprendeu uma regra não precisa redescobri-la a cada rodada.

O problema aparece quando o território muda e Pedra continua respondendo como se nada tivesse mudado.

O automatismo que ontem foi competência pode amanhã tornar-se ótimo local.

É aí que confiança pode endurecer em repetição, e repetição pode aproximar-se daquilo que BrainLatam chama, metaforicamente, de fé cega. (brainlatam)

Agora seu celular vibra

Não olhe ainda.

Ou olhe.

Essa escolha já é parte do nosso experimento.

Um estudo publicado em Biological Psychology investigou com EEG o que acontece quando notificações de smartphone antecedem uma tarefa de controle cognitivo. Participantes foram distribuídos entre uma breve indução de mindfulness e uma narração neutra. Nos ensaios precedidos por notificações, houve menor potência theta e maior potência alfa e beta, além de menor atividade frontocentral associada à mudança atencional. Na condição mindfulness, alguns índices em theta e na razão theta/beta foram compatíveis com maior engajamento de controle cognitivo, especialmente após notificações. Os próprios autores apresentam esses resultados como evidência inicial de que uma breve intervenção pode amortecer parte do impacto das notificações sobre o controle cognitivo. (ScienceDirect)

O estudo não mediu Pedra, Tesoura ou Papel.

Mindfulness não é sinônimo de Papel.

Mas ele nos permite fazer uma pergunta que interessa ao nosso modelo:

A mesma notificação encontra o mesmo Corpo-Território quando estamos executando um hábito, deliberando sobre ele ou percebendo o próprio automatismo?

Em Pedra, talvez exista um caminho conhecido:

vibrou → peguei → abri.

Em Tesoura pode aparecer:

“Estou fazendo outra coisa. Preciso abrir agora?”

E em Papel:

“Interessante: meu corpo já estava se preparando para pegar o celular antes de eu decidir.”

Aqui aparece uma diferença importante.

A notificação pode ganhar Qualia — pode pulsar, incomodar, despertar curiosidade — sem necessariamente assumir o canal atencional.

O que brilha não precisa comandar a próxima ação.

Talvez agência seja justamente conservar a possibilidade de mudar de jogada.

E se a rede aprender em qual jogada você está?

Agora faça conosco uma pequena mudança de perspectiva.

Durante anos perguntamos se plataformas conseguem descobrir do que gostamos.

Mas imagine que elas consigam aprender algo ainda mais útil:

quando respondemos rápido;

quando hesitamos;

quanto tempo permanecemos;

quando voltamos;

que tipo de estímulo interrompe uma tarefa;

que tipo de conteúdo recebe clique quase automático.

Não precisamos imaginar uma IA lendo pensamentos.

Basta que nossas ações deixem padrões.

Então construímos o que BrainLatam chama aqui de Laço Semiótico Algorítmico:

percepção → Qualia/atenção → ação → dado → inferência algorítmica → novo recorte → nova percepção.

Você encontra o feed.

Mas seu encontro também modifica o próximo feed.

A rede não apenas aprende aquilo que você olha. Ela participa da escolha daquilo que poderá olhar depois.

Mas o algoritmo não precisa reforçar apenas Pedra

Aqui há uma abertura importante para agência.

Khambatta e colaboradores construíram sistemas de recomendação capazes de personalizar conteúdos segundo preferências atuais ou ideais dos usuários. Em um experimento preregistrado com 6.488 participantes, recomendações orientadas pelas preferências atuais produziram mais cliques; recomendações alinhadas às preferências que as próprias pessoas desejavam ter geraram menos cliques, mas maior sensação de tempo bem utilizado e de benefício pessoal. (Nature)

Percebe a diferença?

O algoritmo pode perguntar:

“O que faz esta pessoa clicar?”

Ou:

“Que direção esta pessoa diz querer construir para si?”

Isso muda profundamente nossa crítica.

