Quando a matéria começou a virar vida
Quando a matéria começou a virar vida
Da primeira fronteira ao Corpo-Território: como a vida começou a construir um mundo que pudesse sentir
Talvez seja impossível compreender a origem da vida começando apenas há quatro bilhões de anos.
Podemos começar muito mais perto.
Agora.
Você está lendo este texto a partir de um corpo vivo.
Existe alguma temperatura ao seu redor. Seu coração continua trabalhando sem pedir autorização. Você respira. Algumas regiões do corpo estão apoiadas em alguma superfície. Enquanto lê, talvez uma palavra desperte interesse e outra produza resistência.
Tudo aquilo que chamamos de “mundo” chega até nós a partir dessa posição.
Não significa que nossa consciência invente montanhas, bactérias ou estrelas. O mundo não desaparece quando fechamos os olhos.
Mas aquilo que vivemos como realidade é sempre uma relação entre alguma coisa que acontece e um organismo capaz de percebê-la.
Antonio e Hanna Damasio propõem que sentimentos homeostáticos — sinais ligados ao estado do próprio organismo — tenham desempenhado papel fundamental no surgimento evolutivo da consciência. Alfredo Pereira Jr., a partir do Monismo de Triplo Aspecto, também parte da experiência em primeira pessoa para pensar conjuntamente corpo material, informação e sentir. (OUP Academic)
Então façamos um movimento incomum.
Antes de voltar à primeira vida da Terra, vamos voltar ao começo de um único organismo humano.
Antes de existir um “eu”, muita coisa já estava acontecendo
Um espermatozoide é uma célula viva.
Um óvulo também.
Eles percebem condições químicas, modificam atividade celular e participam de interações moleculares extremamente sofisticadas. Sinais de cálcio, moléculas presentes ao redor do ovócito e proteínas de membrana participam do encontro e da fecundação. Uma revisão recente descreve justamente essa comunicação molecular entre espermatozoide, complexo que envolve o ovócito e o próprio ovócito. (OUP Academic)
Mas precisamos colocar um limite importante.
Não temos evidência de que espermatozoides ou óvulos tenham experiência consciente.
Responder ao ambiente não é a mesma coisa que sentir o ambiente como nós sentimos.
Após a fecundação forma-se o zigoto. Os genomas parentais são reorganizados, o embrião começa sucessivas divisões e, posteriormente, seu próprio genoma aumenta progressivamente sua atividade. Estudos recentes mostram a enorme complexidade molecular dessa transição. (Nature)
Ainda não existe um cérebro.
Ainda não existe uma pessoa contando para si:
“eu estou aqui”.
E mesmo assim há:
fronteira;
troca;
energia;
seleção molecular;
comunicação;
ajuste;
desenvolvimento.
Muito antes de existir consciência reflexiva, a vida já está negociando continuamente com aquilo que a cerca.
Talvez essa seja nossa primeira analogia para olhar bilhões de anos para trás.
Não porque o desenvolvimento de um embrião repita a evolução da Terra. Não repete.
Mas porque ele nos ajuda a perceber algo simples:
o “eu” chega muito depois da relação entre organismo e ambiente.
Antes da primeira célula talvez também tenham existido muitas bolhas
No Blog 1 vimos que a matéria pode formar estruturas sem estar viva.
Essa ideia agora se torna fundamental.
Moléculas semelhantes a lipídios podem espontaneamente formar agregados, micelas e compartimentos. Reações autocatalíticas podem produzir novos componentes. Sistemas químicos fora do equilíbrio podem consumir energia do ambiente e conservar, por algum tempo, sua própria organização.
Nada disso, isoladamente, precisa ser chamado de vida.
Pesquisas recentes sobre origem da vida sugerem que o grande problema não é apenas explicar como apareceram aminoácidos, nucleotídeos ou lipídios. Muitos desses componentes podem ser produzidos em cenários pré-bióticos plausíveis.
A dificuldade maior é compreender como diferentes processos começaram a funcionar juntos, formando sistemas capazes de manter fronteiras, utilizar energia, conservar informação e eventualmente reproduzir-se e evoluir. (PubMed Central (PMC))
Imagine uma pequena bolha química.
Existe um lado de dentro.
Existe um lado de fora.
Algumas moléculas entram mais facilmente.
Outras não.
Uma reação interna modifica a própria membrana.
Agora o “fora” começa a ter consequências diferentes para o “dentro”.
Talvez este tenha sido um passo enorme.
Não porque a bolha tenha adquirido uma mente.
Mas porque surgiu algo parecido com uma pergunta biológica extremamente primitiva:
o que precisa continuar acontecendo para este sistema não desaparecer?
Talvez a primeira diferença entre vida e matéria tenha sido uma relação
Essa hipótese nos aproxima de uma tradição importante da biologia e das ciências cognitivas: autonomia e enação.
