Da Pergunta ao Experimento: Avatares Neurocientíficos para uma Agenda Decolonial na OHBM 2026
Da Pergunta ao Experimento: Avatares Neurocientíficos para uma Agenda Decolonial na OHBM 2026
A OHBM 2026 confirma um movimento importante da neurociência contemporânea: o cérebro já não pode ser pensado apenas como um órgão isolado, imóvel e tratado como medida universal da experiência humana. Quando a programação reúne temas como human cognition in naturalistic environments, Language Across Brain Systems and the Lifespan, Modeling and Analysis of Multimodal Data, AI and the Analysis of brain structure and function, Neuroinformatics and Data Sharing, sono, memória, criatividade, sincronização social e multimodalidade, o que aparece é uma abertura crescente para perguntas mais sensíveis ao contexto, à variabilidade, ao corpo e à vida vivida.
É justamente nesse ponto que a gente quer fazer um convite à comunidade latino-americana que estará na OHBM 2026 — ou que acompanha seus debates. Não apenas acompanhar novos métodos, novos modelos e novos bancos de dados, mas perguntar algo mais fundo: o que muda quando muda a lente com que formulamos a pergunta científica?
Os Avatares Neurocientíficos de Percepção nascem como resposta prática a essa questão. Eles não são personagens decorativos, nem linguagem paralela ao trabalho científico. São lentes conceituais e operacionais para formular perguntas diferentes, desenhar experimentos mais sensíveis e interpretar dados com maior densidade ecológica, cultural, corporal e inferencial. No documento-base, sua função já aparece com clareza: cada avatar atua como um guia de recorte, orientando o que perguntar, o que controlar, o que medir e como interpretar o fenômeno. A própria formulação central é forte: a profundidade da pergunta modula as próximas percepções, e a boa pergunta define o recorte, o desenho experimental e o tipo de dado que fará sentido.
Nossa proposta parte de uma convicção simples: mudar a lente muda a pergunta; mudar a pergunta muda o experimento; mudar o experimento muda o tipo de evidência que a neurociência consegue produzir. Quando a pergunta muda, mudam também a escolha das variáveis, a unidade de análise, a métrica, o controle e o alcance da inferência. E, num momento em que a OHBM 2026 discute desde cognição em ambientes naturalísticos até EEG reprodutível, dados federados, linguagem, desenvolvimento, IA, neuroinformática, sono, memória e criatividade, a América Latina tem muito a contribuir oferecendo não apenas novos dados, mas também novas lentes para perguntar.
É nesse espírito que apresentamos os avatares: como uma proposta de trabalho para pesquisadores que desejam formular perguntas e experimentos decoloniais com ciência e evidência. Cada avatar destaca uma dimensão frequentemente reduzida na neurociência tradicional — neurodinâmica viva, afeto em primeira pessoa, cultura e território, mudança de modo, corpo-território, sincronização coletiva, causalidade e organização viva. O objetivo não é substituir o método, mas exigir método melhor. Não é abandonar mensuração, mas medir melhor aquilo que antes era tratado como ruído, pano de fundo ou exceção.
Uma base comum: recorte, conectomas e zonas
No material de origem, os avatares aparecem articulados a uma leitura funcional em três modos — Tesoura, Pedra e Papel — com ponte para as Zonas 1, 2 e 3. Tesoura remete ao pré-frontal, ao recorte, à classificação e ao controle; Pedra, ao sensório-motor, ao hábito e à reação; Papel, à fruição com metacognição, ou seja, à reorganização crítica com regulação corporal. Essa arquitetura já sugere que percepção e comportamento não podem ser reduzidos a uma única métrica ou a um único circuito. Elas emergem de combinações funcionais, estados corporais e condições de contexto.
A força dos avatares está exatamente aí: eles permitem transformar essa arquitetura em perguntas operacionais.
1) Brainlly — Neurodinâmica viva da percepção
Função científica: investigar a dinâmica neurofisiológica de estados, transições e acoplamentos entre atividade neural, glia, sangue e comportamento.
O que ele obriga a perguntar:
Que padrão neurofisiológico acompanha este estado? O que muda na transição entre modos? Como o cérebro e o corpo se reorganizam ao sair de uma rigidez e entrar em maior flexibilidade?
Força experimental:
Brainlly ajuda a transformar experiências subjetivas e mudanças comportamentais em hipóteses sobre tempo neural, acoplamento neurovascular e mudança de estado. É a lente adequada quando a pergunta exige acompanhar o organismo em movimento, em transição ou em variação fina.
Variáveis típicas:
EEG, fNIRS, SpO₂, pupila, tempo de reação, variabilidade trial a trial.
