Jackson Cionek
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Fachin disse - “Vou pensar” - Pense Rápido e Devagar

Fachin disse - “Vou pensar” - Pense Rápido e Devagar

Uma carta aberta ao STF — e a cada Corpo-Território que vai votar

Pense agora no político que você mais rejeita.

Não diga nada.

Só observe o que aconteceu dentro de você.

Veio uma imagem?

Uma frase?

Raiva?

Desconfiança?

Talvez o peito tenha mudado um pouco. Talvez a respiração.

E provavelmente não foi necessário reconstruir toda a história daquele político.

Você simplesmente:

já sabia.

Antes de qualquer dado novo, seu Corpo-Território encontrou um caminho conhecido.

Ou, na metáfora que construímos nesta série:

um galho conhecido foi encontrado.

Mas “galho” não significa apenas uma memória guardada ou uma opinião.

Um galho é uma maneira já construída de Ser diante daquele tipo de mundo.

Uma configuração que reúne formas de Perceber, Pensar, Julgar, Planejar e Agir.

Quando entramos num galho conhecido, não recuperamos apenas informações.

Recuperamos expectativas.

Valores.

Sensações.

Possibilidades de resposta.

Uma certa Vibe.

É por isso que duas pessoas podem receber exatamente a mesma notícia e, ainda assim, não viver a mesma experiência.

Elas podem estar recebendo aquela informação a partir de galhos diferentes.

“Vou pensar”

Agora imagine ocupar a presidência do Supremo Tribunal Federal em meio a uma crise institucional.

Colegas cobram uma decisão.

A imprensa espera.

As redes sociais já possuem culpados.

Os grupos políticos já possuem suas versões.

E Edson Fachin responde:

“Vou pensar.”

A frase foi relatada em 8 de setembro de 2026, quando ministros pressionavam Fachin a levar ao plenário a crise envolvendo decisões de André Mendonça e a direção da Polícia Federal. (UOL Notícias)

Parece pouco.

Mas talvez seja justamente aí que esteja algo importante.

Daniel Kahneman, psicólogo laureado com o Prêmio de Ciências Econômicas, tornou mundialmente conhecida em Thinking, Fast and Slow a diferença entre um funcionamento rápido, intuitivo e automático e outro mais lento, deliberativo e exigente.

Pensar rápido não é ruim.

É indispensável.

Um cirurgião experiente precisa reconhecer rapidamente uma emergência.

Um goleiro não pode calcular conscientemente cada músculo antes de saltar.

Um juiz experiente não começa o Direito do zero a cada processo.

Experiência constrói caminhos.

Na nossa linguagem:

Pedra: “Já sei.”

Pedra pode ser alta performance.

O problema começa quando o mundo muda

Volte ao político em quem você pensou no início.

Imagine agora que aparece uma informação verdadeira que contradiz fortemente aquilo que você acreditava.

O que acontece?

Você muda sua compreensão?

Ou imediatamente procura uma maneira de preservar o galho?

Talvez pense:

“isso é mentira.”

“essa fonte é comprada.”

“tiraram do contexto.”

Às vezes você estará certo.

Mas e quando não estiver?

É aí que aparece a diferença entre alta performance e dogma.

Alta performance usa um galho enquanto ele funciona.

Dogma precisa que o mundo continue cabendo nele.

O especialista flexível consegue dizer:

“Isso não fecha mais.”

E então surge Tesoura:

“Preciso pensar.”

Talvez o craque não seja aquele que responde mais rápido.

Talvez seja aquele que percebe quando a velocidade deixou de ser uma vantagem.

Juízes também precisam sair de Pedra

Essa preocupação não é apenas filosófica.

Guthrie, Rachlinski e Wistrich estudaram experimentalmente 167 magistrados federais norte-americanos. Encontraram efeitos de ancoragem, enquadramento, retrospectiva e outras ilusões cognitivas sobre decisões judiciais.

Eram juízes.

Treinados.

Experientes.

Continuavam humanos. (Scholarship@Cornell Law)

O trabalho ajudou a mostrar algo fundamental:

experiência não elimina a intuição; o desafio é saber quando submetê-la a revisão.

Isso vale para Fachin.

E vale para nós.

Porque existe uma diferença gigantesca entre:

“eu já sei”

e

“eu acho que já sei, mas vou verificar.”

Agora passe três meses respirando uma eleição

Todo dia:

“Eles são o mal.”

“Eles querem destruir você.”

“Se eles vencerem, acabou.”

“O outro lado odeia sua família.”

“Só nós podemos salvar o país.”

Troque os nomes.

Direita.

Esquerda.

Centro.

O mecanismo não precisa respeitar partido.

Uma imagem aparece.

Outra.

Um vídeo.

Um meme.

Uma frase.

Seu grupo compartilha.

Você ri.

Você se irrita.

O adversário deixa de ser simplesmente alguém com outro projeto.

Ele começa a se tornar:

inimigo.

E a informação já não chega sozinha.

Chega com medo.

Raiva.

Pertencimento.

Respiração.

Expectativa.

Qualia.

É isso que estamos chamando, na hipótese BrainLatam, de Vibe:

uma dinâmica que mantém certos espaços de representação em movimento e torna determinados Eus mais fáceis de utilizar.

E qual Eu chegará à urna?

Aqui precisamos tomar cuidado.

Não existe evidência científica suficiente para afirmar simplesmente:

“raiva produz voto irracional.”

Uma meta-análise recente encontrou efeitos muito mais modestos e inconsistentes das emoções sobre a forma como eleitores procuram informações e utilizam heurísticas do que algumas teorias sugeriam. (Wiley Online Library)

Então nossa ideia de “qualidade do voto” é normativa, dentro do Religare.

Não existe voto de baixa qualidade porque alguém votou à direita ou à esquerda.

Um voto perde qualidade quando o campo disponível para Julgar se estreita de tal forma que praticamente resta uma única pergunta:

“Como derrotar meu inimigo?”

Saúde?

Renda?

Educação?

Segurança?

Água?

Moradia?

Orçamento?

Clima?

Produção?

Bioma?

Tudo passa para segundo plano.

O voto continua legalmente livre.

Mas pergunte a si mesmo:

estou escolhendo um futuro ou apenas reagindo contra alguém?

Você não chega vazio à urna

A Consciência 5D propõe que não escolhemos apenas com aquilo que sabemos conscientemente que estamos pensando.

O Corpo-Território chega à escolha carregando diferentes representações ativadas e, em nossa hipótese, pré-ativadas.

Uma frase repetida.

Um medo.

Uma dívida.

Uma noite mal dormida.

Uma memória.

Uma expectativa.

Uma notícia.

Uma condição corporal.

Nem tudo precisa estar sendo conscientemente lembrado naquele instante para participar das condições daquele que Julgará.

E sabemos que repetição importa.

A literatura sobre o illusory truth effect mostra que repetir uma afirmação pode aumentar sua percepção de verdade, inclusive no caso de desinformação e afirmações que contradizem conhecimentos anteriores. (ScienceDirect)

Isso não significa que repetição determine o voto.

Significa algo mais simples:

aquilo que conseguimos manter disponível participa do ambiente no qual o julgamento acontece.

E se as 72 horas anteriores ao voto fossem diferentes?

Aqui fazemos uma proposta.

Não uma lei da neurociência.

As 72 horas anteriores à eleição poderiam ser uma janela cívica do Pense Devagar.

Curiosamente, o próprio TSE já trata esse período como especialmente sensível.

Para 2026, ficou proibida a publicação, republicação e impulsionamento de novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por IA utilizando imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas nas 72 horas anteriores ao término do pleito e nas 24 horas seguintes. (Justiça Eleitoral)

A lógica é compreensível:

uma informação artificial de enorme impacto publicada no último instante pode chegar quando quase não existe tempo para verificá-la.

Mas o Religare faz outra pergunta:

não deveríamos pensar também naquilo que precisa estar disponível antes do voto?

Imagine três dias com menos inimigos

Abra o celular.

Em vez de:

“eles vão destruir o Brasil”,

você encontra:

como está a saúde no seu município?

quanto foi investido em educação?

como evoluíram renda e emprego?

como está a segurança?

quanto sua cidade arrecadou e o que entregou?

como está sua água?

E então algo que quase nunca colocamos no centro da eleição:

como está o Bioma no qual seu futuro precisará acontecer?

Solo.

Água.

Temperatura.

Produção.

Florestas.

Secas.

Enchentes.

Poluição.

Eventos extremos.

Não para dizer:

“vote em fulano.”

Mas para devolver ao eleitor aquilo que meses de guerra política podem ter retirado:

realidade verificável para comparar com narrativa.

Porque quem vota é um Corpo-Território

O eleitor não é apenas uma opinião.

Ele respira.

Come.

Adoece.

Trabalha.

Envelhece.

Precisa de água.

Depende de infraestrutura.

Cria filhos.

Vive num território.

E esse território depende materialmente de um Bioma.

Por isso, talvez as informações disponíveis antes da eleição precisem aproximar o cidadão novamente daquilo que realmente terá de viver depois dela.

No Religare:

Religião = Planejar.

Que futuro estão me oferecendo?

Política = Julgar / Escolher / Valorizar.

Esse futuro vale a pena?

Ciência = Fazer.

Ele pode realmente ser produzido?

A urna registra apenas o último Fazer:

o botão.

Mas muito do Julgar aconteceu antes.

E então chegamos a Papel

Pedra diz:

“Já sei.”

Tesoura responde:

“Vou pensar.”

Mas Papel faz uma pergunta ainda mais difícil:

“Por que isso me parece tão óbvio?”

Qual galho estou usando?

Que maneira conhecida de Ser e Pensar foi recrutada?

Qual Vibe está mantendo esse Eu?

Que informação foi repetida?

Qual informação nunca chegou?

Transformei alguém em inimigo?

Meu grupo permite que alguma evidência atravesse meu galho?

E talvez a pergunta mais importante:

se amanhã aparecer uma informação verdadeira contra aquilo em que acredito, eu ainda consigo mudar?

Talvez seja esse o verdadeiro teste

Não sabemos ainda se Fachin chegará à melhor conclusão.

“Vou pensar” não garante acerto.

Mas garante algo que vem antes dele:

a possibilidade de revisão.

E talvez seja exatamente isso que uma democracia precise proteger.

Não fazer todos pensarem igual.

Não escolher quais conclusões o cidadão deve alcançar.

Mas impedir que a Vibe política feche tantos galhos que já não exista caminho para mudar de ideia.

Por isso, talvez as últimas 72 horas antes do voto precisem de:

menos inimigo;

menos choque;

menos certeza fabricada;

mais informação verificável;

mais Corpo-Território;

mais Bioma;

mais possibilidade de comparação.

Porque aquilo que estiver disponível antes do voto também participará daquele que votará.

E talvez a pergunta mais democrática que possamos fazer não seja:

“Você já decidiu?”

Mas:

“Você ainda consegue dizer: eu já sei o que sinto - agora quero saber se isso é suficiente para escolher?”

E então, finalmente:

“Vou pensar.”

Referências

Kahneman, D. (2011). Thinking, Fast and Slow. Farrar, Straus and Giroux.

Guthrie, C., Rachlinski, J. J., & Wistrich, A. J. (2001). Inside the Judicial Mind. Cornell Law Review, 86, 777–830.

Guthrie, C., Rachlinski, J. J., & Wistrich, A. J. (2007). Blinking on the Bench: How Judges Decide Cases. Cornell Law Review, 93, 1–44.

Funck, A. S., & Lau, R. R. (2024). A Meta-Analytic Assessment of the Effects of Emotions on Political Information Search and Decision-Making. American Journal of Political Science, 68(3), 891–906. DOI: 10.1111/ajps.12819.

Udry, J., & Barber, S. J. (2024). The illusory truth effect: A review of how repetition increases belief in misinformation. Current Opinion in Psychology, 56, 101736. DOI: 10.1016/j.copsyc.2023.101736.

Tribunal Superior Eleitoral (2026). Resolução nº 23.755, de 2 de março de 2026. Alterações nas regras de propaganda eleitoral, incluindo restrições a novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por inteligência artificial nas 72 horas anteriores ao pleito.

Lima, D. (2026). “Vou pensar”, disse Fachin, cobrado a levar decisão sobre a PF a plenário. UOL, 8 de setembro de 2026.








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