Dinheiro novo precisa nascer de dívida nova? - Eleições 2026 Presidente
Dinheiro novo precisa nascer de dívida nova? - Eleições 2026 Presidente
Bancos, crédito, juros, concentração, meios de comunicação e uma proposta BrainLatam: e se uma parte limitada do dinheiro novo começasse no Corpo-Território?
Imagine mil pessoas chegando a uma ilha.
Não existe banco.
Não existe governo.
Não existe real.
Não existe bolsa de valores.
Para sobreviver, elas começam a se organizar.
Um grupo planta.
Outro pesca.
Outro constrói casas.
Outros cuidam das crianças, produzem ferramentas, roupas e medicamentos.
Depois de algum tempo aparece um problema simples: trocar diretamente uma cadeira por peixes nem sempre funciona.
Então a sociedade cria uma moeda.
Um pequeno grupo recebe autorização para produzir papéis que todos aceitam como meio de troca.
Agora o agricultor vende alimento, recebe papéis e compra uma ferramenta amanhã.
A moeda trouxe dinamismo.
Mas alguma coisa também aconteceu:
um grupo passou a controlar uma das portas pelas quais o dinheiro entra na sociedade.
Vinte gerações depois
Imagine agora que alguém queira construir um barco.
Não possui papéis suficientes.
O grupo monetário responde:
“Podemos criar dez mil unidades para você. Depois você devolverá doze mil.”
Nasceram simultaneamente:
dinheiro novo
e
dívida nova.
Se o barco aumenta a produção da ilha, pode ser excelente.
O problema não é o crédito.
Mas observe o que pode acontecer ao longo das gerações.
Quem possui uma casa consegue oferecer garantia.
Quem possui dez casas oferece garantias maiores.
Recebe mais crédito.
Compra outra empresa.
Agora possui mais patrimônio.
Esse novo patrimônio permite obter mais financiamento.
Nada disso exige necessariamente fraude.
Pode acontecer obedecendo às próprias regras.
E então surge uma pergunta política:
Quem recebe primeiro o dinheiro novo pode também adquirir mais facilmente aquilo que produzirá riqueza amanhã?
Nos sistemas contemporâneos, bancos efetivamente criam novos depósitos quando concedem crédito. Isso não significa liberdade infinita: capital, liquidez, risco, supervisão e as regras de Basileia limitam a expansão. Ainda assim, a criação de crédito é uma das principais portas pelas quais nova capacidade monetária entra na economia. (IMF)
O problema não é que o banco consiga criar crédito
Precisamos ser claros.
Crédito pode financiar:
uma fábrica;
uma colheita;
uma casa;
uma pesquisa;
um pequeno comércio;
uma tecnologia.
Uma sociedade sem crédito provavelmente produziria muito menos futuro.
A pergunta BrainLatam é outra:
para quem essa capacidade chega primeiro e o que acontece depois?
No Brasil, pesquisas recentes mostram como rendas associadas à propriedade de ativos financeiros podem canalizar parcela relevante da renda agregada para proprietários de ativos. O fenômeno não significa que todo rendimento financeiro seja ilegítimo, mas revela que a distribuição de renda não acontece apenas entre salário e lucro produtivo: existem também fluxos rentistas importantes. (OUP Academic)
A própria estrutura das grandes corporações brasileiras apresenta redes de propriedade nas quais instituições financeiras, famílias, multinacionais e o Estado ocupam posições centrais. (SciELO)
Talvez a pergunta correta não seja apenas:
quanto dinheiro existe?
Mas:
onde ele nasce, por onde passa e em quais Corpos-Territórios termina concentrado?
E por que quase nunca perguntamos quem está no final?
Quando ouvimos:
“a dívida pública custa muito”,
normalmente pensamos no Estado que paga.
Mas toda dívida possui dois lados.
Quem paga.
E quem recebe.
Então poderíamos perguntar:
quem são os beneficiários finais dos juros?
Não significa publicar o CPF de cada pessoa que possui Tesouro Direto.
Há fundos de previdência, bancos, fundos de investimento, investidores estrangeiros, empresas e milhões de poupadores.
Além disso, custódia e estruturas intermediárias tornam impossível reduzir automaticamente cada título público a um CPF visível à sociedade.
Mas poderíamos conhecer melhor a concentração econômica final.
O mesmo vale para terras.
Não basta saber quantos CNPJs aparecem como proprietários se diferentes empresas pertencem ao mesmo beneficiário final.
E o mesmo raciocínio pode alcançar fundos, concessões, mineração e participações societárias.
A questão BrainLatam não é publicar a vida financeira de cada cidadão.
É permitir que a democracia enxergue:
quanto do poder econômico termina concentrado nos mesmos beneficiários finais?
Mas existe uma concentração ainda mais silenciosa: a das perguntas
É aqui que a economia encontra a Consciência 5D.
Imagine que, na nossa ilha, depois de vinte gerações, alguns dos grupos mais ricos também passem a controlar os jornais, as rádios e os lugares onde as pessoas conversam.
Eles não precisam proibir a pergunta:
“quem recebe os juros?”
Podem simplesmente falar diariamente sobre outras coisas.
Na Consciência 5D, aquilo que aparece repetidamente tende a permanecer pré-ativado no Território Informacional.
“Governo gastou demais.”
“Mercado perdeu confiança.”
“Precisamos aumentar juros.”
Podem ser perguntas legítimas.
Mas outras também são:
Quem recebe esses juros?
Quem controla os fundos?
Quem concentra terras?
Quem controla os meios pelos quais aprendemos sobre economia?
Se essas perguntas aparecem pouco, talvez não recebam Qualia suficiente para capturar nossa atenção coletiva.
A opacidade mais poderosa, portanto, talvez não seja esconder uma resposta.
É fazer com que determinada pergunta raramente chegue ao espaço interno onde poderia ser pensada.
Pesquisa brasileira publicada em 2026 descreve o espaço público digital como uma disputa pela visibilidade e mostra que, apesar da multiplicação das fontes digitais, organizações tradicionais continuam ocupando posições simbolicamente centrais no ecossistema informacional brasileiro. O trabalho também ressalta a histórica concentração da propriedade da mídia no país. (SciELO)
O Digital News Report 2024 igualmente descreveu a propriedade de mídia no Brasil como concentrada em alguns grandes conglomerados privados. (reutersinstitute.politics.ox.ac.uk)
Isso não significa que proprietários telefonem diariamente para jornalistas ordenando o que devem dizer.
O problema pode ser muito mais estrutural:
modelos de negócio,
publicidade,
fontes privilegiadas,
algoritmos,
rotinas editoriais
e disputas por atenção também determinam quais questões permanecem visíveis.
O Despertar de Tudo: as regras não são naturais
David Graeber e David Wengrow, em O Despertar de Tudo, questionam justamente a ideia de que as sociedades humanas seguem obrigatoriamente uma única sequência institucional.
Os humanos experimentaram diferentes formas de propriedade, autoridade, organização social e mercado.
Isso importa porque bancos, fundos, moedas e mecanismos de crédito parecem tão naturais hoje que frequentemente esquecemos:
foram construídos por sociedades humanas.
Podem ser reconstruídos.
Não precisamos eliminar mercado ou propriedade para imaginar outra arquitetura monetária.
Varoufakis acrescenta outra pergunta
Em Tecnofeudalismo, de 2023, Yanis Varoufakis argumenta que grandes plataformas digitais adquiriram um poder diferente daquele da empresa capitalista tradicional.
Elas não apenas competem no mercado.
Em certos casos, controlam o espaço pelo qual o mercado precisa passar.
Quem vende depende da plataforma.
Quem anuncia depende da plataforma.
Quem procura depende da plataforma.
Surge uma capacidade de cobrar renda pelo acesso.
