O BIOMA NÃO É CENÁRIO - É INFRAESTRUTURA VIVA
O BIOMA NÃO É CENÁRIO - É INFRAESTRUTURA VIVA
Quando o dinheiro acredita em pixels, mas ainda depende da água
Um número aparece na tela.
Ele pode atravessar cidades em segundos, pagar uma dívida, comprar uma empresa ou financiar a retirada de milhares de toneladas de minério.
Não possui cheiro, peso ou temperatura.
É um registro digital.
Ainda assim, confiamos que ele representa valor.
O dinheiro contemporâneo não precisa conter uma pequena parte de ouro, grãos, pedras ou qualquer outro objeto material. Nos sistemas monetários fiduciários, seu valor depende principalmente da confiança nas instituições, nas regras e na aceitação coletiva. À medida que se torna digital, o dinheiro pode ser apenas um sinal eletrônico inscrito em uma base de dados. (Bank for International Settlements)
Isso não significa que o dinheiro seja uma ilusão inútil.
Significa que sua realidade é institucional.
A água possui outra realidade.
Mesmo que ninguém a registre, ela continua necessária.
Mesmo que não apareça em uma conta, o solo continua retendo umidade. As raízes continuam diminuindo a velocidade da chuva. A floresta participa da formação de rios. Manguezais reduzem impactos costeiros. Microrganismos transformam matéria, preservam fertilidade e sustentam ciclos que nenhum aplicativo consegue substituir.
O dinheiro existe porque acreditamos em determinadas regras.
A vida existe porque processos materiais continuam acontecendo.
Talvez o problema do nosso tempo comece quando aquilo que depende da confiança passa a comandar aquilo de que depende a própria existência.
Que economia criamos quando um pixel possui reconhecimento imediato, mas um rio vivo permanece quase invisível?
A infraestrutura que nunca aparece inteira
Chamamos rodovias, portos, redes elétricas e sistemas digitais de infraestrutura.
São estruturas que permitem que outras atividades existam.
Mas o que permite que essas infraestruturas continuem funcionando?
Um Bioma participa da produção e da circulação da água, da regulação da temperatura, da proteção dos solos, da manutenção da biodiversidade e da redução de riscos climáticos.
Sistemas florestais, rios, áreas úmidas, restingas e manguezais armazenam água, reduzem a velocidade dos fluxos e ajudam a diminuir riscos de enchentes, erosão e impactos costeiros. O IPCC reconhece que a conservação e a restauração dos ecossistemas reduzem vulnerabilidades humanas e ambientais, embora possuam limites e não substituam a redução direta das emissões. (IPCC)
Isso nos permite dizer algo simples:
O Bioma não está ao redor da infraestrutura. Ele é a infraestrutura anterior.
Antes da estrada, existe o solo capaz de sustentá-la.
Antes da cidade, existe a água que permitirá habitá-la.
Antes da agricultura, existe a combinação entre umidade, biodiversidade, polinização e nutrientes.
Antes do mercado financeiro, existe um mundo material no qual compradores, vendedores e servidores digitais conseguem permanecer vivos.
Na América Latina e no Caribe encontra-se aproximadamente um terço da água doce mundial, além de grande biodiversidade terrestre e marinha, florestas primárias, solos cultiváveis e importantes reservas minerais. Ao mesmo tempo, a região mantém estruturas econômicas que frequentemente transformam esse patrimônio em exportação primária, desigualdade e degradação. (CEPAL)
O sistema colonial-extrativista possui uma visão curta.
Ele enxerga a árvore quando ela se transforma em madeira.
Enxerga o solo quando ele recebe uma concessão.
Enxerga o carbono quando se torna crédito.
Enxerga o dado quando pode ser vendido.
Enxerga a água quando passa pela garrafa, pela tarifa ou pela geração de energia.
Aquilo que permanece vivo precisa primeiro ser convertido em ativo para ganhar linguagem econômica.
Talvez seja essa a inversão que precisamos perceber.
O Bioma não começa a produzir quando entra no mercado.
Ele já produzia as condições que permitiram a existência do mercado.
