Quem pode formar o Jiwasa?
Quem pode formar o Jiwasa?
Diferentes corpos, ritmos e formas de aprender
A música começa.
Algumas pessoas reconhecem o ritmo imediatamente. Outras precisam observar antes de se mover. Uma pessoa dança em pé, outra sentada. Alguém acompanha o som; outra pessoa percebe as vibrações, os gestos ou o deslocamento dos corpos no espaço.
Se considerarmos apenas quem executa o movimento esperado, classificaremos rapidamente quem acompanhou e quem ficou para trás.
Mas talvez a pergunta mais importante seja outra:
O coletivo consegue aprender com quem participa de uma maneira diferente?
Um Jiwasa não pode ser formado somente por pessoas jovens, treinadas, sem deficiência e capazes de acompanhar o ritmo dominante.
Ele precisa incluir quem percebe, aprende, comunica e se movimenta de outras maneiras.
Quem hoje precisa de tempo pode orientar o coletivo amanhã
Na escola, costuma existir um estudante que demora mais para compreender.
Ele pergunta novamente.
Interrompe a velocidade da turma.
Precisa de outra explicação.
Em uma expressão popular pouco cuidadosa, alguém pode dizer que esse estudante está “arrastando corrente”.
Mas talvez ele esteja revelando uma dificuldade que o próprio caminho produziu.
Hoje, ele precisa que o coletivo diminua a velocidade.
Amanhã, pode ser a pessoa que formulará a pergunta necessária para que todos compreendam melhor.
Quem parece atrasar o grupo pode estar mostrando onde o grupo ainda não aprendeu a ensinar.
Isso não significa negar dificuldades, diagnósticos ou necessidades de apoio.
Autismo, dislexia, TDAH, deficiências motoras, sensoriais ou intelectuais podem exigir adaptações, acompanhamento especializado e políticas públicas.
A classificação pode ajudar a garantir direitos.
O problema aparece quando ela deixa de abrir caminhos e começa a determinar antecipadamente quem aquela pessoa será, o que poderá aprender e quanto poderá contribuir.
A neurodiversidade convida a uma mudança de pergunta.
Em vez de perguntar somente:
“O que esta pessoa não consegue fazer?”
podemos perguntar:
“O que precisa mudar na relação entre pessoa, tarefa e ambiente?”
O conhecimento também precisa sair de seu ritmo dominante
O mesmo problema aparece na ciência.
Cada área desenvolve uma linguagem própria.
A neurociência fala em aferência, interocepção e funções executivas.
A pedagogia fala em mediação, aprendizagem e currículo.
A antropologia fala em território, relações e modos de existência.
A dança fala em presença, peso, pausa, direção e gesto.
Essas linguagens são importantes porque oferecem precisão. Mas também podem prender pesquisadores dentro de seus próprios campos.
Cada área encontra respostas muito boas para as perguntas que já sabe fazer. Assim, pode permanecer em um ótimo local: uma solução eficiente dentro de seus limites, mas incapaz de enxergar outras possibilidades ao redor.
O Jiwasa científico começa quando diferentes áreas conseguem traduzir suas perguntas sem apagar suas diferenças.
A neurociência pode perguntar como a atenção muda.
A pedagogia pode investigar como alguém aprende.
A antropologia pode perguntar que relações tornam aquela aprendizagem possível.
A coreografia pode experimentar como o espaço, o tempo e o movimento modificam a participação.
A pessoa participante pode dizer como viveu a experiência.
Nenhuma dessas respostas é suficiente sozinha.
A tradução entre saberes não reduz a ciência.
Ela aumenta a quantidade de perguntas que a ciência consegue formular.
Essa tradução é necessária porque todas as áreas dependem de ensino e aprendizagem.
Cientistas precisam aprender com participantes.
Professores aprendem com estudantes.
Coreógrafos aprendem com diferentes corpos.
Instituições precisam aprender com aqueles que suas regras ainda não conseguem incluir.
Aprender não é uma função de uma única idade
A escola moderna costuma separar pessoas por idade.
Essa organização pode facilitar o planejamento e permitir atividades adequadas a diferentes etapas do desenvolvimento.
Mas não é a única forma possível de aprender.
Fora da escola, crianças, jovens, adultos e idosos participam do mesmo mundo.
Uma criança faz perguntas que os adultos deixaram de fazer.
Um jovem domina uma tecnologia nova.
Uma pessoa adulta organiza recursos.
Uma pessoa idosa reconhece continuidades e consequências que os demais ainda não percebem.
Em diferentes povos originários, a aprendizagem pode ocorrer na convivência, no território, no cuidado, na observação e na participação em atividades coletivas. Não existe uma única pedagogia indígena, e esses conhecimentos não devem ser transformados em uma fórmula universal.
Sua contribuição está em mostrar que aprender não precisa significar reunir pessoas da mesma idade, no mesmo lugar, realizando a mesma tarefa e obedecendo ao mesmo ritmo.
Um Jiwasa intergeracional permite que as funções circulem.
Quem ensina agora poderá aprender depois.
Quem precisa de ajuda em uma tarefa poderá conduzir a próxima.
A liderança circula porque o conhecimento necessário também muda.
Jiwasa não é sincronia obrigatória
Na dança, muitos corpos realizando o mesmo movimento podem produzir uma imagem poderosa.
Mas sincronização não é o mesmo que inclusão.
Um grupo pode executar uma coreografia perfeita e, ainda assim, ter excluído todos os corpos que não conseguiam reproduzi-la.
Na hipótese BrainLatam, Jiwasa é um “nós” que não exige o desaparecimento do “eu”.
Por isso, participar não significa necessariamente realizar o mesmo gesto.
Uma pessoa pode dançar sentada.
Outra pode acompanhar por sinais visuais.
Alguém pode precisar de silêncio.
Outra pessoa pode preferir não tocar nem ser tocada.
A comunicação pode acontecer pela fala, pela escrita, por Libras, por recursos tecnológicos, pelo olhar ou por gestos combinados pelo grupo.
Essas diferenças não são adaptações periféricas de uma dança já pronta.
Elas podem modificar aquilo que o coletivo entende como dança.
Incluir não é aproximar todos do corpo considerado normal.
É permitir que diferentes corpos transformem a própria norma.
O mesmo princípio vale para a educação e para a pesquisa.
O estudante não precisa imitar o aluno ideal.
O participante de uma pesquisa não precisa produzir o dado esperado.
A pessoa idosa não precisa mover-se como alguém jovem.
Uma resposta diferente pode não ser um erro.
Pode ser a informação que o método ainda não sabia reconhecer.
Diplomacia antes da classificação
A BrainLatam propõe a ideia de Diplomacia Brasileira como um cuidado diante das classificações automáticas.
Diplomacia não significa evitar conflitos nem afirmar que tudo é igual.
Significa não decidir cedo demais:
quem sabe;
quem não sabe;
quem ensina;
quem atrasa;
quem conduz;
quem deverá apenas acompanhar.
Antes de classificar uma pessoa como problema, o coletivo pode perguntar:
“O que esta diferença está tentando nos ensinar?”
Essa pergunta não elimina a responsabilidade de professores, pesquisadores, terapeutas ou gestores.
Um coletivo não se autorregula magicamente por ser diverso.
Grupos também podem excluir, humilhar e proteger comportamentos violentos.
Para que alguma forma de corregulação aconteça, são necessárias condições: segurança, acessibilidade, mediação, consentimento, direito à pausa e liberdade para discordar.
A diversidade oferece informação.
Mas o coletivo precisa aprender a recebê-la.
Circulação das lideranças
Em um Jiwasa, liderança não é uma propriedade permanente.
Quem conhece o espaço pode orientar o deslocamento.
Quem percebe a sobrecarga pode pedir uma pausa.
Quem utiliza cadeira de rodas pode encontrar trajetórias que os demais não imaginaram.
Quem precisa de silêncio pode revelar quanto ruído estava sendo tratado como normal.
Quem demorou para aprender pode descobrir uma maneira mais clara de ensinar.
Isso não significa que todas as pessoas tenham a mesma responsabilidade.
O professor continua responsável pelo processo pedagógico.
O pesquisador continua responsável pelo método.
O coreógrafo continua responsável por suas decisões artísticas.
A circulação da liderança significa que essas posições não possuem toda a percepção disponível.
Ninguém percebe tudo o tempo todo.
Por isso, conduzir também exige aprender com quem está sendo conduzido.
Os dados também precisam aprender a incluir
Pesquisas sobre dança, educação ou neurodiversidade podem registrar movimento, frequência cardíaca, EEG, fNIRS, desempenho e comportamento.
Essas medidas podem ajudar a responder perguntas importantes.
Mas nenhum dado isolado define quem pertence ao coletivo.
Uma pessoa com menor sincronização pode estar cansada, protegendo-se de uma sobrecarga ou participando de outra maneira.
Talvez o equipamento não tenha sido construído para reconhecer seu movimento.