Mesmo que não aceitemos integralmente sua tese de que o capitalismo morreu, a pergunta permanece poderosa:
O que acontece quando uma empresa deixa de competir apenas dentro do mercado e passa a possuir parte da infraestrutura na qual o próprio mercado acontece?
A BrainLatam acrescenta:
e o que acontece quando estruturas semelhantes influenciam simultaneamente dinheiro, patrimônio e atenção?
O que os candidatos propõem?
Nas Eleições 2026 Presidente, encontramos arquiteturas bastante diferentes.
Lula mantém uma economia mista, com bancos públicos, crédito produtivo, políticas de renda e atuação estatal.
Flávio Bolsonaro enfatiza disciplina fiscal, redução de gastos, empreendedorismo e crédito privado.
Romeu Zema coloca mercado, privatização e disciplina fiscal em posição central.
Ronaldo Caiado, Renan Santos, Augusto Cury e Clariana Barão, com diferenças importantes entre si, defendem forte responsabilidade ou ajuste fiscal.
Edmilson Costa, Hertz Dias, Rui Costa Pimenta e Samara Martins propõem graus diferentes de estatização bancária, auditoria ou suspensão da dívida.
Wilson Grassi propõe substituir vários tributos por um Imposto Único Federal incidente sobre transações.
Os documentos oficiais estão reunidos no repositório do TSE. Para Pablo Marçal, não identificamos ali um plano oficial equivalente que permita atribuir uma arquitetura monetária sem inferência. (Justiça Eleitoral)
São diferenças enormes.
Mas talvez possamos fazer a todos uma pergunta anterior:
Por que quase todo dinheiro novo precisa chegar primeiro através da decisão de quem receberá crédito?
Drex Cidadão: uma segunda porta
Aqui entra uma proposta explicitamente BrainLatam, não pertencente a nenhuma candidatura.
Manteríamos:
bancos;
crédito;
investimento;
propriedade;
lucro;
risco;
mercado.
Mas acrescentaríamos uma segunda porta.
Hoje temos:
crédito → dívida → novo depósito bancário.
Propomos discutir também:
Corpo-Território → emissão soberana limitada → Rendimento País.
Imagine que estudos técnicos indiquem espaço macroeconômico para determinada expansão monetária sem pressionar excessivamente inflação, câmbio ou capacidade produtiva.
Em vez de toda aquela nova capacidade entrar inicialmente apenas através de novas dívidas, uma pequena parcela poderia ser igualmente distribuída aos cidadãos.
R$ 100.
R$ 200.
R$ 300.
Não importa agora o número.
Importa a arquitetura.
O dinheiro começaria sua circulação em milhões de Corpos-Territórios.
O FMI publicou em 2025 um estudo explorando CBDCs de varejo como infraestrutura para políticas sociais. O trabalho não recomenda o modelo BrainLatam e ressalta que sistemas como o Pix já resolvem muitas funções de pagamento, mas reconhece possibilidades de transferências governamentais por carteiras digitais, automação e administração pública de benefícios. Também destaca que CBDCs precisam de fortes salvaguardas de privacidade. (IMF)
Mas isso não poderia virar inflação ou populismo?
Poderia.
Por isso a proposta só faz sentido com limites.
A emissão não seria decisão livre do presidente.
Precisaria responder a regras como:
inflação;
capacidade produtiva;
emprego;
oferta de alimentos;
energia;
produtividade;
pressão cambial;
e utilização industrial.
Se não houver espaço econômico, a emissão cai para zero.
E o cidadão precisaria continuar tendo privacidade.
Comprar pão não pode criar um dossiê estatal.
Rastreabilidade das grandes estruturas financeiras não é vigilância da vida cotidiana.
Por que isso também é uma pergunta de Neurociência Decolonial?
Porque insegurança material não existe apenas no balanço bancário.
Ela chega ao Corpo-Território.
