Jackson Cionek
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Transcender-se Ser - posso deixar uma narrativa sem perder meu pertencimento?

Transcender-se Ser - posso deixar uma narrativa sem perder meu pertencimento?

Do sentir celular ao Jiwasa: talvez a consciência procure pertencer antes mesmo de compreender aquilo que busca.

E se mudar de ideia significasse perder quem você ama?

Imagine um almoço de família.

A comida desperta lembranças. Você reconhece vozes, gestos e histórias que acompanham sua existência desde a infância.

Alguém menciona uma crença compartilhada por todos.

Você aprendeu aquela narrativa com pessoas que ama. Mas um novo conhecimento transformou sua interpretação.

Agora pensa diferente.

Antes de falar, sente um desconforto.

Talvez receie perder o reconhecimento daquelas pessoas.

O que realmente está ameaçado: sua crença ou seu pertencimento?

Quero investigar essa experiência com você.

Talvez o medo de abandonar uma narrativa seja também o medo de deixar de sentir que pertencemos.

O pertencimento começou antes das palavras

Voltemos ao desenvolvimento de nosso organismo.

Células se multiplicam, recebem sinais e percorrem processos de diferenciação.

Algumas participam da formação de tecidos nervosos. Outras, de músculos, sangue e órgãos.

Cada célula desenvolve funções particulares enquanto participa de uma organização viva.

Essa diferenciação depende de sinalização molecular, expressão gênica e relações com ambientes celulares específicos.

Muito antes de aprendermos palavras como família, comunidade ou cultura, nossa existência já dependia de relações biológicas.

Na BrainLatam, encontramos aqui uma pergunta:

E se o pertencimento fosse um sentido que a consciência busca experimentar sem compreender inteiramente aquilo que procura?

A diferenciação celular não demonstra consciência nas células. Ela nos oferece uma escala material para investigar relações e organização.

Quorum Sensing Humano: o pertencimento atravessa escalas

Na microbiologia, quorum sensing descreve mecanismos pelos quais bactérias detectam moléculas sinalizadoras e coordenam determinadas respostas coletivas.

Células humanas também se comunicam e regulam suas atividades, embora por mecanismos distintos.

Na BrainLatam, propomos o Quorum Sensing Humano (QSH) como hipótese integradora para investigar comunicação corporal, interocepção, sincronização fisiológica e pertencimento social.

Queremos compreender como diferentes escalas de organização participam da experiência de Ser.

Imagine reconhecer a presença de alguém antes mesmo de conseguir explicar por que ela lhe transmite segurança.

Seu corpo já participa daquele encontro.

Talvez a busca consciente por pertencimento surja de uma história relacional muito mais extensa do que nossas explicações conseguem alcançar.

O bebê ainda não sabe dizer que foi excluído

Agora imagine um bebê no colo de seu cuidador.

Diante deles, duas pessoas brincam com uma bola.

Primeiro, todos participam.

Depois, os experimentadores continuam passando a bola apenas entre si.

O bebê e seu cuidador deixam de receber oportunidades de participação.

Em 2026, Niloofar Goharbakhsh e Louisa Kulke investigaram essa situação por meio de EEG hyperscanning, registrando simultaneamente a atividade cerebral de bebês e cuidadores.

Os pesquisadores compararam a exclusão com momentos perceptivamente semelhantes nos quais simplesmente não era a vez da dupla.

O resultado merece nossa atenção.

Os bebês apresentaram maior potência theta durante a exclusão.

Isso aconteceu antes de possuírem linguagem suficiente para explicar verbalmente o significado de serem excluídos.

Dois corpos podem sentir diferentemente

O estudo encontrou outro resultado importante.

Os cuidadores não apresentaram o mesmo aumento significativo de potência theta.

E a sincronização intercerebral não aumentou de maneira generalizada durante a exclusão.

Imagine o cuidador percebendo o desconforto do bebê.

Talvez sua participação mais importante seja produzir uma resposta diferente, capaz de contribuir para a regulação daquela experiência.

O estudo não demonstra diretamente um sentido consciente de pertencimento, nem prova o QSH.

A potência theta também pode refletir processos de expectativa, atenção e monitoramento de acontecimentos.

Entretanto, o experimento revela sensibilidade neural e comportamental precoce a mudanças na participação social.

Podemos participar do mesmo acontecimento sem precisar apresentar respostas cerebrais idênticas.

Essa possibilidade nos aproxima do Jiwasa.

Pertencer não é concordar

Voltemos ao almoço familiar.

Você continua reconhecendo aquelas vozes e compartilhando aquela história.

Mas agora interpreta determinado acontecimento de maneira diferente.

Imagine que a família considere a concordância uma condição indispensável para permanecer.

Seu pertencimento passa a depender da repetição.

Na BrainLatam, o Homem de Madeira representa esse risco.

Ele encontra reconhecimento em um ótimo local semântico-afetivo, onde determinada narrativa organiza rigidamente sua identidade.

O seguidor deixou de Ser.

Mas podemos experimentar outra possibilidade.

Compartilhar cultura, alimento, memória e cuidado sem exigir interpretações idênticas.

