O cérebro não recebe a realidade pronta - ele compara
O cérebro não recebe a realidade pronta - ele compara
Quando tecnologias começam a organizar aquilo que percebemos como possível
Imagine caminhar por uma cidade usando óculos de realidade aumentada.
Você olha para uma rua e surge uma indicação:
Rota recomendada.
Olha para um restaurante:
Melhor opção para você.
Olha para um produto:
Recomendado.
Olha para um edifício:
Entre por aqui.
A tecnologia não substituiu o mundo físico.
Mas colocou uma nova camada sobre ele.
Agora surge uma pergunta aparentemente simples:
o que acontece quando aquilo que a tecnologia mostra não combina com aquilo que esperávamos encontrar?
Em 2026, Michael Wimmer e colegas publicaram no Journal of Neural Engineering um estudo que aproxima essa pergunta da interface entre cérebro, olhar e realidade aumentada.
Os pesquisadores combinaram EEG, eye-tracking e uma interface cérebro-computador — BCI para investigar se seria possível detectar quando uma informação apresentada em realidade aumentada parecia incongruente para o usuário.
E conseguiram.
Mas talvez a pergunta mais interessante comece justamente depois desse resultado.
Quando o cérebro encontra algo inesperado
A realidade aumentada permite sobrepor informações digitais ao ambiente físico.
Isso pode ser extremamente útil.
Uma pessoa olha para uma máquina e recebe instruções.
Olha para uma rua e encontra uma direção.
Olha para um objeto e recebe informações adicionais.
Mas o sistema também pode apresentar algo que não corresponde àquilo que a pessoa esperava.
Wimmer e colegas investigaram justamente esse momento.
O eye-tracking permitia identificar quando o participante fixava o olhar na informação relevante. A partir desse instante, o EEG era analisado para observar a resposta cerebral.
Os pesquisadores encontraram um efeito N400 centroparietal diante das informações incongruentes.
O N400 é um componente dos potenciais relacionados a eventos frequentemente associado ao processamento de informações que entram em conflito com determinado contexto ou expectativa.
No experimento online, o sistema conseguiu diferenciar informações congruentes e incongruentes com uma balanced accuracy média próxima de 70%.
Isso aponta para uma aplicação tecnológica interessante:
uma futura interface poderia perceber que determinada informação causou estranhamento ao usuário e reagir.
Poderia oferecer contexto.
Explicar.
Verificar os dados.
Apresentar outra informação.
Mas existe uma distinção fundamental.
Incongruência não significa erro
Se o cérebro identifica algo como inesperado, isso não significa que aquilo esteja errado.
Imagine uma pessoa que acredita há anos em determinada informação.
Ela encontra um dado novo, correto, que contradiz sua crença.
Haverá incongruência.
Mas talvez aquilo que precise ser atualizado seja justamente sua expectativa anterior.
Também pode acontecer o contrário.
O sistema apresenta uma informação incorreta e a pessoa estranha porque seu conhecimento está certo.
Por isso:
estranhamento não é verdade.
expectativa não é verdade.
N400 não é um detector neural da verdade.
O cérebro está comparando aquilo que encontra com alguma coisa que já estava presente.
E é aqui que a questão se torna muito maior.
Com o que estamos comparando o mundo?
Quando encontramos alguma coisa, não começamos do zero.
Carregamos experiências.
Aprendizagens.
Memórias.
Linguagem.
Cultura.
Expectativas.
Território.
Duas pessoas podem encontrar exatamente a mesma informação e reagir de maneiras diferentes porque não chegam até ela com a mesma história.
Isso nos leva a uma pergunta central para a BrainLatam:
quando uma tecnologia identifica que algo contradiz nossas expectativas, de onde vieram essas expectativas?
Do indivíduo?
Da família?
Da escola?
Do território?
Da publicidade?
Dos algoritmos?
Do ambiente social?
Provavelmente de muitos desses lugares ao mesmo tempo.
A tecnologia não mostra apenas o mundo
Agora imagine que o sistema não se limite a identificar aquilo que estamos olhando.
Ele começa a recomendar.
Não apenas:
“existem três caminhos.”
Mas:
“este é o melhor caminho.”
Não apenas:
“estes produtos existem.”
Mas:
“este produto é para você.”
Não apenas:
“estas notícias estão disponíveis.”
Mas:
“isto é o que você precisa ver.”
Nesse momento, a tecnologia deixa de simplesmente acrescentar informações ao ambiente.
Ela começa a organizar aquilo que se torna mais visível.
E aquilo que se torna menos visível.
Essa diferença parece pequena.
Não é.
Porque aquilo que o sistema não apresenta continua existindo.
Mas talvez deixe de fazer parte das possibilidades que percebemos.
É aqui que uma frase que usamos nas discussões da BrainLatam ganha um significado especial:
Você é massificado pelas escolhas que não teve.
Talvez a forma mais profunda de limitar uma escolha não seja proibi-la.
Talvez seja impedir que ela apareça como escolha.
Se nunca vejo determinado caminho, talvez nunca precise decidir não segui-lo.
Se determinada possibilidade nunca entra no meu campo de percepção, ela continua existindo fisicamente — mas talvez deixe de existir para mim como movimento possível.
APUS: aquilo que percebemos como possível
Na BrainLatam chamamos de APUS o campo percebido dos movimentos possíveis de um Corpo-Território.
APUS não foi medido por Wimmer e colegas.
É uma hipótese conceitual que nasce depois do estudo.
Imagine uma pessoa diante de uma cidade.
Fisicamente, existem centenas de lugares para onde ela poderia ir.
Mas quantos desses lugares aparecem realmente para ela como possibilidades?
Alguns podem ser desconhecidos.