Quando um valor apaga todos os outros
Em 2022, a avaliação da IPBES sobre os diferentes valores da natureza, coordenada por pesquisadores como Patricia Balvanera e Brigitte Baptiste, mostrou que as decisões públicas tendem a privilegiar valores que podem ser expressos de maneira simples em preços e transações.
Essa escolha pode deixar em segundo plano valores ecológicos, culturais, territoriais e relacionais: aquilo que uma comunidade reconhece como pertencimento, memória, cuidado e continuidade. (IPBES ICT)
Uma floresta pode armazenar carbono.
Mas ela também pode sustentar uma língua, proteger uma nascente, permitir alimentação, conter histórias e organizar relações entre gerações.
Quando reduzimos tudo a toneladas de carbono, enxergamos uma função e apagamos o sistema vivo que a tornou possível.
Ailton Krenak nos convida a perceber rios e florestas como presenças que participam do futuro, e não como depósitos silenciosos aguardando utilidade econômica. Em Futuro ancestral, a continuidade da vida surge como uma relação anterior à separação entre humanidade e natureza. (Companhia das Letras)
O desafio não é retirar o Bioma da economia.
É impedir que a economia reduza o Bioma àquilo que consegue monetizar.
O dinheiro novo pode começar na continuidade
Hoje, grande parte do dinheiro chega a um território quando existe uma promessa de retirada.
Uma empresa obtém crédito para minerar.
Um empreendimento recebe financiamento para ocupar.
Uma cadeia produtiva movimenta recursos para plantar, cortar, construir ou exportar.
A extração futura é capaz de antecipar dinheiro no presente.
Podemos imaginar outra regra:
A continuidade comprovada da vida também pode colocar dinheiro novo em circulação.
O Brasil já reconhece legalmente serviços ecossistêmicos como sequestro de carbono, purificação do ar, equilíbrio do ciclo da água, redução de enchentes e secas, controle da erosão, identidade cultural e desenvolvimento intelectual.
A Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais também estabelece prioridade para povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares em programas federais. (Planalto)
O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões, criado em 2024, instituiu ativos relacionados à emissão, redução e remoção de gases de efeito estufa, com exigências de mensuração, relato, verificação e rastreabilidade. (Planalto)
Essas estruturas abrem portas.
Mas podemos ir além.
Podemos criar um Rendimento Bioma, distribuído por uma futura CBDC pública de varejo.
Esse rendimento não seria entregue primeiro aos fundos financeiros para depois retornar parcialmente ao território.
O dinheiro seria criado ou distribuído tendo como primeiros destinatários:
pessoas que vivem e cuidam do Bioma;
povos indígenas e comunidades tradicionais;
agricultores e cooperativas regenerativas;
fundos comunitários de água;
prevenção de enchentes, secas e incêndios;
restauração e biodiversidade;
iniciativas de circularidade e lixo zero.
Parte dos recursos poderia vir de créditos de carbono, pagamentos por serviços ambientais, royalties, compensações e multas.
Outra parte poderia vir de créditos de circularidade, reconhecendo redução de resíduos, reparo, reutilização, compostagem e recuperação de materiais.
Quando uma iniciativa lixo zero também reduzir emissões de maneira mensurável, poderá gerar carbono verificado.
Quando o resultado principal for evitar desperdício e extração de matéria-prima, deverá existir um instrumento próprio, sem chamar tudo de carbono.
O ponto central não é criar mais um ativo para especulação.
É criar um fluxo que retorne ao lugar onde a produção da vida acontece.
Quem viverá o Bioma deverá participar das medidas
O Rendimento Bioma precisará nascer de uma governança territorial.
Não bastará que especialistas distantes definam quantas toneladas, espécies ou litros possuem valor.
As comunidades deverão participar da escolha dos indicadores:
qualidade e disponibilidade da água;
diversidade de espécies;
regeneração do solo;
retenção de carbono;
proteção contra enchentes;
redução da temperatura;
destinação de resíduos;
continuidade cultural;
segurança alimentar;
capacidade de permanecer no território.
Nenhuma medida isolada representará o Bioma inteiro.
Os indicadores deverão formar uma imagem viva e revisável.
A renda também não poderá funcionar como pagamento para que comunidades renunciem a direitos, aceitem vigilância ou entreguem seus conhecimentos.
