E se a bolha que nos acolhe não tivesse sido criada por nós?
E se a bolha que nos acolhe não tivesse sido criada por nós?
Você desliza a tela mais uma vez. Encontra algo familiar, emocionante ou surpreendente. Mas, se nossa percepção já é um recorte da realidade, quem escolhe os recortes que chegam até nós?
Série especial BrainLatam | VIII Simpósio em Neurociência e Cognição da UFABC — 2026
QUEM PARTICIPA DO PRÓXIMO MOVIMENTO?
Talvez você esteja lendo este texto no celular.
Observe seus dedos.
Você pode continuar, abrir outra página ou deslizar a tela.
Imagine encontrar um vídeo interessante. Depois aparece outro. O terceiro desperta uma emoção inesperada.
Mais um movimento.
Talvez você tenha escolhido conscientemente continuar. Talvez tenha seguido um hábito.
Mas quem participou das condições dessa escolha?
Essa pergunta acompanha o VIII Simpósio em Neurociência e Cognição da Universidade Federal do ABC (UFABC), programado para 16 a 19 de novembro de 2026, sob o tema “O Cérebro em Contexto: Desafios Contemporâneos da Neurociência Interdisciplinar”.
Para investigar as bolhas sintéticas, precisamos começar antes dos algoritmos.
Precisamos perguntar o que chamamos de realidade.
A REALIDADE JÁ CHEGA COMO RECORTE
Imagine caminhar pela Mata Atlântica.
A luz atravessa as folhas. Seus pés encontram irregularidades no solo. A umidade participa das sensações da pele. Sons surgem de diferentes direções.
Seu organismo integra informações sensoriais, memórias, expectativas e condições corporais.
Mas você não percebe simultaneamente tudo o que acontece naquele Bioma.
Enquanto acompanha uma ave, inúmeros outros acontecimentos continuam ocorrendo.
A experiência que percebemos como realidade constitui um recorte situado da realidade.
Esse reconhecimento não significa que tudo seja ilusão.
Significa que nossa experiência é parcial, corporal e historicamente situada.
O mundo oferece mais acontecimentos e relações do que qualquer organismo consegue perceber simultaneamente.
E aprender pode ampliar aquilo que conseguimos reconhecer.
A TELA APRESENTA O RECORTE DO RECORTE
Agora imagine alguém fotografando aquela floresta.
A câmera seleciona um enquadramento.
A luz é transduzida em sinais elétricos, processada, codificada e armazenada.
Posteriormente, uma tela produz outra configuração de luz para representar aquela informação.
O que aparece diante dos seus olhos não é um fragmento material da floresta.
São pixels produzindo uma representação visual.
Seu organismo realiza novas transduções sensoriais para construir outra experiência perceptiva.
Podemos representar esse percurso:
Realidade → recorte da captura → transdução → codificação → tela → percepção.
A tela também pertence à realidade física. Sua luz existe. As emoções despertadas podem ser reais.
Mas aquilo que representa não está materialmente dentro dela.
A tela apresenta uma representação transduzida de um recorte da realidade, percebida através do nosso próprio recorte.
É o recorte do recorte.
QUEM ESCOLHEU AQUILO QUE NÃO APARECE?
Uma fotografia pode apresentar uma árvore magnífica.
Mas o enquadramento talvez tenha deixado de fora um rio contaminado.
A imagem pode ser autêntica e continuar incompleta.
Agora acrescente outra camada.
Antes de você encontrar aquela fotografia, uma plataforma selecionou sua publicação.
Outras imagens poderiam ter aparecido.
O sistema pode considerar histórico de interações, características dos conteúdos e objetivos definidos por seus operadores.
A pesquisadora brasileira Lucia Santaella, anunciada entre as participantes do simpósio, investiga justamente relações entre comunicação, semiótica, inteligência artificial e cultura de plataformas.
Sua contribuição ajuda a reconhecer que as tecnologias não apenas transportam mensagens.
Elas também participam das condições em que informações e significados circulam.
Quantas escolhas aconteceram antes da escolha que percebemos como nossa?
O BIG DATA NÃO É O MUNDO
Antes que uma inteligência artificial aprenda sobre determinado acontecimento, alguma parte dele precisa transformar-se em dado.
Uma câmera registra luz.
Um microfone registra variações de pressão.
Uma plataforma registra cliques, buscas e permanência.
Um formulário transforma experiências em categorias.
Cada registro possui possibilidades e limites.
Na BrainLatam, formulamos:
O Big Data não é o mundo. É uma coleção de recortes que conseguiram transformar-se em dados.
A pesquisadora latino-americana Paola Ricaurte investiga as estruturas de poder envolvidas no desenvolvimento da inteligência artificial.