Outros podem parecer inacessíveis.
Outros podem ser economicamente impossíveis.
Outros podem não fazer parte de sua rede social.
Outros talvez nunca apareçam em seus mapas, buscas ou recomendações.
Portanto:
possibilidade física não é necessariamente possibilidade percebida.
E possibilidade percebida também não significa possibilidade material.
É entre essas três dimensões que corpo, território e tecnologia começam a se encontrar.
A tecnologia pode ampliar o APUS
Imagine alguém chegando pela primeira vez a um hospital público.
Está ansioso.
Não conhece o edifício.
Não sabe onde deve realizar seu exame.
Uma interface mostra:
Você está aqui.
Seu atendimento está no segundo andar.
O elevador está à esquerda.
Uma possibilidade que antes estava obscurecida torna-se clara.
Nesse caso, a tecnologia pode ampliar movimentos percebidos.
Mas imagine o contrário.
Uma plataforma mostra apenas determinados serviços.
Determinados estabelecimentos.
Determinados trajetos.
Determinadas oportunidades.
O restante não desapareceu.
Só deixou de aparecer.
Então precisamos fazer uma segunda pergunta:
uma tecnologia também pode estreitar o APUS?
A pergunta latino-americana
Essa questão é especialmente importante na América Latina.
Nossa região reúne algumas das maiores metrópoles do planeta e territórios com conectividade limitada.
Concentração de riqueza e pobreza extrema.
Grandes centros tecnológicos e comunidades tradicionais.
Centenas de línguas.
Múltiplas formas de compreender território, natureza, pertencimento e conhecimento.
Por isso, importar uma tecnologia não significa importar apenas hardware ou software.
Podemos importar também:
categorias.
prioridades.
formas de classificar.
definições do que merece aparecer primeiro.
Imagine uma aplicação identificando uma planta amazônica.
Ela informa:
espécie, família, distribuição geográfica.
Tudo pode estar cientificamente correto.
Mas uma comunidade daquele território talvez reconheça aquela mesma planta por sua relação com alimento, medicina, memória, estação do ano ou conhecimento transmitido entre gerações.
A planta é a mesma.
O território de significado não.
Então precisamos perguntar:
quem participa da construção da camada digital colocada sobre a realidade latino-americana?
Algoritmos também constroem visibilidade
Realidade aumentada é apenas uma parte do problema.
Buscadores.
Redes sociais.
Mapas.
Plataformas de vídeo.
Aplicativos financeiros.
Sistemas de recomendação.
Inteligência artificial.
Todos eles organizam aquilo que aparece diante de nós.
E a ordem em que aparece.
Não precisam impedir uma possibilidade.
Basta priorizar outra repetidamente.
A partir daí, uma pergunta de EEG começa a encontrar uma pergunta social:
quem organiza aquilo que nosso Corpo-Território percebe como possível?
Se vejo sempre os mesmos produtos, ideias, comportamentos, trajetos e estilos de vida, talvez eu continue escolhendo.
Mas escolho dentro de qual repertório?
E quem decidiu o repertório?
É nesse sentido que a frase retorna:
Você é massificado pelas escolhas que não teve.
A massificação talvez não aconteça apenas quando milhões escolhem a mesma coisa.
Pode começar antes:
quando milhões recebem repetidamente o mesmo conjunto reduzido de possibilidades entre as quais deverão escolher.
Onde termina o artigo e começa a BrainLatam
Wimmer e colegas mostraram que informações incongruentes apresentadas em realidade aumentada produziram um efeito N400 consistente e que uma BCI híbrida baseada em EEG e eye-tracking conseguiu detectar parte dessas incongruências em tempo quase real.
Até aqui:
Wimmer e colegas.
A partir daqui:
BrainLatam.
Nossa pergunta é:
se uma tecnologia consegue perceber quando aquilo que mostra contradiz nossas expectativas, ela também pode participar da construção daquilo que passaremos a esperar?
E então surge outra:
se algoritmos organizam quais caminhos, informações e oportunidades aparecem diante de nós, podem também modificar aquilo que percebemos como possível?
Essa é uma hipótese que podemos testar.
Um experimento para a América Latina
Imagine participantes de diferentes territórios navegando pelo mesmo ambiente.
Primeiro:
sem assistência digital.
Depois:
com uma interface apresentando diversas possibilidades.
Finalmente:
com um sistema que prioriza apenas algumas delas.
Poderíamos registrar:
EEG, para acompanhar expectativa e incongruência.
Eye-tracking, para descobrir o que se torna visível.
Movimento, para observar os caminhos escolhidos.
Relato do participante, para saber quais possibilidades ele percebeu.
E perguntar:
mostrar uma possibilidade faz com que ela seja percebida como mais possível?
deixar de mostrá-la reduz sua presença no repertório?
esse efeito muda entre diferentes Corpos-Territórios?
Talvez uma tecnologia possa ampliar nossas possibilidades.
Talvez possa reduzi-las.
E talvez só consigamos distinguir uma coisa da outra se deixarmos de perguntar apenas:
“O sistema funciona?”
e começarmos a perguntar:
“Que tipo de movimento humano esse sistema está tornando mais provável?”
Neuro Desafio Latam
Olhe para as recomendações, mapas, notícias e conteúdos que chegaram até você hoje.
Agora pergunte:
quantas escolhas você fez — e quantas possibilidades nunca chegaram a aparecer para que você pudesse escolhê-las?
Referência científica
Wimmer, M., ElSayed, N., Thomas, B. H., Müller-Putz, G. R., & Veas, E. E. (2026). An online brain-computer interface for detecting incongruity in augmented reality applications. Journal of Neural Engineering, 23(3), 036024. https://doi.org/10.1088/1741-2552/ae6ff1