Valor decolonial:
Impede que o comportamento seja tratado apenas como relato ou apenas como média. Obriga a ver a neurodinâmica viva do organismo, e não só um recorte congelado.
2) Iam — Afeto, motivação e consciência em primeira pessoa
Função científica: investigar como afetos, vínculos, motivações, emoções e sentimentos modulam percepção, memória, decisão e regulação.
O que ele obriga a perguntar:
O que regula ou desregula este corpo? Que emoção curta está sustentando um sentimento mais estável? Como o valor subjetivo altera a maneira de perceber, lembrar e escolher?
Força experimental:
Iam impede que o experimento trate o sujeito como máquina neutra de resposta. Ele força a entrada da primeira pessoa como dimensão legítima do fenômeno, mas de forma mensurável e comparável.
Variáveis típicas:
HRV, GSR, respiração, microexpressões, escalas breves, auto-relatos de estado.
Valor decolonial:
Recoloca a vida afetiva no centro sem abandonar ciência com evidência. Faz a pergunta voltar ao corpo que vive e sente.
3) Olmeca — Cultura, história de vida e conectoma social
Função científica: investigar como cultura, linguagem, escolarização, biografia, classe, território simbólico e desenvolvimento social modulam cérebro e comportamento.
O que ele obriga a perguntar:
Que parte deste resultado depende de cultura e trajetória? O mesmo estímulo significa o quê para pessoas diferentes? O dado está captando o fenômeno ou está captando uma história social não modelada?
Força experimental:
Olmeca impede que diferenças socioculturais sejam tratadas apenas como ruído ou covariável de rodapé. Ele obriga a incluir história de vida, contexto linguístico e território social como parte material do desenho.
Variáveis típicas:
Entrevistas curtas, análise de narrativa, desenho transcultural, contexto linguístico, escolaridade, variáveis socioculturais.
Valor decolonial:
Combate universalizações frágeis e dialoga diretamente com o problema de generalização e com a crítica ao viés WEIRD já mencionado no documento-base.
4) Yagé — Mudança de modo e metacognição aplicada
Função científica: investigar flexibilização de constructos, mudança de modo atencional e passagem entre automatismo, rigidez e reorganização crítica.
O que ele obriga a perguntar:
O sujeito consegue observar a própria percepção? Consegue flexibilizar um modo rígido? Em que ponto deixa de repetir um script e começa a reorganizar a própria leitura da situação?
Força experimental:
Yagé é especialmente útil em tarefas de reversão, reavaliação, mudança de estratégia e metacognição. Ele ajuda a investigar passagem entre Zonas 1, 2 e 3 como processo experimental, não apenas como metáfora.
Variáveis típicas:
Erro e adaptação, medidas metacognitivas, EEG/fNIRS em transições, paradigmas de reversão e reinterpretação.
Valor decolonial:
Abre espaço para investigar criticidade real, e não apenas desempenho sob regras já dadas.
5) APUS — Corpo-Território e propriocepção estendida
Função científica: investigar como postura, gravidade, espaço, ritmo, ambiente e organização territorial entram no corpo e modulam foco, emoção, memória e decisão.
O que ele obriga a perguntar:
Que fator do ambiente reorganiza o corpo? Como o território altera foco, emoção e escolha? O que muda quando o corpo está em outro espaço, outro trajeto, outra densidade relacional?
Força experimental:
APUS desloca o experimento do cérebro isolado para o organismo situado. Ele exige que ambiente, movimento, posição e relação corpo-espaço deixem de ser pano de fundo e se tornem parte observável do fenômeno.
Variáveis típicas:
IMU, postura, respiração, HRV, mapas de trajeto, navegação, medidas ecológicas de contexto.
Valor decolonial:
Reconecta cognição e território, impedindo que a experiência humana seja tratada como abstração sem chão.
6) Jiwasa — Sincronismo, desincronismo e dinâmica coletiva
Função científica: investigar coordenação, conflito, coesão, contágio afetivo, timing social e acoplamento entre pessoas em tarefa comum.
O que ele obriga a perguntar:
Há sincronia real ou alinhamento por pressão? O grupo está em cooperação viva ou em captura coletiva? Onde aparece coesão, e onde aparece apenas repetição?
Força experimental:
Jiwasa é a lente ideal para paradigmas de hyperscanning, turn-taking, liderança, coordenação social, sincronização fisiológica e comparação entre cooperação e submissão grupal.
Variáveis típicas:
Hyperscanning EEG/fNIRS, HRV e respiração sincronizada, análise de fala, dinâmica temporal de grupo, erro coletivo.
