Cinco anos depois - quanto do nosso EEG continua sendo “nós”?
Cinco anos depois - quanto do nosso EEG continua sendo “nós”?
Cinco anos parecem muito tempo.
Mudamos de rotina. Aprendemos. Esquecemos. Alteramos hábitos, relações, metabolismo, sono, trabalho, alimentação, expectativas e talvez até a maneira como percebemos a nós mesmos.
Mas se registrássemos nosso EEG hoje e repetíssemos exatamente o mesmo procedimento daqui a cinco anos, o que ainda pareceria suficientemente parecido para ser reconhecido como parte de uma trajetória individual?
Essa é a pergunta que torna especialmente interessante o trabalho de Polina Politanskaia e colaboradores, publicado em 2026 na Cerebral Cortex.
No artigo Long-term reliability and stability of parameterized resting state EEG: evidence from a five-year follow-up, os autores investigaram a confiabilidade e a estabilidade de parâmetros periódicos e aperiódicos do EEG de repouso ao longo de aproximadamente cinco anos. O objetivo não era simplesmente descobrir se o EEG “permanece igual”, mas verificar se algumas características continuam suficientemente consistentes para distinguir indivíduos enquanto outras acompanham transformações relacionadas ao tempo e ao envelhecimento. OUP Academic
A pergunta parece quase contraditória:
como algo pode continuar sendo confiavelmente “nosso” enquanto muda?
Talvez justamente aí esteja a parte mais interessante do estudo.
A pergunta que exigiu esperar cinco anos
Grande parte das pesquisas sobre confiabilidade do EEG compara registros separados por dias, semanas ou meses.
Esses estudos são essenciais para saber se uma medida pode ser reproduzida.
Mas, se pretendemos utilizar EEG para investigar envelhecimento, alterações cognitivas ou possíveis trajetórias patológicas, precisamos saber o que acontece em escalas muito maiores.
Politanskaia e colegas analisaram adultos avaliados em dois momentos separados por aproximadamente cinco anos e parametrizaram seus espectros de EEG de repouso.
Entre as medidas avaliadas estavam:
expoente aperiódico, offset aperiódico, potência alfa parametrizada e frequência individual do pico alfa. OUP Academic
A separação entre componentes periódicos e aperiódicos é importante.
Durante décadas, grande parte da interpretação do EEG concentrou-se em bandas como delta, theta, alpha, beta e gamma.
Hoje sabemos que o espectro também contém uma estrutura aperiódica — aproximadamente semelhante a um padrão 1/f - que não deve ser tratada simplesmente como ruído de fundo.
Ao separar esses componentes, podemos perguntar não apenas quanto existe de alpha, por exemplo, mas se uma alteração aparentemente oscilatória não foi parcialmente produzida por uma mudança no próprio fundo espectral.
Cinco anos depois, parte da configuração ainda era reconhecível
Os resultados mostraram confiabilidade teste–reteste variando de razoável a excelente para os parâmetros estudados.
Isso significa que, embora cinco anos tenham passado, diferenças individuais não desapareceram completamente. Pessoas que ocupavam determinadas posições relativas em um parâmetro na primeira avaliação frequentemente continuavam reconhecíveis em relação ao grupo na segunda. OUP Academic
Mas isso não significa imobilidade.
A frequência individual do pico alfa diminuiu ao longo do tempo.
O expoente aperiódico tornou-se mais plano.
O estudo também encontrou mudanças no offset aperiódico, enquanto a potência alfa parametrizada apresentou maior estabilidade. OUP Academic
E aqui aparece uma distinção fundamental:
estabilidade não significa permanecer igual.
Talvez estabilidade seja justamente conseguir mudar sem perder completamente uma trajetória reconhecível.
Uma janela: talvez sempre achemos que finalmente terminamos de mudar
Há uma pesquisa clássica em psicologia que torna esse resultado ainda mais provocador.
Em 2013, Jordi Quoidbach, Daniel Gilbert e Timothy Wilson publicaram na Science o artigo The End of History Illusion.
Os pesquisadores estudaram mais de 19.000 pessoas entre 18 e 68 anos, avaliando personalidade, valores e preferências. Alguns participantes estimaram quanto haviam mudado nos dez anos anteriores; outros imaginaram quanto mudariam nos dez anos seguintes. PubMed
O resultado revelou uma assimetria curiosa.
As pessoas reconheciam mudanças importantes no próprio passado.
Mas imaginavam mudanças consideravelmente menores no futuro.
Era como se pensássemos:
“eu mudei muito até chegar aqui; agora finalmente sou quem vou continuar sendo.”
Quoidbach, Gilbert e Wilson chamaram esse fenômeno de End of History Illusion — Ilusão do Fim da História. PubMed
Os autores sugeriram ainda uma possibilidade interessante: imaginar uma personalidade futura diferente da atual exige trabalho cognitivo. Podemos acabar confundindo a dificuldade de imaginar nossa transformação com a improbabilidade de que ela aconteça. Science
Isso produz uma ponte fascinante com o EEG.
Os dois estudos investigam coisas completamente diferentes e não devemos apresentar um como confirmação do outro.
Quoidbach e colegas investigaram como percebemos e prevemos nossa própria mudança.
Politanskaia e colegas investigaram como características neurofisiológicas realmente se comportam ao longo de cinco anos.
Mas colocados lado a lado produzem uma pergunta:
e se nossa sensação de estabilidade for maior do que a estabilidade material das configurações que continuamente nos sustentam?
O alpha também atravessa o tempo
A frequência individual do pico alfa é uma característica bastante estudada no EEG humano.