O vínculo pode continuar participando da nossa existência enquanto aprendemos novas maneiras de perceber.

Yãy hã mĩy: imitar para transcender-se Ser

Entre os Tikmũ'ũn/Maxakali, encontramos conhecimentos relacionados à imitação, à transformação, aos cantos e às relações entre seres.

Isael e Sueli Maxakali participam de projetos que apresentam esses conhecimentos a partir de perspectivas indígenas próprias.

Em diálogo com eles, desenvolvemos na BrainLatam uma interpretação filosófica estendida:

Yãy hã mĩy — Imitar Ser para transcender-se Ser.

Imagine uma criança aprendendo com alguém que ama.

Experimenta palavras, gestos e movimentos.

Depois encontra novas experiências e descobre possibilidades que seus antepassados não haviam percebido.

Sua história permanece participando de seu Ser.

Podemos respeitar nossos antepassados sem reduzir nosso Ser aos limites do que lhes foi possível perceber.

Deixa vir: reconhecer o sentimento

Agora alguém apresenta uma ideia diferente.

Antes de responder, você sente alguma coisa.

Talvez medo, curiosidade ou desconforto.

Deixa vir.

Podemos reconhecer a experiência sem precisar concordar imediatamente com sua interpretação.

O sentir testemunha nossa experiência consciente, mas não comprova a verdade da narrativa que acompanha o sentimento.

Podemos perguntar de onde veio aquela informação e quais lembranças ela mobilizou.

O estímulo pode participar da configuração perceptiva antes de ocupar o centro da atenção.

Quando ganha prioridade atencional, sua influência pode ser ampliada.

Reconhecer esse movimento oferece possibilidades de investigação.

Deixa ficar: permitir o aprendizado

Você continua escutando.

A outra pessoa compartilha experiências que desconhecia.

Talvez apresente informações que contrariem suas expectativas.

Deixa ficar.

Permitir que uma ideia permaneça não significa transformá-la imediatamente em identidade.

Podemos investigar evidências, reconhecer diferenças e comparar interpretações.

Cada novo aprendizado pode ampliar o recorte de realidade que conseguimos perceber.

O pertencimento não precisa exigir que interrompamos esse movimento.

Podemos continuar compartilhando relações enquanto nossa compreensão se transforma.

Deixa Ser: reconhecer outra existência

Observe novamente a pessoa diante de você.

Ela possui memórias, sentimentos e conhecimentos diferentes dos seus.

Seu Corpo-Território participa de outra história.

Deixa Ser.

Reconhecer essa singularidade permite construir relações nas quais a diferença também produz conhecimento.

Em pesquisa publicada em 2025, Ivo Leiva-Cisterna e colaboradores investigaram cooperação e estimulação sensorial entre participantes.

A investigação oferece caminhos para compreender determinadas formas de coordenação neural e comportamental.

Mas cooperação não exige que duas pessoas se tornem uma.

O Jiwasa pode existir na diferença que permite continuarmos aprendendo juntos.

Pode desobedecer: permanecer sendo

Imagine responder:

“Compreendo sua história, mas agora percebo isso de outra maneira.”

Você continua sentado à mesa.

Pode desobedecer.

Na nossa proposta, desobedecer significa poder questionar uma narrativa e desenvolver uma interpretação própria, preservando responsabilidades compartilhadas.

Se pertencer exigisse repetir todas as crenças de nossos antepassados, como poderíamos aprender algo novo?

Talvez oferecer liberdade a quem amamos também signifique permitir que essa pessoa descubra possibilidades que ainda não conhecemos.

O pertencimento pode sustentar a transformação em vez de impedir seu movimento.

Na Mata Atlântica, aprendi a mudar de posição

Entrei na Mata Atlântica descalço, usando apenas um calção.

Saí da trilha e encontrei raízes e galhos emaranhados.

Precisava proteger minha pele e preservar a vegetação.

Em alguns momentos, rastejei.

Minhas mãos encontravam apoios. Meus pés reconheciam o terreno.

Cada movimento revelava outra passagem.

Ali experimentei intensamente:

Perceber o que se pode.

Eu continuava participando daquele território enquanto transformava minha posição.

Talvez nossas relações também possam acompanhar esse movimento.

Pertencer não exige permanecer imóvel.

O Homem de Milho aprende em Jiwasa

Na interpretação BrainLatam inspirada pelo Popol Wuj, o Homem de Barro se acredita pertencente a uma ordem superior.

O Homem de Madeira segue narrativas.

O Homem de Milho reconhece sua existência no alimento, na cultura, no aprendizado, na água e nas relações.

Ele percebe que o Bioma participa da produção de seu metabolismo.

Ailton Krenak nos convida a reconhecer a continuidade da vida nas relações ancestrais.

Silvia Rivera Cusicanqui amplia nossa compreensão sobre coexistência de diferenças e experiências coletivas.

O Homem de Milho pertence e continua aprendendo.

No Jiwasa, transformar-se pode enriquecer as possibilidades da existência compartilhada.

Deixa ir: permitir que o Ser continue

Algumas interpretações permanecem. Outras se transformam.