Valor decolonial:
Recoloca o “nós” como unidade legítima de investigação sem apagar a singularidade dos participantes.
7) Math/Hep — Ciência com evidência, relação, causalidade e Eu Tensional como unidade de análise
Função científica: transformar intuição teórica em hipótese testável, distinguindo descrição, correlação, predição e causalidade, e definindo com clareza qual eu tensional está sendo medido.
Esse ponto é crucial. Se a pesquisa quer fazer inferência séria sobre “o mesmo eu tensional”, ela não pode tratar o eu como entidade vaga. Precisa defini-lo operacionalmente.
Definição operacional proposta:
Eu tensional = configuração relativamente estável de acoplamentos neurofisiológicos, corporais e comportamentais que sustenta um modo recorrente de perceber, agir e regular-se numa dada classe de contexto.
Essa formulação é importante porque preserva a possibilidade estatística. Ela não trata o “mesmo eu” como essência fixa, mas como classe de configuração funcional com critérios de pertencimento.
O que ele obriga a perguntar:
Qual eu tensional estou medindo? Quais marcadores fisiológicos, comportamentais e contextuais definem sua recorrência? Qual critério permite dizer que dois episódios pertencem ao mesmo eu tensional? Que manipulação pode deslocá-lo? Que controle impede confundir tarefa, emoção aguda e padrão tensional recorrente?
Força experimental:
Math/Hep organiza desenho experimental, controle de viés, replicabilidade, inferência e definição clara da unidade de análise. Sem ele, a pesquisa corre o risco de falar em eu tensional sem saber exatamente o que está comparando.
Regra metodológica:
Uma hipótese testável por vez, com unidade de análise claramente definida.
Valor decolonial:
Protege contra excesso de metáfora, excesso de correlação e excesso de certeza não testada. Obriga a pesquisa a medir configurações recorrentes observáveis, e não rótulos soltos.
8) DANA — Inteligência do DNA e organização viva em território
Função científica: investigar estabilidade biológica, ritmos, regulação de longo prazo e relação entre ambiente, pertencimento biológico e sustentação da criatividade e da estabilidade funcional.
O que ele obriga a perguntar:
Que condições sustentam estabilidade, regulação e criatividade ao longo do tempo? Qual base biológica dá suporte à manutenção de estados mais organizados? Como ambiente e pertencimento modulam estabilidade viva?
Força experimental:
DANA é especialmente útil quando a pergunta exige observar manutenção de estado, ritmo, sono, regulação e sustentação longitudinal, em vez de apenas resposta aguda a tarefa curta.
Variáveis típicas:
Marcadores fisiológicos longitudinais, ritmos, sono, regulação autonômica, variáveis ambientais e padrões de estabilidade.
Valor decolonial:
Reconecta vida, regulação e pertencimento biológico sem reduzir tudo a evento agudo, instante isolado ou tarefa curta.
O que os avatares oferecem à OHBM 2026
Vistos dessa forma, os avatares deixam de parecer elementos de comunicação paralela e passam a funcionar como conceitos operacionais para pesquisa. Cada um destaca uma dimensão frequentemente reduzida na neurociência tradicional: neurodinâmica viva, afeto em primeira pessoa, cultura e biografia, mudança de modo, corpo-território, sincronização coletiva, causalidade e organização viva. O ponto não é substituir conceitos clássicos, mas forçar perguntas mais ricas, desenhos mais sensíveis e leituras mais honestas dos dados.
Para a OHBM 2026, isso cria um convite muito claro. Usar essas lentes para gerar novas perguntas e experimentos decoloniais com ciência e evidência, especialmente em temas que o próprio congresso já está abrindo: naturalistic environments, linguagem, multimodalidade, EEG, sincronia, desenvolvimento, sono, memória, criatividade, IA e compartilhamento de dados.
Porque talvez a próxima contribuição forte da América Latina para a neurociência não seja apenas trazer novos participantes para protocolos já prontos. Talvez seja ajudar a comunidade internacional a perguntar melhor:
o que muda quando o corpo entra como variável real;
o que muda quando o território deixa de ser pano de fundo;
o que muda quando cultura e linguagem deixam de ser ruído;
o que muda quando o “nós” também vira unidade legítima de investigação;
e o que muda quando a inferência precisa dizer com clareza qual eu tensional está sendo medido.
É nesse ponto que os avatares podem deixar de ser apenas uma proposta conceitual e começar a funcionar como aquilo que mais importa para pesquisadoras e pesquisadores sérios: uma agenda prática para novas perguntas, novos desenhos experimentais e novas evidências.