A questão não é simplesmente:

algoritmo versus autonomia.

É:

Que Corpo-Território estamos ensinando o algoritmo a reforçar?

Se o sistema otimiza apenas a resposta mais imediatamente disponível, Pedra pode ganhar vantagem estrutural.

Mas isso não é destino tecnológico.

É decisão de projeto.

E agora a IA começa a escrever entre nós

Há algo novo acontecendo nas redes.

Antes, algoritmos selecionavam principalmente signos produzidos por outras pessoas.

Agora a IA também ajuda a produzi-los.

Em um experimento de 2026 com 680 participantes distribuídos em pequenos grupos numa plataforma social experimental, diferentes ferramentas de IA ofereciam assistência conversacional, sugestões de respostas, início de discussões ou feedback sobre comentários. Algumas condições aumentaram participação e volume de conteúdo, mas também puderam reduzir qualidade e autenticidade percebidas e produzir efeitos que atingiam pessoas que nem sequer estavam usando diretamente a ferramenta. (Nature)

Então responda conosco:

Se uma IA sugeriu a frase e eu escolhi enviá-la, quem falou?

Eu?

A IA?

Nós dois?

E se você responde àquela frase, está respondendo a quem?

Nesse ponto, IA deixa de ser apenas filtro do ambiente.

Ela entra na própria circulação social do signo.

Persuadir pode ser também uma relação entre corpos

Um estudo de dual-fNIRS torna essa questão ainda mais interessante.

Li e colaboradores mediram simultaneamente persuasores e receptores durante uma tarefa naturalística de persuasão. Argumentos que obtiveram sucesso estiveram associados a maior acoplamento neural em determinadas combinações de regiões do que argumentos não persuasivos. As medidas de acoplamento também acrescentaram poder preditivo em relação ao autorrelato. (OUP Academic)

Isso não quer dizer que:

sincronia = convencimento.

Muito menos que fNIRS mede significado ou Qualia.

Mas permite uma pergunta nova:

Se a persuasão humana acontece dentro de uma relação entre dois Corpos-Território, o que muda quando a mensagem é escrita, personalizada ou sugerida por IA?

Talvez Jiwasa esteja justamente aqui

Veja onde chegamos.

Começamos com duas crianças brincando.

Nenhuma peça vence sempre.

Depois percebemos que nossos próprios modos funcionais também não deveriam possuir soberania permanente.

Pedra pode executar.

Tesoura pode interromper e comparar.

Papel pode perceber o próprio modo de perceber.

Agora você e eu construímos uma pergunta que não estava pronta no início do texto.

É nessa direção que BrainLatam utiliza Jiwasa: não como duas consciências tornando-se uma, mas como a possibilidade de surgir entre nós algo que nenhum dos participantes possuía sozinho.

E então colocamos IA no circuito.

A pergunta deixa de ser apenas:

“A IA consegue persuadir?”

Passa a ser:

Quando a IA entra entre nós, ela apenas oferece signos ou começa a participar das condições pelas quais produziremos juntos os próximos signos?

Pergunta NeuroDesafio LATAM

Podemos testar isso.

A mesma mensagem poderia ser apresentada em três condições: atribuída a outro humano, atribuída à IA ou explicitamente personalizada por IA.

O texto poderia ser idêntico.

O que mudaria seria a declaração existencial do signo.

EEG poderia acompanhar dinâmica temporal de atenção e atualização. Dual-fNIRS poderia comparar interação humano-humano e condições mediadas por IA. ECG, respiração e atividade eletrodérmica acrescentariam outras janelas da Materialidade 5D. Relatos em primeira pessoa permitiriam perguntar o que ganhou Qualia, onde permaneceu o canal atencional e se o participante percebeu a própria resposta automática.

E poderíamos acrescentar uma quarta pergunta:

Em que momento você percebeu que ainda podia escolher outra jogada?

Talvez seja esta a pergunta que uma criança já começa a aprender quando descobre que Pedra não vence tudo.