O Bioma produzirá rendimento porque permanece vivo.
E quem sustenta essa continuidade compartilhará a agência sobre os recursos.
O Neuro Desafio Latam
Por que contabilizamos os lucros da exploração, mas deixamos invisíveis os serviços contínuos produzidos pelo Bioma?
O Neuro Desafio Latam pode investigar como diferentes ambientes participam da atenção, da fadiga e da capacidade de imaginar possibilidades.
Primeiro, porém, a pesquisa deverá devolver valor.
Participantes e territórios receberiam Drex Cidadão e Rendimento Bioma antes da coleta de EEG ou NIRS. O pagamento não dependeria dos resultados nem das respostas apresentadas.
Depois, poderíamos comparar experiências em:
áreas preservadas;
espaços degradados;
ambientes urbanos intensos;
locais com maior ou menor biodiversidade;
experiências reais e representações virtuais da natureza.
O EEG poderia acompanhar ritmos relacionados à atenção e ao esforço cognitivo. Um ensaio randomizado publicado em 2024 comparou caminhadas em áreas naturais e urbanas, combinando EEG, desempenho e relatos de afeto e atenção. Os resultados indicaram diferenças em algumas medidas, mas também reforçaram que os mecanismos ainda precisam ser investigados. (Nature)
A NIRS pode acompanhar alterações de oxigenação cortical em ambientes reais. Um estudo recente com fNIRS portátil encontrou redução do afeto negativo e diferenças exploratórias de atividade pré-frontal durante exposição à natureza em comparação com um ambiente urbano. (ScienceDirect)
Também poderíamos observar:
memória;
cansaço percebido;
capacidade de concentração;
frequência cardíaca;
temperatura;
ruído;
qualidade do ar;
relatos sobre segurança e pertencimento.
A pergunta não seria qual ambiente “ativa melhor” o cérebro.
Seria:
O que o Corpo-Território consegue perceber e criar quando o ambiente deixa de exigir vigilância permanente?
EEG e NIRS poderiam demonstrar efeitos específicos de determinados ambientes.
Não determinariam o valor constitucional de um Bioma.
Esse valor também aparece na água, na biodiversidade, na proteção climática e na possibilidade de uma comunidade continuar existindo.
O real que sustenta o futuro
Podemos retornar ao número na tela.
Agora sabemos que ele possui força porque instituições e pessoas decidiram confiar nele.
Essa confiança pode transferir recursos, organizar projetos e produzir futuros.
Também pode ser reorganizada.
Podemos confiar em uma moeda capaz de reconhecer a continuidade da água.
Podemos criar regras nas quais a floresta viva produza rendimento antes de ser convertida em madeira.
Podemos fazer a circularidade receber recursos antes que o resíduo se torne desastre.
Podemos permitir que quem vive o Bioma participe primeiro da riqueza que ele produz.
O dinheiro continuará digital.
Mas sua origem poderá voltar a encontrar o real.
A água.
O solo.
A biodiversidade.
O cuidado.
O Corpo-Território.
Talvez o Bioma nunca tenha sido cenário.
Talvez nós apenas tenhamos criado uma economia incapaz de vê-lo trabalhando.
Quando essa percepção muda, uma nova pergunta se abre:
E se a democracia começasse reconhecendo como riqueza tudo aquilo sem o qual nenhum dinheiro poderia continuar existindo?
Referências essenciais
Banco de Compensações Internacionais. Central Bank Capital and Trust in Money: Lessons from History for the Digital Age. 2024.
Baptiste, B.; Balvanera, P.; Pascual, U. et al. Methodological Assessment Report on the Diverse Values and Valuation of Nature. IPBES, 2022.
CEPAL. Recursos naturales y desarrollo sostenible: propuestas teóricas en el contexto de América Latina y el Caribe. 2024.
IPCC. Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. 2022.
Krenak, A. Futuro ancestral. Companhia das Letras, 2022.
McDonnell, A. S.; Strayer, D. L. The Influence of a Walk in Nature on Human Resting Brain Activity: A Randomized Controlled Trial. Scientific Reports, 2024.
Brasil. Lei nº 14.119/2021 — Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais.
Brasil. Lei nº 15.042/2024 — Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões.