Jackson Cionek
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E se o Corpo-Território fosse uma unidade do Estado? - Eleições 2026 Presidente

E se o Corpo-Território fosse uma unidade do Estado? - Eleições 2026 Presidente

O artigo final da série não procura o plano perfeito. Propõe uma forma prática de perguntar o que cada projeto político consegue enxergar — e o que permanece fora do campo de atenção.

Imagine que você tenha oito perguntas importantes para fazer a quem pretende governar o Brasil.

Segurança.

Emprego.

Saúde.

Moradia.

Educação.

Preço dos alimentos.

Violência.

Aposentadoria.

Agora faça um pequeno experimento.

Imagine que amanhã exista um Rendimento País, depositado regularmente no Drex Cidadão, suficiente para garantir um piso econômico básico sem que esse dinheiro chegue como empréstimo ou nova dívida pessoal.

Olhe novamente para suas oito perguntas.

Qual delas desapareceria?

Talvez nenhuma.

Mas talvez alguma perdesse intensidade.

Talvez a pergunta:

“Vou conseguir comer no mês que vem?”

se transformasse em:

“Que trabalho quero conseguir fazer melhor?”

Talvez:

“Não posso sair desta relação porque não tenho renda”

se transformasse em:

“Quero continuar aqui?”

Talvez:

“Meu filho precisa trabalhar imediatamente”

se transformasse em:

“Ele pode terminar os estudos?”

Esse exercício simples revela algo importante.

Política pública não modifica apenas renda.

Ela pode modificar quais perguntas ocupam continuamente nosso espaço interno.

É daqui que começa o Corpo-Território 5D.

Um cidadão não termina na própria pele

O Estado normalmente nos divide em categorias.

CPF.

Renda.

Endereço.

Idade.

Escolaridade.

Diagnóstico.

Emprego.

Esses dados são importantes.

Mas uma pessoa não vive separada dessa maneira.

Seu corpo encontra simultaneamente:

alimento;

temperatura;

moradia;

violência;

relações;

dívida;

trabalho;

informação;

água;

poluição;

transporte;

memória;

e expectativas sobre o futuro.

Márcia Tait, Alcides Peron e Marcela Suárez recuperam o conceito latino-americano de corpo-território justamente para questionar separações rígidas entre aquilo que acontece aos corpos e aquilo que acontece aos territórios. Em sua análise sobre colonialismo digital, dados, tecnologia e materialidade atravessam simultaneamente ambos. (Taylor & Francis Online)

A BrainLatam propõe ampliar essa ideia:

E se o Corpo-Território fosse tratado como uma unidade mínima de observação do Estado?

Não para vigiar cada cidadão.

Mas para parar de imaginar que saúde, economia, ambiente, informação e segurança são problemas independentes.

A desigualdade também chega biologicamente ao corpo

Essa integração não é apenas filosófica.

Um estudo liderado por pesquisadores latino-americanos como Agustina Legaz, Sandra Báez, Sebastián Moguilner e Agustín Ibáñez analisou 2.135 pessoas nas Américas e encontrou associação entre maior desigualdade estrutural e menores volumes e conectividade cerebral, com associações mais fortes nas populações latino-americanas estudadas. Os autores descrevem esse fenômeno como incorporação biológica de condições macrossociais. (Nature)

Ibáñez e colaboradores também propõem uma abordagem neuroecológica, conectando exposoma, ambiente, saúde humana e One Health: aquilo que acontece ao cérebro não pode ser compreendido inteiramente sem considerar as condições ambientais e sociais que continuamente chegam até ele. (Medipol University Open Access)

Uma Neurociência Decolonial acrescentaria:

não existe “o cérebro brasileiro”.

Existe um cérebro vivendo em algum território, depois de alguma história, dentro de determinadas relações econômicas, linguísticas, ambientais e culturais.

Oito perguntas podem revelar mais que oito promessas

Aqui está uma prática simples de Consciência 5D para as eleições.

Escreva suas oito perguntas.

Depois passe cada uma por cinco espaços:

Corpo: o que essa questão produz no corpo e na saúde?

Relações: quem depende de quem para conseguir responder ao problema?

Território: onde essa experiência acontece e quais condições locais a modificam?

Informação: quem está me ensinando a interpretar esse problema?

Futuro: se a política funcionar por vinte anos, que possibilidades ela cria ou destrói?

Pegue “segurança pública”.

Talvez inicialmente a pergunta seja:

“Quem vai prender mais criminosos?”

Depois dos cinco espaços ela pode virar:

“Que condições territoriais estão produzindo recrutamento, medo e violência antes do primeiro crime, e o que ainda precisa ser punido quando a prevenção falhar?”

Nenhuma das perguntas é proibida.

A segunda apenas enxerga mais dimensões.

E se aplicarmos isso aos candidatos?

Os planos oficiais atualmente disponibilizados pelo TSE mostram projetos muito diferentes para o Brasil, e a disputa presidencial de 2026 possui 13 candidaturas registradas. (Justiça Eleitoral)

O objetivo aqui não é afirmar qual delas está “correta”.

É perguntar como cada projeto poderia enxergar mais.

Lula

O programa de Lula combina políticas sociais, investimento público, redução das desigualdades e transição ecológica. (Folha de S.Paulo)

O Corpo-Território ampliaria essa abordagem perguntando não somente quantas pessoas receberam um benefício, mas:

a insegurança alimentar caiu?

a ansiedade econômica diminuiu?

o tempo disponível para cuidado e formação aumentou?

o território ficou ambientalmente mais resiliente?

a pessoa ganhou maior capacidade real de escolha?

Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro enfatiza segurança, empreendedorismo, redução de gastos e maior participação privada. (Folha de S.Paulo)

O Corpo-Território poderia conectar autonomia e segurança àquilo que acontece antes da violência:

renda;

abandono escolar;

dependência econômica;

recrutamento;

territórios controlados por organizações criminosas;

e capacidade das famílias de recusar relações econômicas destrutivas.

Romeu Zema

Romeu Zema coloca eficiência, mercado, privatização e redução do Estado no centro de sua proposta. (Folha de S.Paulo)

O Corpo-Território perguntaria:

o que estamos chamando de eficiência?

Se uma política economiza R$ 1 hoje, mas aumenta adoecimento, perda de água, deslocamento territorial ou custo ambiental amanhã, ela continua eficiente?

Ronaldo Caiado

O programa de Ronaldo Caiado aproxima segurança, agro, gestão e responsabilidade fiscal. (Folha de S.Paulo)

Aqui, Corpo-Território poderia conectar produtividade rural à água, clima e saúde; e segurança pública às condições sociais e territoriais que antecedem o crime.

Augusto Cury

Augusto Cury atribui grande centralidade à saúde emocional e à educação socioemocional. (Folha de S.Paulo)

O acréscimo seria importante:

não transformar sofrimento produzido materialmente em problema exclusivamente emocional.

Uma criança pode aprender autorregulação.

Mas também precisa comer, dormir com segurança e viver num território onde consiga imaginar futuro.

Renan Santos

Renan Santos propõe reformas institucionais profundas, segurança e reestruturação do Estado. (Folha de S.Paulo)

Corpo-Território acrescentaria limites socioambientais:

não perguntar somente se uma reforma aumenta produtividade, mas quais capacidades sociais e ecológicas ela preserva ou reduz durante décadas.

Clariana Barão

Clariana Barão enfatiza proteção social, administração pública e gestão por evidências. (Folha de S.Paulo)

A ampliação seria transformar Corpo-Território em parte dessa evidência:

não apenas gasto e resultado administrativo, mas condições vividas de saúde, autonomia, ambiente e possibilidade.

Edmilson Costa, Hertz Dias, Rui Costa Pimenta e Samara Martins

Essas candidaturas apresentam diferentes críticas estruturais ao capitalismo, à propriedade e ao sistema financeiro. (Folha de S.Paulo)

O Corpo-Território acrescentaria uma pergunta que também precisa ser feita a projetos profundamente redistributivos:

quem decide depois da transformação?

Redistribuir riqueza não deve significar substituir concentração privada por uma estrutura estatal incapaz de reconhecer autonomia territorial, diversidade cultural e diferentes modos de viver.

Para Hertz, a redistribuição poderia incorporar métricas ecológicas.

Para Rui, transformação econômica poderia ser conectada à autonomia e responsabilidade territorial.

Para Samara, direitos dos trabalhadores e das mulheres poderiam alcançar também condições materiais que permitem exercer esses direitos no território.

Wilson Grassi

A proposta de Wilson Grassi apresenta uma ponte especialmente interessante ao trabalhar com Saúde Única, conectando saúde humana, animal e ambiental. Seu plano também está entre os documentos oficiais disponibilizados pelo TSE. (Justiça Eleitoral)

O Corpo-Território ampliaria esse circuito:

humano + animal + ambiente + relações + economia + informação + futuro.

Pablo Marçal

Para Pablo Marçal, continuamos sem atribuir uma ampliação específica enquanto não houver, no conjunto oficial consultado, um documento programático equivalente que permita compará-lo pelos mesmos critérios. (Justiça Eleitoral)

Voltemos às suas oito perguntas

Agora faça outro teste.

Escolha a pergunta que mais lhe causa ansiedade.

Por exemplo:

“Vou conseguir emprego?”

Pergunte:

Se eu tivesse um piso econômico mínimo, essa pergunta desapareceria?

Talvez não.

Então qual parte dela mudaria?

Talvez você descubra que não quer simplesmente “qualquer emprego”.

Quer:

formação;

tempo;

mobilidade;

segurança;

possibilidade de criar;

ou capacidade de dizer não a um trabalho abusivo.

É isso que chamamos de buscar causalidades na própria ansiedade.

Não significa afirmar que sofrimento econômico é imaginário.

É exatamente o contrário.

Significa descobrir qual condição externa está ocupando continuamente o espaço interno.

Rendimento País não é uma promessa de felicidade

Precisamos deixar isso claro.

Receber renda não produz automaticamente bem-estar ou criatividade.

Mas dados brasileiros mostram que condições econômicas podem se relacionar profundamente com saúde.

Em 2026, Camila Barreto Bonfim, Flávia Alves, Maurício Barreto e Daiane Machado analisaram mais de 38 milhões de pessoas da Coorte de 100 Milhões de Brasileiros. A participação no Bolsa Família esteve associada a risco 23% menor de hospitalização psiquiátrica, com associação ainda mais forte em populações socioeconomicamente vulneráveis. (PubMed)

Não prova que dinheiro “cura” sofrimento.

Mostra que condições materiais participam dele.

E a experiência de Maricá oferece outra peça. Em análise de mais de 3,4 milhões de transações com Mumbuca, Eduardo Diniz e pesquisadores encontraram forte recirculação local do dinheiro, embora também tenham identificado concentração dos pagamentos em poucos estabelecimentos. (Sage Journals)

Ou seja:

distribuir renda importa.

Observar para onde ela vai depois também importa.

É exatamente por isso que Drex Cidadão, Rendimento País, Rendimento Bioma e inteligência pública não deveriam ser políticas separadas.

O Corpo-Território não escolhe por você

Esta talvez seja a parte mais importante do último blog.

Corpo-Território não é um algoritmo dizendo:

“você deveria votar neste candidato”.

É quase o contrário.

É uma ferramenta para aumentar o número de dimensões que você consegue perceber antes de escolher.

Por isso, antes de votar, podemos fazer algo simples:

Escreva suas oito perguntas.

Imagine o Rendimento País.

Veja quais desaparecem.

Observe quais apenas mudam de forma.

Depois pergunte quais continuam existindo mesmo com renda, saúde e segurança.

Essas talvez revelem algo ainda mais profundo sobre aquilo que você espera de uma sociedade.

E finalmente volte aos candidatos.

Não pergunte apenas:

“quem promete resolver minhas oito perguntas?”

Pergunte:

Qual projeto consegue enxergar as causas que fazem essas perguntas ocuparem tanto espaço da minha vida?

Talvez essa seja uma das funções de uma democracia madura.

Não escolher quem promete retirar todas as incertezas.

Mas aumentar nossa capacidade de enxergar de onde elas estão vindo.

Porque, no Corpo-Território 5D, liberdade não é apenas possuir opções.

É possuir condições suficientes para perceber que existem opções.

E talvez o grande teste das Eleições 2026 Presidente seja finalmente este:

Se o Estado começasse pelo Corpo-Território, quantos dos problemas que hoje tentamos reparar depois poderiam ser percebidos antes?

Referências

TAIT, Márcia M.; PERON, Alcides Eduardo dos Reis; SUÁREZ, Marcela. Terrestrial politics and body-territory: two concepts to make sense of digital colonialism in Latin America. Tapuya: Latin American Science, Technology and Society, 2022. DOI 10.1080/25729861.2022.2090485. (Taylor & Francis Online)

LEGAZ, Agustina; ALTSCHULER, Florencia; GONZALEZ-GOMEZ, Raul; BÁEZ, Sandra; MOGUILNER, Sebastián; IBÁÑEZ, Agustín et al. Structural inequality linked to brain volume and network dynamics in aging and dementia across the Americas. Nature Aging, 2025. DOI 10.1038/s43587-024-00781-2. (Nature)

IBÁÑEZ, Agustín et al. Neuroecological links of the exposome and One Health. Neuron, 2024. DOI 10.1016/j.neuron.2024.04.016. (Medipol University Open Access)

BONFIM, Camila Barreto; ALVES, Flávia; BARRETO, Maurício L.; PATEL, Vikram; MACHADO, Daiane B. Cash Transfers and Psychiatric Hospitalization for At-Risk Populations in Brazil. JAMA Network Open, 2026;9(4):e266571. DOI 10.1001/jamanetworkopen.2026.6571. (JAMA Network)

TOLEDO, Lidiane; FIALHO, Erika; ALVES, Flávia; BARRETO, Maurício; MACHADO, Daiane B. et al. Associations between the Bolsa Família conditional cash transfer programme and substance use disorder hospitalisations. The Lancet Global Health, 2025. DOI 10.1016/S2214-109X(24)00508-4. (PubMed Central (PMC))

DINIZ, Eduardo H.; PORTO DE ALBUQUERQUE, João; CAMPOS, Jarvis; FIGUEIREDO, Bruno Andrade de; YAMAGUCHI, João Akio Ribeiro; FAZITO, Mozart. Tracing the flow of money to reveal spatial effects and inequalities in cash transfer programmes. Environment and Planning A: Economy and Space, 2026. DOI 10.1177/0308518X251413928. (Sage Journals)

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Propostas de Governo — Eleições 2026. Repositório oficial utilizado para comparar os programas das candidaturas. (Justiça Eleitoral)



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Fruição, Metacognição 5D e Transcendência do Voto

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Corpo Território Presidência 2030
Corpo Território Presidência 2030

 

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Jackson Cionek

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