Pesquisadores ligados ao pensamento enativo, incluindo o argentino Ezequiel Di Paolo, trabalham com a ideia de que organismos não recebem passivamente um mundo pronto. Ao manterem sua própria organização e agirem, estabelecem relações de relevância com o ambiente. Aquilo que favorece ou ameaça sua continuidade passa a ter significado para aquele sistema, mesmo muito antes da linguagem humana. (Springer)
Precisamos novamente evitar um salto.
Significado biológico não prova consciência fenomenal.
Uma bactéria pode aproximar-se de determinado nutriente e afastar-se de uma substância nociva. Podemos falar de regulação, agência basal ou comportamento dirigido a objetivos sem concluir automaticamente que existe “alguém lá dentro” sentindo fome ou medo.
A ciência contemporânea ainda debate até onde conceitos como cognição e agência podem ser estendidos às formas mais simples de vida. E, quando chegamos às plantas, por exemplo, uma revisão de 2024 conclui que atualmente não há evidência suficiente para afirmar senciência vegetal. (PubMed)
Manter essa dúvida aberta faz parte de nossa Agência Compartilhada.
Não precisamos chamar tudo de consciente para reconhecer que a vida faz coisas extraordinárias.
A primeira vida provavelmente já não estava sozinha
Durante muito tempo, imaginamos a origem da vida como a história de uma célula pioneira surgindo isoladamente.
Resultados recentes tornam essa imagem menos confortável.
Uma reconstrução publicada em 2024 estimou que LUCA — o último ancestral comum universal das formas celulares atuais — possa ter vivido há aproximadamente 4,2 bilhões de anos e já possuísse uma organização celular relativamente complexa.
Mais interessante ainda: os autores concluem que LUCA provavelmente fazia parte de um ecossistema, e não existia isoladamente. (Nature)
Não significa que LUCA tenha sido a primeira vida.
Significa justamente o contrário.
Quando conseguimos reconstruir esse ancestral comum, aparentemente já havia relações ecológicas acontecendo.
Talvez desde muito cedo a vida tenha sido menos:
“eu existo”
e mais:
“nós conseguimos continuar dentro destas relações”.
Aqui Jiwasa começa a aparecer muito antes de ser uma palavra humana — não como explicação científica para LUCA, mas como lente para perguntarmos se nossa insistência moderna em procurar sempre um indivíduo isolado é a melhor maneira de imaginar sistemas vivos.
A vida começou a modificar aquilo que a modificava
Então aconteceu algo extraordinário.
Os primeiros organismos não apenas se adaptaram ao planeta.
Começaram a transformar o planeta.
A história da Terra mostra uma coevolução contínua entre ambientes físicos e metabolismo microbiano. Oceanos, atmosfera e microrganismos modificaram-se reciprocamente durante bilhões de anos. (Nature)
As cianobactérias desenvolveram fotossíntese oxigênica.
Usaram luz, água e carbono para sustentar processos metabólicos e liberaram oxigênio.
Esse subproduto de pequenos organismos começou, ao longo de escalas gigantescas de tempo, a transformar a química planetária. A Grande Oxidação, aproximadamente 2,4 bilhões de anos atrás, alterou profundamente as possibilidades de vida na Terra. (ASM)
Observe a inversão.
O território seleciona organismos.
Os organismos transformam o território.
O território transformado passa a selecionar novas possibilidades de organismos.
Vida → território → vida → território.
Onde começa um e termina o outro?
Muito depois, plantas também chegaram acompanhadas
Quando plantas começaram a ocupar ambientes terrestres, novamente encontramos uma história menos individual do que nossos desenhos escolares costumavam sugerir.
Associações entre plantas, fungos e microrganismos foram importantes para a conquista do ambiente terrestre. Fungos micorrízicos ampliaram o acesso vegetal a nutrientes e água, enquanto plantas forneciam compostos de carbono aos fungos. Revisões recentes reforçam que as interações planta-microrganismo foram importantes nos processos de terrestrialização. (OUP Academic)
Não era apenas:
uma planta crescendo sobre uma terra pronta.
A planta modificava o solo.
O fungo modificava a planta.
A água modificava ambos.
Microrganismos modificavam nutrientes.
E a geração seguinte encontrava um território que já havia sido transformado pelas gerações anteriores.
A vida não apenas habita lugares.
Ela participa da construção das condições que encontrará depois.
É aqui que Tekoha pode ampliar nossa pergunta
Não queremos usar Tekoha como se um conceito Guarani fosse uma teoria química sobre protocélulas.
Isso seria reduzir um conhecimento situado para fazê-lo caber dentro de uma categoria científica ocidental.