Pesquisadores latino-americanos liderados por Agustín Ibáñez, Sebastián Moguilner, Sandra Báez e colaboradores vêm mostrando que desigualdades socioeconômicas e ambientais se associam a diferenças de saúde cerebral nas Américas, com associações especialmente fortes nas populações latino-americanas. Esses achados não significam que pobreza determine um cérebro ou que transferência de renda produza criatividade automaticamente. Mostram algo mais fundamental: condições macrossociais também se incorporam biologicamente à vida. (Nature)
Talvez reduzir a ansiedade econômica não produza automaticamente inventores.
Mas pode devolver algo anterior à invenção:
tempo para pensar;
possibilidade de estudar;
liberdade para experimentar;
capacidade de recusar;
espaço interno para imaginar.
E então nossa pergunta monetária muda.
Não é apenas:
quanto dinheiro existe?
É:
em quais Corpos-Territórios ele começa sua trajetória?
Nas Eleições 2026, talvez a criticidade econômica comece quando conseguirmos perguntar:
Quem escreve as regras do dinheiro, quem recebe primeiro o dinheiro novo e quem possui os meios pelos quais aprendemos a pensar sobre essas próprias regras?
Porque talvez existam muitas formas de capitalismo.
E talvez liberdade econômica não seja apenas poder escolher dentro das regras existentes.
Talvez seja também recuperar democraticamente a capacidade de perguntar quem escreveu essas regras — e se ainda queremos que o dinheiro continue nascendo sempre pelas mesmas portas.
Referências
LEGAZ, Agustina; ALTSCHULER, Florencia; GONZALEZ-GOMEZ, Raul; BÁEZ, Sandra; MOGUILNER, Sebastián; IBÁÑEZ, Agustín et al. Structural inequality linked to brain volume and network dynamics in aging and dementia across the Americas. Nature Aging, 2025. DOI 10.1038/s43587-024-00781-2. (Nature)
MOGUILNER, Sebastián et al. Brain clocks capture diversity and disparities in aging and dementia across geographically diverse populations. Nature Medicine, 2024. (Nature)
IBÁÑEZ, Agustín et al. Healthy aging meta-analyses and scoping review of risk factors across Latin America reveal large heterogeneity and weak predictive models. Nature Aging, 2024. (Nature)
Rentiers and distributive conflict in Brazil (2000–2019). Cambridge Journal of Economics, v. 48, 2024. Análise da participação das rendas rentistas na distribuição funcional da renda brasileira. (OUP Academic)
The dynamics of the Brazilian digital public space on Twitter. Revista Brasileira de Ciência Política, 2026. Análise do espaço informacional brasileiro, centralidade midiática, visibilidade e concentração. (SciELO)
NIKITIN, Denis; SCHMALHOLZ, Johan; BLOCH, Carolina. Can Retail Central Bank Digital Currencies Improve the Delivery of Social Safety Nets? IMF Working Paper WP/25/211, 2025. (IMF)
GRAEBER, David; WENGROW, David. O Despertar de Tudo: Uma Nova História da Humanidade. 2021. Referência conceitual sobre pluralidade histórica das organizações sociais.
VAROUFAKIS, Yanis. Technofeudalism: What Killed Capitalism. 2023. Referência conceitual sobre capital de nuvem, plataformas e extração de renda.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Propostas de Governo — Eleições 2026. Documentos oficiais das candidaturas utilizados na comparação. (Justiça Eleitoral)
¿Y si el Cuerpo-Territorio fuera una unidad del Estado? - Elecciones Presidenciales de Brasil 2026
What If the Body-Territory Were a Unit of the State? - Brazil 2026 Presidential Election
E se o Corpo-Território fosse uma unidade do Estado? - Eleições 2026 Presidente
¿El dinero nuevo necesita nacer de una deuda nueva? - Elecciones Presidenciales de Brasil 2026
Does New Money Need to Be Born from New Debt? - Brazil 2026 Presidential Election
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