Algumas deixam de orientar nossas decisões.

Deixa ir.

Na arquitetura BrainLatam, o Corpo-Território constitui a unidade mínima e parte indivisível do Estado.

A IA Personalíssima propõe ampliar sua autonomia diante dos dados e das instituições.

O Drex Cidadão, o Rendimento Bioma e a investigação da Produção de Excessos integram possibilidades de participação econômica e responsabilidade ecológica.

Somos herdeiros do passado, participantes do presente e corresponsáveis pelos futuros que tornamos possíveis para os próximos Corpos-Territórios.

Talvez transcender-se Ser seja descobrir que nossas relações podem continuar enquanto nossas interpretações mudam.

Se pertencemos antes mesmo de compreender o pertencimento, por que precisaríamos permanecer presos a uma única narrativa para continuar pertencendo?

Referências científicas e culturais comentadas

Evidência experimental sobre pertencimento e exclusão

Goharbakhsh, N.; Kulke, L. (2026). Can You Feel My Pain? Neural-Behavioural Changes in Caregiver–Infant Dyads During Ostracism. Developmental Science, 29(5), e70269.

Estudo pré-registrado com bebês de 5 a 7 meses e seus cuidadores, utilizando EEG hyperscanning. Na análise de potência theta, com 34 bebês, foi observado aumento durante a exclusão social. A sincronização intercerebral não apresentou aumento generalizado. Oferece uma referência experimental importante para investigar sensibilidade precoce à participação social, sem demonstrar diretamente a hipótese BrainLatam de um sentido consciente de pertencimento.

Leiva-Cisterna, I.; Barraza, P.; Rodríguez, E.; Dumas, G. (2025). Sensory multi-brain stimulation enhances dyadic cooperative behavior. Social Cognitive and Affective Neuroscience, 20(1), nsaf104.

Pesquisa com participação de instituições chilenas que investiga estimulação sensorial, sincronização intercerebral e cooperação. Oferece uma referência latino-americana para formular hipóteses sobre coordenação entre indivíduos, preservando a distinção entre correlação neural, comportamento cooperativo e experiência consciente.

Pensamento latino-americano e ancestralidade

Ailton Krenak (2022). Futuro ancestral. Companhia das Letras.

Relaciona ancestralidade, água, território e continuidade da vida. Enriquece a compreensão de pertencimento como relação viva, capaz de acompanhar mudanças e novas possibilidades de existência.

Silvia Rivera Cusicanqui, em diálogo com Paola Lopes Zamariola e colaboradores (2024). Campo Abierto: conversas sobre prácticas y discursos descolonizadores con Silvia Rivera Cusicanqui. Rebento.

Apresenta reflexões sobre territorialidade, temporalidade, práticas coletivas e coexistência de diferenças, contribuindo para pensar o Jiwasa como pertencimento que preserva singularidades.

Lucero González Suárez (2023). El ser del hombre a la luz del Popol Vuh. Análisis fenomenológico-hermenéutico. LiminaR. Estudios Sociales y Humanísticos, 21(1).

A filósofa mexicana analisa as figuras humanas de barro, madeira e milho na tradição K'iche' maia. Contribui para contextualizar as metáforas da BrainLatam, distinguindo a elaboração filosófica contemporânea dos significados próprios do Popol Wuj.

Isael Maxakali, Sueli Maxakali e curadores indígenas (2025). Mundos Indígenas — UFMG.

A exposição apresenta conhecimentos e cosmologias de diferentes povos indígenas, incluindo os Tikmũ'ũn/Maxakali. Oferece contexto cultural para o diálogo com Yãy hã mĩy, preservando a autoria e a singularidade desses conhecimentos.

Continuidade conceitual BrainLatam

BrainLatam — Jackson Cionek (2026). Posso sentir a sua exclusão? Quando dois corpos participam do mesmo acontecimento.

Interpreta o experimento de Goharbakhsh e Kulke a partir do Corpo-Território, destacando que respostas neurais diferentes podem participar de um mesmo acontecimento relacional.

BrainLatam — Jackson Cionek (2025). Quorum Sensing Humano — A Ciência do Pertencimento.

Desenvolve a hipótese autoral que aproxima processos biológicos, interocepção, relações afetivas e participação coletiva. É a principal referência para investigar o pertencimento como um sentido buscado pela consciência antes de sua compreensão explícita.

BrainLatam (2026). Jiwasa — pertencer sem permanecer na mesma posição.

Aprofunda a proposta de agência compartilhada, segundo a qual diferentes Corpos-Territórios podem construir possibilidades coletivas sem precisar uniformizar suas experiências.

O ponto que fortalece esta versão do Blog 08 é a relação entre três dimensões: organização biológica, sensibilidade precoce à exclusão e liberdade de transformar as narrativas às quais aprendemos a pertencer.

Assim, a mensagem para os jovens é: podemos mudar aquilo em que acreditamos sem precisar deixar de amar, aprender e participar da vida com aqueles que contribuíram para formar nosso Ser.

BRAINLATAM · W43/2026 · O PROBLEMA DOS 3 CORPOS







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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States