Seu trabalho mostra por que os problemas desses sistemas não podem ser reduzidos apenas a erros técnicos ou vieses estatísticos.
Precisamos investigar instituições, interesses, recursos e conhecimentos que determinaram aquilo que seria registrado.
E perguntar:
O que permaneceu invisível porque ninguém construiu instrumentos ou categorias para reconhecê-lo?
QUANDO UMA BOLHA PARECE ACOLHIMENTO
Imagine entrar em uma praça onde muitas pessoas compartilham seus interesses.
Alguém apresenta uma música familiar.
Outra pessoa confirma uma opinião.
Você reconhece palavras, experiências e preocupações semelhantes.
Talvez sinta pertencimento.
Agora imagine que os caminhos dessa praça sejam continuamente reorganizados para aproximá-lo de determinados encontros.
A antropóloga brasileira Letícia Cesarino, em O mundo do avesso, investiga como infraestruturas digitais participam da formação de públicos, crenças e interpretações da realidade.
Uma bolha sintética pode reunir relações humanas verdadeiras dentro de condições artificialmente selecionadas.
Isso não significa que todos os participantes sejam manipulados ou pensem da mesma maneira.
Significa que suas oportunidades de encontro também dependem de arquiteturas que talvez desconheçam.
Sentir pertencimento não garante participar da escolha das regras que organizam esse pertencimento.
O ALGORITMO NÃO PRECISA LER SEUS PENSAMENTOS
Um sistema de recomendação pode utilizar indicadores observáveis.
Quanto tempo você permaneceu diante de uma publicação?
Qual vídeo terminou?
O que compartilhou?
Quais conteúdos ignorou?
Esses sinais ajudam a estimar interesses e comportamentos.
Mas permanecer diante de uma imagem não significa necessariamente gostar dela.
Você pode estar curioso, indignado, distraído ou tentando compreender.
A inferência algorítmica não equivale à experiência subjetiva.
Mesmo assim, pode influenciar aquilo que aparecerá depois.
Seu comportamento modifica recomendações.
Novas recomendações modificam os encontros disponíveis.
Esses encontros geram outros dados.
Surge um circuito de realimentação.
Não precisamos perder nossa capacidade de escolher para que as condições das escolhas sejam continuamente reorganizadas.
POR QUE CONTINUAMOS DESLIZANDO?
Voltemos ao seu dedo.
Talvez você tenha aberto a plataforma para procurar uma informação.
Depois de alguns minutos, acompanha assuntos completamente diferentes.
A continuidade da navegação pode envolver curiosidade, hábitos, expectativas e recompensas sociais.
A possibilidade de encontrar algo interessante no próximo movimento também participa da experiência.
Mas seria inadequado atribuir toda utilização das redes sociais à dopamina ou tratar qualquer rolagem como dependência.
Tecnologias digitais podem ampliar conhecimentos, amizades e oportunidades.
Seus efeitos dependem das pessoas, dos conteúdos e das circunstâncias.
A pesquisadora brasileira Michelle Prazeres, do Instituto Desacelera, acrescenta outra dimensão: o tempo também é organizado socialmente.
Exigências de disponibilidade, trabalho e comunicação participam das condições em que conseguimos desacelerar.
Talvez a pergunta seja:
Quem participa da organização do tempo que conseguimos dedicar ao próprio Ser?
TODAS AS BOLHAS PRODUZEM OS MESMOS EFEITOS?
Um experimento publicado na revista Science, em 2023, investigou usuários do Facebook e Instagram que passaram a receber conteúdos em ordem cronológica.
A mudança reduziu o tempo de utilização e modificou os conteúdos encontrados.
Entretanto, durante os três meses investigados, não produziu alterações estatisticamente significativas em determinadas medidas de polarização e atitudes.
O resultado não demonstra que os algoritmos sejam incapazes de influenciar crenças.
Mostra que exposição, comportamento e opinião precisam ser investigados separadamente.
Também precisamos considerar diferenças entre plataformas, grupos e períodos.
O desafio científico não é presumir que toda recomendação aprisiona.
É identificar quando a personalização amplia nossas possibilidades e quando restringe encontros importantes.
O QUE ACONTECE QUANDO O RECORTE SE REPETE?
Imagine encontrar uma mesma interpretação várias vezes.
Ela aparece em vídeos, comentários e mensagens de conhecidos.
A familiaridade aumenta.
Talvez a narrativa comece a parecer evidente.
Pesquisas sobre o chamado efeito de verdade ilusória mostram que a repetição pode aumentar a percepção de veracidade de determinadas afirmações.
Mas familiaridade não comprova correspondência com a realidade.
