Finitude da Percepção do Tempo - Entre o Ritmo e o Silêncio - Decolonial Neuroscience SBNeC SfN Brain Bee
Finitude da Percepção do Tempo - Entre o Ritmo e o Silêncio - Decolonial Neuroscience SBNeC SfN Brain Bee
Consciência em Primeira Pessoa
“Eu sou o tempo que percebo em mim. Conto batimentos, respiro em ciclos, sinto sede, fome, cansaço. Cada sensação é um marcador que me ancora na passagem das horas. Mas quando adormeço, deixo de existir como relógio: não há antes nem depois, apenas o mergulho em ondas que me suspendem. No sono profundo descubro que o tempo não é absoluto — é percepção que se dissolve, permitindo que eu me reconheça no todo, onde não há diferença entre ontem, hoje e amanhã.”
Tempo e Mente Damasiana
O tempo não existe em si: requer sempre um referencial, um diferencial entre pelo menos dois espaços ou volumes em movimento.
No corpo: usamos batimentos cardíacos, ciclos respiratórios, sede, fome e ritmos hormonais (como o circadiano) para dar sentido à passagem do tempo.
Mente Damasiana: integra interocepção e propriocepção em ritmos metabólicos que criam a percepção temporal.
Inferência: quando nos referenciamos no todo, o tempo deixa de existir. No sono, a consciência retorna a esse estado de suspensão, onde não há relógio, apenas pertencimento.
A Finitude do Tempo no Sono
N1: a sequência temporal começa a falhar; percepções fragmentadas já não seguem ordem linear.
N2: fusos organizam memórias sem referência de tempo; a mente consolida sem precisar marcar “quando”.
N3: o silêncio profundo elimina o relógio interno; batimentos e respiração caem em cadência mínima, dissolvendo a percepção do passar.
REM tônico: narrativas oníricas surgem sem coerência temporal — passado, presente e futuro se misturam.
REM fásico: emoções e memórias criam histórias onde o tempo não flui, mas se dobra em repetições e deslocamentos.
Neurociência da Percepção Temporal em Sono
EEG: ondas lentas em N3 reduzem a conectividade entre redes temporais, dissolvendo a ordem sequencial.
fNIRS: menor atividade pré-frontal durante sono profundo indica suspensão do controle temporal executivo.
Ritmos circadianos: o grande movimento hormonal (melatonina, cortisol) organiza o corpo em ciclos de vigília e repouso, mas não gera tempo subjetivo.
Integração: a percepção do tempo é produto do corpo-território em movimento; quando o corpo se suspende, o tempo também cessa.
Quando a Finitude do Tempo é Bloqueada
Insônia: aumenta a autoconsciência temporal, com percepção dolorosa da passagem das horas.
Ansiedade: acelera batimentos e respiração, tornando o tempo subjetivo mais rápido.
Zona 3: o corpo em alerta mantém a contagem constante, impedindo que a percepção temporal se dissolva no sono.
Para Clínicos e Cuidadores
Promover ambientes que reduzam a vigilância temporal (silêncio, escuridão, ausência de relógios).
Incentivar práticas de respiração e relaxamento que desacelerem o ritmo interno.
Em cuidados paliativos: propor a dissolução da percepção do tempo como experiência de paz, não como perda.
Conclusão
A percepção do tempo não é uma verdade absoluta, mas um arranjo do corpo para se orientar em diferenças e ciclos. Sua finitude no sono mostra que, no todo, o tempo não existe: há apenas vida em fluxo. O descanso noturno é um ensaio da própria finitude — o acabar, o deixar de ser e a não continuidade — experiências que dão sentido à vida e permitem reorganização para o despertar.
Referências Indicativas (pós-2020)
Cunningham T.J. (2022). Sleep and emotional memory processing: a review.
Gong H. et al. (2022). Prefrontal excitability dynamics across sleep stages measured by fNIRS.
Halonen R. et al. (2024). REM sleep theta oscillations preserve stress responsiveness.
Duan W. et al. (2025). Selective consolidation of salient and rewarded memories during sleep.
Yuksel C. et al. (2025). Complementary roles of SWS and REM in emotional memory consolidation.