A rede pode conhecer nossos hábitos.

A IA pode aprender nossos cliques.

Pode até prever qual signo tem maior chance de encontrar um caminho já disponível.

Mas enquanto conseguirmos perceber o caminho, compará-lo e criar outro junto com alguém, a história ainda não terminou.

Pedra aprende um caminho. Tesoura pergunta se ele ainda serve. Papel percebe que existem outros caminhos.

E Jiwasa acrescenta:

talvez alguns caminhos só apareçam quando começamos a procurá-los juntos.


Referências comentadas

Gao, J.; Su, Y.; Tomonaga, M.; Matsuzawa, T. (2018). “Learning the rules of the rock–paper–scissors game: chimpanzees versus children”. Primates, 59(1), 7–17. DOI: 10.1007/s10329-017-0620-0.
Crianças de 35 a 71 meses foram testadas na aprendizagem da relação circular Pedra–Papel–Tesoura. O desempenho em pares misturados ficou acima do acaso a partir de cerca de 50 meses. A relevância para BrainLatam não é demonstrar “conectomas Pedra–Papel–Tesoura”, mas mostrar que uma estrutura relacional sem vencedor absoluto pode ser aprendida já na primeira infância. (PubMed)

Upshaw, J. D. et al. (2024). “Electrophysiological effects of smartphone notifications on cognitive control following a brief mindfulness induction”. Biological Psychology, 185, 108725.
Mostra que notificações anteriores alteraram medidas eletrofisiológicas relacionadas ao controle cognitivo e que uma breve indução de mindfulness modulou parte desses efeitos. Oferece uma ponte experimental para perguntar se o efeito de um signo depende também do estado funcional em que encontra o Corpo-Território. (ScienceDirect)

Khambatta, P.; Mariadassou, S.; Morris, J.; Wheeler, S. C. (2023). “Tailoring recommendation algorithms to ideal preferences makes users better off”. Scientific Reports, 13, 9325.
Em 6.488 participantes, recomendações baseadas em preferências ideais produziram menos cliques do que aquelas baseadas nas preferências atuais, mas maior percepção de benefício e tempo bem utilizado. Mostra que engajamento máximo não é a única função de valor possível para personalização algorítmica. (Nature)

Li, Y.; Luo, X.; Wang, K.; et al. (2023). “Persuader-receiver neural coupling underlies persuasive messaging and predicts persuasion outcome”. Cerebral Cortex, 33(11), 6818–6833.
Utilizou dual-fNIRS durante uma interação persuasiva e encontrou associações entre acoplamento neural interpessoal e sucesso persuasivo. É a base para perguntar se mensagens humanas, atribuídas à IA ou personalizadas por IA produzem relações neurofisiológicas diferentes. (OUP Academic)

Møller, A. G.; Romero, D. M.; Jurgens, D.; et al. (2026). “The impact of generative AI on social media: an experimental study”. Scientific Reports, 16, 9376.
Experimento com 680 pessoas mostrando que ferramentas generativas podem alterar participação, produção, qualidade e autenticidade percebida das conversas sociais. Reforça que IA já não atua apenas selecionando signos: começa também a participar de sua produção coletiva. (Nature)

BrainLatam — Pedra, Tesoura, Papel; Yãy hã mĩy Estendido; Materialidade 5D e Jiwasa.
Na formulação BrainLatam, Pedra, Tesoura e Papel são metáforas operacionais, não módulos anatômicos estabelecidos: Pedra enfatiza repertório rápido e incorporado; Tesoura, análise deliberada; Papel, fruição e metacognição. Yãy hã mĩy Estendido descreve o processo de aprender pela observação, repetição, incorporação e posterior possibilidade de transformação; Jiwasa pergunta o que pode emergir quando a relação cria possibilidades que nenhum Corpo-Território possuía sozinho. (brainlatam)







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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States