Ela apresenta diferenças entre pessoas e também se modifica com fatores como idade e estado funcional.
Politanskaia e colegas encontraram uma redução dessa frequência ao longo dos cinco anos. OUP Academic
Não deveríamos traduzir isso simplesmente como “o cérebro ficou mais lento”.
Essa seria uma interpretação excessivamente ampla.
O resultado mostra algo mais cuidadoso: uma característica espectral individual pode simultaneamente apresentar confiabilidade e seguir uma trajetória temporal.
O mesmo raciocínio vale para o componente aperiódico.
Não existe necessariamente um único sinal que possamos chamar de “EEG do envelhecimento”.
Diferentes propriedades mudam de maneiras diferentes.
E talvez seja justamente essa multiplicidade que permita ao EEG acompanhar trajetórias em vez de oferecer apenas uma fotografia.
Corpo-Território: cinco anos entram no segundo EEG
Entre o primeiro e o segundo registro não passaram apenas cinco anos no calendário.
Passaram cinco anos vividos.
Sono.
Estresse.
Exercício.
Aprendizagem.
Relações.
Ambientes.
Doenças.
Medicamentos.
Perdas.
Novas experiências.
O estudo não permite separar quanto cada uma dessas dimensões contribuiu para as mudanças observadas.
Mas, pela perspectiva do Corpo-Território, isso nos lembra que o segundo EEG não encontra simplesmente “o mesmo cérebro cinco anos mais velho”.
Encontra um organismo que atravessou cinco anos de território.
O Corpo que retorna ao laboratório possui continuidade com aquele que esteve ali anteriormente.
Mas não precisa ser a mesma configuração.
Quanto do EEG é “eu”?
Precisamos manter cuidado aqui.
EEG não é identidade.
Uma frequência alpha não é o sujeito.
O expoente aperiódico não é “o eu”.
Esses parâmetros são transduções de aspectos da atividade neural.
Mas sua estabilidade longitudinal permite fazer uma pergunta interessante:
quanto de determinada configuração neurofisiológica pode acompanhar um Corpo ao longo do tempo?
E, inversamente:
quanto ela pode mudar sem que deixemos de reconhecer uma trajetória?
Essa pergunta também possui relevância clínica.
Se conseguirmos compreender melhor as trajetórias esperadas do envelhecimento, mudanças que se afastam delas poderão futuramente ajudar a identificar processos atípicos.
Isso exige estudos maiores, replicação e acompanhamento longitudinal. Mas é justamente para isso que estabelecer confiabilidade de longo prazo se torna importante.
Consciência 5D: Ser não precisa significar repetir o estado anterior
Para nossa proposta de Consciência 5D, esse trabalho oferece uma analogia especialmente fértil.
Ser não precisa significar permanecer na mesma configuração.
O estado atual pode carregar história suficiente para que exista continuidade sem ser uma repetição exata do estado anterior.
Nesse sentido:
continuidade ≠ imobilidade.
Um organismo pode mudar continuamente e ainda perceber-se como ele mesmo.
Isso também ajuda a reinterpretar a “Ilusão do Fim da História”.
Talvez aquilo que hoje percebemos como nossa versão relativamente definitiva seja apenas a configuração a partir da qual conseguimos imaginar o futuro.
Não conseguir imaginar quem poderemos ser não significa que o Corpo-Território não seja capaz de tornar-se outra configuração.
O presente talvez seja apenas mais um estado de passagem
O estudo de Politanskaia e colegas mostra algo aparentemente simples, mas profundamente interessante.
Cinco anos depois:
algumas características permanecem reconhecíveis;
outras mudam;
e ambas podem pertencer ao mesmo indivíduo.
Talvez identidade biológica não dependa de conservar um estado.
Talvez dependa de conservar continuidade suficiente através das transformações.
E talvez a pergunta mais interessante não seja:
“quanto de mim permaneceu igual?”
Mas:
“quanto eu consigo mudar e ainda reconhecer a trajetória como minha?”
A Ilusão do Fim da História sugere que frequentemente olhamos para trás e vemos movimento, mas olhamos para a frente e imaginamos chegada.
O EEG longitudinal nos oferece outra imagem:
o presente também está passando.
O Corpo-Território de hoje não precisa ser a versão final daquele que perceberemos Ser amanhã.
Algumas características poderão permanecer.
Outras encontrarão novos movimentos.
E talvez consciência seja também isso:
estabilidade suficiente para perceber continuidade e abertura suficiente para ainda poder mudar.
Referências
Politanskaia, P., Bywater, J., Finley, A. J., Keage, H. A. D., Kelley, N. J., McKeown, D. J., Schinazi, V. R., & Angus, D. J. (2026). Long-term reliability and stability of parameterized resting state EEG: evidence from a five-year follow-up. Cerebral Cortex, 36(7), bhag113. https://doi.org/10.1093/cercor/bhag113
Mostra que parâmetros periódicos e aperiódicos do EEG podem permanecer suficientemente confiáveis ao longo de aproximadamente cinco anos e, ao mesmo tempo, apresentar mudanças sistemáticas associadas à passagem do tempo. OUP Academic
Quoidbach, J., Gilbert, D. T., & Wilson, T. D. (2013). The End of History Illusion. Science, 339(6115), 96–98. https://doi.org/10.1126/science.1229294
Em mais de 19.000 participantes entre 18 e 68 anos, mostrou que tendemos a reconhecer quanto mudamos no passado enquanto subestimamos quanto ainda poderemos mudar no futuro, oferecendo uma ponte entre continuidade percebida e transformação. PubMed
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