Danilo Silva Guimarães chama atenção justamente para o risco de transformar conhecimentos produzidos em contextos específicos em categorias supostamente universais. (SciELO)
Nesta série, Tekoha nos ajuda em outra direção.
Ele nos permite perguntar:
existe alguma forma de vida que possa ser compreendida completamente sem o lugar e as relações que tornam possível seu modo de existir?
Ailton Krenak, em Futuro Ancestral, também desloca nossa ideia de território quando nos convida a perceber rios e outros existentes não apenas como cenário ou recurso, mas como participantes da continuidade da vida. (Companhia das Letras)
Talvez então possamos olhar novamente para aquela protocélula imaginária.
A membrana parece separar dentro e fora.
Mas tudo que mantém o “dentro” vem do “fora”.
Energia.
Moléculas.
Temperatura.
pH.
Água.
Gradientes químicos.
O limite existe.
Mas a independência absoluta nunca existiu.
E talvez nossa consciência ainda funcione assim
Você também possui uma fronteira.
Pele.
Membranas.
Sistema imune.
Um nome.
Uma história.
Um “eu”.
Mas enquanto lê este texto, o mundo continua atravessando essa fronteira.
Luz chega à retina.
Som pode chegar aos ouvidos.
O ar entra nos pulmões.
Moléculas dos alimentos tornam-se corpo.
Palavras alteram expectativas.
Expectativas alteram aquilo que percebemos.
A BrainLatam já propôs que o corpo aprende antes da palavra e que aquilo que percebemos não chega como realidade terminada: a experiência é construída na interação entre sinais, história corporal e aquilo que o organismo já aprendeu a esperar. (brainlatam)
Isso não significa que cada consciência fabrica seu próprio universo.
Significa algo mais simples:
cada organismo encontra o planeta desde uma posição que nenhum outro organismo ocupa exatamente da mesma maneira.
Talvez essa seja uma boa definição provisória para nossa Consciência em Primeira Pessoa.
Não o centro do universo.
Um local vivo de referência dentro dele.
Do espermatozoide e do óvulo à fecundação, do embrião ao nascimento, da criança ao adulto e finalmente à morte, muda continuamente aquilo que esse organismo consegue perceber, sentir e fazer.
A própria consciência humana parece emergir gradualmente durante o desenvolvimento neural; estudos recentes encontram fundamentos sensorimotores pré-reflexivos durante a gestação, mas o momento e a natureza da consciência fetal permanecem questões abertas. (ScienceDirect)
Talvez então a pergunta sobre a origem da vida também possa mudar.
Em vez de apenas:
“quando apareceu a primeira coisa viva?”
podemos perguntar:
quando surgiu um sistema capaz de conservar uma diferença entre si e o mundo e, ao mesmo tempo, depender completamente desse mundo para continuar existindo?
A partir daí, talvez não exista vida sem território.
Apenas diferentes maneiras de viver com ele.
No próximo blog ampliaremos novamente a lente.
Da pequena membrana iremos para Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa.
Porque, se organismos transformam seus territórios e territórios transformam organismos, um bioma talvez seja muito mais do que uma área desenhada em um mapa.
Talvez seja uma história viva de bilhões de relações acontecendo ao mesmo tempo.
Referências principais
Damasio, A.; Damasio, H. (2022). Homeostatic feelings and the biology of consciousness. Brain. (OUP Academic)
Guimarães, D. S. (2022). A Tarefa Histórica da Psicologia Indígena diante dos 60 anos da Regulamentação da Psicologia no Brasil. Psicologia: Ciência e Profissão. (SciELO)
Krenak, A. (2022). Futuro Ancestral. Companhia das Letras. (Companhia das Letras)
Nogal, N. et al. (2023). The protometabolic nature of prebiotic chemistry. Chemical Society Reviews. (PubMed Central (PMC))
Howlett, M. G.; Fletcher, S. P. (2023). From autocatalysis to survival of the fittest in self-reproducing lipid systems. Nature Reviews Chemistry. (Nature)
Di Paolo, E. A.; Lawler, D.; Vaccari, A. P. (2023). Toward an Enactive Conception of Productive Practices. Philosophy & Technology. (Springer)
Pereira Jr., A. (2024). Qualiomics: The metaphysics of consciousness. Forum for Philosophical Studies. (Acad Pub)
Moody, E. R. R. et al. (2024). The nature of the last universal common ancestor and its impact on the early Earth system. Nature Ecology & Evolution. (Nature)
Lyons, T. W. et al. (2024). Co-evolution of early Earth environments and microbial life. Nature Reviews Microbiology. (Nature)
Hansen, M. J. (2024). A critical review of plant sentience. Biology & Philosophy. (Springer)
Delafield-Butt, J.; Ciaunica, A. (2024). Sensorimotor foundations of self-consciousness in utero. Current Opinion in Behavioral Sciences. (ScienceDirect)