Uma experiência emocional também não confirma, sozinha, a interpretação atribuída ao acontecimento.
O sentir testemunha nossa experiência consciente; não demonstra necessariamente a verdade da narrativa que a acompanha.
Quando recortes semelhantes se repetem, podemos encontrar acolhimento.
Também podemos deixar de perceber alternativas que nunca chegaram à nossa tela.
Na BrainLatam, resumimos essa inquietação:
Somos massificados pelas escolhas que não tivemos.
IA PERSONALÍSSIMA: A POSSIBILIDADE DE REABRIR OS RECORTES
Imagine uma inteligência artificial capaz de explicar por que determinada informação foi recomendada.
Você solicita outras fontes.
Ela apresenta divergências, limitações e evidências ausentes.
Você pode modificar critérios e contestar classificações.
Na BrainLatam, propomos a IA Personalíssima como uma interface subordinada ao Corpo-Território.
Em nossa concepção autoral, ela poderia constituir um fractal da relação entre cidadão e Estado-Jiwasa.
Isso envolveria controle sobre dados, transparência e possibilidade de rever decisões.
Mas essa proposta exige desenvolvimento tecnológico, proteção de direitos e avaliação independente.
Uma IA Personalíssima também poderia criar dependências e concentrar informações sensíveis.
Seu propósito não deveria ser prever tão perfeitamente nossas escolhas que deixássemos de encontrar possibilidades novas.
Conhecer nossos recortes anteriores não autoriza transformar nosso passado em destino.
JIWASA: PERTENCER SEM FICAR PRESO
Na BrainLatam, compreendemos o Corpo-Território como unidade indivisível de existência, sensibilidade e participação no mundo.
Utilizamos Jiwasa para propor uma agência compartilhada que preserve a singularidade dos participantes.
Uma bolha pode oferecer reconhecimento.
O Jiwasa acrescenta uma pergunta:
Quem pode participar da transformação das condições do coletivo?
A proposta não exige abandonar tecnologias ou relações digitais.
Convida a investigar como ampliar encontros, conhecer divergências e preservar a possibilidade de mudar.
Essa formulação é filosófica e institucional, não uma conclusão neurocientífica demonstrada.
O QUE EXISTE ALÉM DO PRÓXIMO RECORTE?
Voltemos à Mata Atlântica.
Nenhuma fotografia consegue conter todas as relações daquele Bioma.
Mas cada encontro pode ampliar aquilo que percebemos.
Agora retorne à tela.
Seu dedo encontra novamente a possibilidade de deslizar.
Talvez você continue.
Talvez procure outra perspectiva.
Talvez questione o enquadramento que recebeu.
Reconhecer os recortes não precisa diminuir nossa confiança no conhecimento.
Pode ampliar nossa capacidade de investigar.
Se nunca percebemos a realidade inteira, como construir tecnologias e coletivos que ampliem nossos recortes, em vez de nos aprisionar naqueles que outros escolheram para nós?
Jiwasa: a possibilidade de Ser muitos sem que cada um precise deixar de Ser.
Sobre esta série
Este artigo integra a série especial da BrainLatam, patrocinadora do VIII Simpósio em Neurociência e Cognição da UFABC, previsto para 16 a 19 de novembro de 2026, em São Bernardo do Campo.
O texto dialoga com temas anunciados por Lucia Santaella, Michelle Prazeres e André Fujita, aproximando neurociência, semiótica, inteligência artificial, atenção e organização coletiva.
As formulações autorais não representam necessariamente as posições dos pesquisadores ou da organização do evento.
Evento oficial: https://www.even3.com.br/viii-simposio-em-neurociencia-e-cognicao-da-universidade-federal-do-abc-761401/
Referências — Uma segunda leitura do blog
1. Nossa experiência perceptiva constitui um recorte situado de uma realidade mais ampla.
Cionek, J. (2026). Quem colocou essa verdade dentro de mim? BrainLatam.
O ensaio distingue experiência consciente, interpretação e verdade, mostrando por que sentir algo não comprova automaticamente a narrativa atribuída ao acontecimento.
https://brainlatam.com/blog/quem-colocou-essa-verdade-dentro-de-mim-8726
2. Uma imagem digital resulta de seleções e transduções, não da transferência do próprio acontecimento para a tela.
Cionek, J. (2026). Da percepção à avaliação — como o ambiente passa de imagem a valor. BrainLatam.
O texto diferencia ambiente, captura tecnológica, pixels, experiência perceptiva e avaliação subjetiva.
https://brainlatam.com/blog/da-percepcao-a-avaliacao-como-o-ambiente-passa-de-imagem-a-valor-8553
3. Os dados digitais representam aspectos selecionados da realidade, e não a totalidade do mundo vivido.
Cionek, J. (2026). O Big Data não é o mundo. BrainLatam.
