Jackson Cionek
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Antes das palavras, existe o corpo

Antes das palavras, existe o corpo

Você não precisa explicar tudo o que sente para estar bem.

Vivemos em um mundo que pede explicações o tempo todo.
“Por que você está assim?”
“O que você está sentindo?”
“Coloca em palavras.”

Desde cedo aprendemos que, se algo não pode ser explicado, então não está resolvido.
Mas o corpo não funciona desse jeito.

Antes de qualquer palavra, existe uma sensação.
Antes de qualquer narrativa, existe um estado corporal.
E antes de qualquer explicação, existe a vida acontecendo.

Talvez o sofrimento de muita gente hoje não venha do que sente —
mas da tentativa constante de explicar o que sente.


Emoção curta × sentimento estável

Uma das maiores confusões que fazemos é tratar emoção e sentimento como a mesma coisa.

Eles não são.

  • Emoções são rápidas, curtas, intensas.
    Surgem, cumprem uma função e deveriam ir embora.

  • Sentimentos são estados mais estáveis, duradouros, silenciosos.
    Eles refletem como o corpo está regulado ao longo do tempo.

Quando uma emoção curta não encontra espaço para se dissipar, ela se cristaliza.
E quando isso acontece, o corpo entra em tensão.

O problema não é sentir raiva, medo, tristeza ou excitação.
O problema é transformar cada emoção em uma identidade.

“Eu sou ansioso.”
“Eu sou assim mesmo.”
“Esse é o meu jeito.”

Nesse momento, a palavra deixa de expressar o corpo
e começa a governá-lo.


Iam: quando o sentir vira narrativa fixa

O avatar Iam representa os estados afetivos, os vínculos e os sentimentos que moldam nossas decisões.

Iam nos ajuda a perceber algo fundamental:

sentir é natural; se definir pelo que se sente é que cria sofrimento.

Quando damos nome demais às emoções, começamos a nos observar como personagens.
Passamos a viver menos o corpo e mais a história que contamos sobre ele.

Isso cria um ciclo perigoso:

  • sinto algo

  • explico demais

  • me identifico com a explicação

  • passo a sentir o que a explicação permite

Aos poucos, o corpo perde espaço.
A narrativa assume o controle.


Adolescência: a armadilha de “sentir errado”

Na adolescência, essa confusão fica ainda mais forte.

O corpo muda rápido.
O cérebro ainda está se organizando.
As emoções aparecem com intensidade.

E, ao mesmo tempo, surge uma pressão enorme para:

  • se entender

  • se definir

  • se explicar

Muitos adolescentes não sofrem porque sentem demais.
Sofrem porque acham que estão sentindo errado.

Sentir vira um problema a ser corrigido.
Em vez de escutar o corpo, tenta-se ajustá-lo a um padrão emocional aceitável.

O resultado é um corpo em alerta permanente, tentando se encaixar.


O excesso de rótulos cria sofrimento

Rótulos podem ajudar a comunicar experiências.
Mas quando usados em excesso, eles reduzem a vida.

Um rótulo nunca descreve o corpo inteiro.
Ele captura apenas um recorte.

Quando o rótulo vira identidade:

  • o corpo se fecha

  • a percepção se estreita

  • a curiosidade diminui

A pessoa deixa de perguntar “o que está acontecendo comigo agora?”
e passa a repetir “eu sou assim”.

Isso não traz clareza.
Traz rigidez.


Yagé: perceber sem ficar preso ao que percebe

Aqui entra o avatar Yagé, que representa a metacognição aplicada
a capacidade de perceber a própria percepção.

Yagé não pede análise profunda.
Ele pede algo mais simples:

perceber sem julgar.

Isso muda tudo.

Quando você percebe um estado corporal sem tentar explicá-lo, ele se reorganiza mais rápido.
Quando você observa uma emoção sem dar nome imediato, ela cumpre sua função e vai embora.

Yagé ajuda a sair de dois extremos:

  • negar o que sente

  • se afogar no que sente

O caminho do meio é a presença.


O corpo não precisa de explicação para se regular

Um erro comum é achar que só ficamos bem depois de entender tudo.

Mas o corpo não espera compreensão.
Ele responde a:

  • ritmo

  • respiração

  • postura

  • ambiente

  • segurança

A mente aprende depois.

Quando tentamos resolver tudo pela palavra, ignoramos o básico:
o corpo se regula por experiência, não por argumento.


Metacognição simples: perceber sem julgar

Metacognição não é pensar mais.
É pensar melhor — ou, às vezes, não pensar.

Um exercício simples:

  • sentir o corpo

  • notar a respiração

  • perceber a emoção

  • não dar nome por alguns segundos

Isso não é meditação formal.
É pausa biológica.

Nesse espaço sem rótulo, o corpo volta a conversar consigo mesmo.


Um caminho simples para o agora

Sem técnicas complexas. Sem autoanálise infinita.

Algumas perguntas silenciosas:

  • Onde isso aparece no meu corpo?

  • Está mudando ou está parado?

  • Precisa de explicação ou de tempo?

Pequenas atitudes:

  • diminuir estímulo quando a emoção sobe

  • mover o corpo em vez de explicar

  • respirar antes de responder

  • aceitar que nem tudo precisa virar palavra

Isso não apaga sentimentos.
Isso organiza sentimentos.


O ponto central

Palavras são ferramentas poderosas.
Mas elas não são a origem da vida.

Quando a palavra governa o corpo, o corpo sofre.
Quando a palavra expressa o corpo, a vida flui.

Você não precisa explicar tudo o que sente para estar bem.
Às vezes, basta sentir e deixar passar.

Ou, em uma frase para guardar:

Antes das palavras, existe o corpo.

E quando o corpo é ouvido,
a mente encontra descanso.

 

eferências científicas pós-2020::

  1. Balconi, Angioletti et al. (2024)Inter-brain entrainment (IBE) during interoception: A multimodal EEG-fNIRS coherence-based hyperscanning approach — Estudo que combina EEG e fNIRS em registros hiperscanning para mostrar como atenção interoceptiva (foco na respiração) influencia coerência neural entre indivíduos durante sincronização motora, com efeitos significativos em bandas de frequência e hemodinâmica cerebral. 

  2. Chen, Liu & Zhang (2024)EEG–fNIRS-Based Emotion Recognition Using Graph Convolution and Capsule Attention Network — Pesquisa que demonstra como EEG e fNIRS juntos podem refletir estados emocionais de forma objetiva e com alta resolução, reforçando que medidas neurais multimodais capturam processos afetivos correlacionados com bem-estar. 

  3. Zelič et al. (2025)Emotion regulation: The role of hypnotizability and interoception — Estudo que examina como diferenças individuais na interocepção (precisão e sensibilidade) estão associadas a estratégias de regulação emocional como reavaliação cognitiva e supressão expressiva, destacando a relação entre interocepção e regulação afetiva. 

  4. Rusínova et al. (2025, preprint)Interoceptive training enhances emotional awareness and body image perception — Pesquisa que mostra que treinamento interoceptivo guiado por biofeedback melhora precisão interoceptiva e consciência emocional, com impacto positivo em bem-estar psicológico, evidenciando o papel direto de sinais corporais. 

  5. Lopez-Martín et al. (2025)Interoceptive rhythms and perceptual experience — Revisão recente que destaca como ritmos interoceptivos (cárdico, respiratório, gástrico) modulam percepção e experiências sensório-cognitivas, reforçando o papel contínuo dos sinais internos no processamento cognitivo e afetivo.


Como essas referências sustentam cientificamente os temas do blog

Interocepção está ligada à emoção e à regulação afetiva — Zelič et al. mostram associações entre precisão/sensibilidade interoceptiva e estratégias de regulação emocional. 

 EEG e fNIRS demonstram neuralmente estados afetivos e atenção interna — Estudos como o de Chen et al. usam EEG-fNIRS para mapear estados emocionais, reforçando que as medidas neurais capturam processos afetivos além de relatos subjetivos. 

 Atenção interoceptiva modula sincronização neural entre pessoas — O trabalho de Balconi et al. com EEG-fNIRS hiperscanning mostra que foco em sinais corporais (respiração) influencia coerência neural, conectando interocepção e estados sociais/afetivos. 

 Treinar interocepção altera regulação emocional e autoconsciência — Rusínova et al. encontram evidência de que programas de treinamento interoceptivo melhoram consciência emocional e percepção corporal, sugerindo caminhos práticos para bem-estar. 

 Ritmos internos moldam percepção geral — A revisão de Lopez-Martín et al. demonstra que ritmos interoceptivos influenciam a experiência perceptiva e cognitiva de forma contínua, implicando regulação corporal como base de experiências estáveis. 







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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States