Talvez a diferença registrada seja justamente a principal descoberta.
A soberania dos dados exige que participantes e comunidades saibam o que está sendo medido, quem poderá acessar os registros, como serão interpretados e que benefícios retornarão para quem produziu essas informações.
O dado não deveria sair da pessoa e retornar apenas como classificação.
Precisa retornar como compreensão, proteção e possibilidade de escolha.
Quem pode formar o Jiwasa?
A música continua.
Uma pessoa acompanha rapidamente.
Outra precisa de tempo.
Uma dança.
Outra observa.
Uma conduz agora.
Outra conduzirá depois.
O Jiwasa não existe porque todos aprenderam a mesma coisa.
Ele começa quando o coletivo consegue aprender com aquilo que ainda não compreende.
Quem pode formar o Jiwasa?
Quem ensina.
Quem aprende.
Quem faz os dois ao mesmo tempo.
Quem acompanha o ritmo.
Quem revela que talvez seja necessário criar outro ritmo.
Quem hoje parece “arrastar corrente”, mas está mostrando que a corrente pode estar presa ao próprio caminho.
Um Jiwasa mais inclusivo não pede que todas as áreas abandonem suas linguagens.
Pede que consigam atravessá-las.
Para que uma pergunta da dança possa chegar à neurociência.
Uma descoberta da antropologia possa modificar a pedagogia.
Uma experiência educacional possa inspirar um experimento.
E a pessoa estudada deixe de ser apenas objeto para tornar-se participante da criação do conhecimento.
Um coletivo não se torna mais inteligente quando todos chegam à mesma resposta.
Torna-se mais inteligente quando consegue aprender com diferentes maneiras de perguntar.
No texto anterior, defendemos que ninguém deveria entregar seus sentimentos para provar que pertence.
Agora, avançamos para outra liberdade:
Ninguém deveria abandonar seu modo de perceber, aprender ou participar para ser reconhecido como parte do coletivo.
Referências e suas contribuições
PRECIADO JIMENEZ, Susana Aurelia et al. The Dynamic Interplay Between Students and Staff in Enhancing Inclusion in Higher Education in Latin America. 2023.
Contribuição: apresenta abordagens colaborativas que substituem modelos exclusivamente centrados no déficit por ambientes construídos com a participação de estudantes neurodivergentes.
QUILAQUEO, Daniel; TORRES, Héctor. School Contextualization with Indigenous Groups’ Socio-Educational Methods and Pedagogies. 2024.
Contribuição: defende o diálogo entre escola e conhecimentos socioeducacionais Mapuche, sem reduzir a inclusão à inserção de conteúdos indígenas em estruturas coloniais inalteradas.
CALDERÓN, Dora Inés; BLANCO VEGA, María de Jesús; LEÓN SUÁREZ, Juliana Patricia. Danza inclusiva con personas sordas: un estado de la cuestión. 2022.
Contribuição: mostra que som e audição não devem ser tratados como as únicas portas de entrada para o ritmo, o movimento e a dança.
DELABARY, Marcela dos Santos et al. Brazilian Dance Self-Perceived Impacts on Quality of Life of People with Parkinson’s. 2024.
Contribuição: valoriza a experiência em primeira pessoa de participantes mais velhos e com Parkinson, sem transformar relatos de benefício em evidência universal.
TORINO, Emanuelle et al. Princípios CARE para a governança de dados de povos indígenas. 2024.
Contribuição: fundamenta benefício coletivo, autoridade, responsabilidade e ética na utilização de dados, inspirando perguntas sobre a participação das comunidades na produção científica.
EDU O. et al. Nunca Mais Abismos. 2023.
Contribuição: mostra como artistas com deficiência e recursos de acessibilidade podem participar da própria linguagem da obra, em vez de aparecerem como adaptações posteriores.
BRAINLATAM; CIONEK, Jackson. Jiwasa: aprendendo e ensinando em um Eu Coletivo.
Contribuição: propõe que aprender, ensinar e conduzir sejam funções circulantes, sem apresentar a autorregulação coletiva como mecanismo automaticamente garantido.
BRAINLATAM; CIONEK, Jackson. Diplomacia Brasileira.
Contribuição: propõe adiar classificações automáticas para que diferenças possam ser investigadas como informações sobre pessoas, relações, ambientes e métodos.
A frase que organiza esta versão é:
O Jiwasa não é um coletivo em que todos aprendem da mesma maneira, mas um coletivo capaz de aprender com diferentes maneiras de aprender.