O artigo desenvolve a sequência entre realidade, recorte, transdução, codificação, dados e inferência algorítmica.
https://brainlatam.com/blog/o-big-data-nao-e-o-mundo-8568
4. As plataformas digitais participam das condições de circulação das informações e da produção de significados.
Santaella, L. (2023). Pensar a inteligência artificial: cultura de plataforma e desafios à criatividade. Organização de Daniel Melo Ribeiro e Geane Alzamora. Belo Horizonte: FAFICH/PPGCOM/UFMG.
A pesquisadora brasileira investiga as relações entre inteligência artificial, cultura de plataformas, comunicação e criatividade.
https://seloppgcomufmg.com.br/colecoes/pensar-a-inteligencia-artificial/
5. As infraestruturas digitais também participam da formação de públicos, crenças e pertencimentos.
Cesarino, L. (2022). O mundo do avesso: verdade e política na era digital. São Paulo: Ubu Editora.
A antropóloga brasileira examina as relações entre plataformas, cibernética e transformações da esfera pública contemporânea.
https://www.ubueditora.com.br/
6. Os efeitos da inteligência artificial precisam ser analisados nas estruturas sociais e institucionais que produzem os sistemas.
Ricaurte Quijano, P. (2025). Algorithmic Assemblages of Power: AI Harm and the Question of Responsibility. Teknokultura, 22(2), 201–208.
A pesquisadora latino-americana propõe compreender os danos algorítmicos em diferentes escalas de poder, evitando reduzi-los a problemas exclusivamente técnicos.
https://doi.org/10.5209/tekn.101084
7. Nossos hábitos digitais influenciam decisões sem necessariamente eliminar toda autonomia individual.
Gonzalez, M. E. Q.; Broens, M. C.; Quilici-Gonzalez, J. A.; Kobayashi, G. (2023). Hábitos e racionalidade: um estudo filosófico-interdisciplinar sobre autonomia na era dos Big Data. Trans/Form/Ação, 46, edição especial 1.
O estudo brasileiro, com participação de pesquisadores da UFABC, investiga as relações entre hábitos, racionalidade, informação e autonomia.
https://doi.org/10.1590/0101-3173.2023.v46esp1.p367
8. Modificar a seleção de conteúdos altera a experiência digital, mas não necessariamente as opiniões no mesmo período.
Guess, A. M. et al. (2023). How do social media feed algorithms affect attitudes and behavior in an election campaign? Science, 381, 398–404.
O experimento encontrou mudanças na exposição e no tempo de uso das plataformas, sem alterações estatisticamente significativas em determinadas atitudes durante três meses.
https://doi.org/10.1126/science.abp9364
9. O tempo dedicado às plataformas também depende de condições sociais que ultrapassam as escolhas individuais.
Prazeres, M. (2026). Urgente é gente: estamos vivendo se estamos sempre correndo. Diálogos Editora.
A pesquisadora brasileira discute a aceleração social, as desigualdades e a necessidade de construir possibilidades coletivas de desaceleração.
10. A governança das plataformas pode proteger direitos e ampliar possibilidades de participação e contestação.
UNESCO (2023). Diretrizes para a governança das plataformas digitais: salvaguardar a liberdade de expressão e o acesso à informação com uma abordagem multissetorial.
O documento propõe responsabilidades compartilhadas, transparência e proteção de direitos na governança dos ambientes digitais.
https://www.unesco.org/en/articles/guidelines-governance-digital-platforms
11. Uma inteligência artificial personalíssima deveria reconhecer os limites de seus dados sem transformar a história de alguém em destino.
Cionek, J. (2026). IA Personalíssima — do dado minerado ao dado restituído. BrainLatam.
O ensaio autoral propõe mecanismos de autonomia, proteção de direitos e reconhecimento da possibilidade de transformação do Corpo-Território.
https://brainlatam.com/blog/ia-personalissima-do-dado-minerado-ao-dado-restituido-8658
12. Investigar o cérebro em contexto também significa reconhecer como tecnologias participam de nossas experiências.
UFABC (2026). VIII Simpósio em Neurociência e Cognição — O Cérebro em Contexto: Desafios Contemporâneos da Neurociência Interdisciplinar.
O simpósio aproxima investigações sobre cérebro, cognição, comportamento, tecnologias e sociedade.
Nota conceitual: Corpo-Território, Consciência 5D, Jiwasa, Estado-Jiwasa e IA Personalíssima são formulações autorais da BrainLatam. As referências científicas fundamentam aspectos específicos da discussão e não constituem validação experimental dessas propostas.
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