Jackson Cionek
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CINV e Ciência–Território em Valparaíso

CINV e Ciência–Território em Valparaíso

Um pequeno experimento antes de falar de neurociência

Antes de continuar lendo, faça algo simples.

Feche os olhos por alguns segundos.

Agora imagine duas paisagens diferentes.

A primeira:
um laboratório fechado, silencioso, cheio de equipamentos.

A segunda:
uma cidade costeira, com morros, escadas, vento do Pacífico, pessoas caminhando pelas ruas de Valparaíso.

Agora pergunte:

em qual desses lugares a ciência realmente acontece?

A resposta talvez seja: nos dois.

E é exatamente essa ponte entre laboratório e território que começa a aparecer com mais força no trabalho do Centro Interdisciplinario de Neurociencia de Valparaíso (CINV), no Chile.


CINV e Ciência–Território em Valparaíso
CINV e Ciência–Território em Valparaíso

Quando a ciência encontra a cidade

Em 2026, o CINV anunciou uma agenda de colaboração com o Município de Valparaíso, buscando aproximar pesquisa científica da comunidade local.

A ideia não é apenas divulgar ciência.

É algo mais profundo:

fazer ciência conectada ao território onde ela acontece.

Isso significa que temas como:

  • educação científica

  • saúde mental

  • percepção urbana

  • bem-estar coletivo

podem ser discutidos em diálogo direto com a cidade.

Essa aproximação reflete um movimento crescente na ciência contemporânea: a chamada ciência situada, na qual o conhecimento não é produzido em isolamento, mas em interação com o contexto social e cultural.


Experimento 1 — O cérebro percebe a cidade

Agora imagine caminhar por Valparaíso.

A cidade é conhecida por:

  • morros íngremes

  • escadas longas

  • funiculares

  • ruas estreitas

  • vista para o oceano

Cada um desses elementos exige adaptações do corpo:

equilíbrio
atenção
orientação espacial
memória do percurso.

Pesquisas em neurociência espacial mostram que o cérebro utiliza redes envolvendo hipocampo e córtex parietal para navegar em ambientes complexos (Ekstrom et al., 2018; Epstein et al., 2022).

Em cidades como Valparaíso, a navegação urbana se torna um verdadeiro laboratório natural de cognição espacial.


Experimento 2 — O território regula emoções

Agora imagine outro cenário.

Uma pessoa vivendo em um bairro onde conhece seus vizinhos, sente pertencimento e tem acesso a espaços públicos.

Compare com alguém vivendo em um ambiente urbano hostil e fragmentado.

O cérebro responde de forma diferente.

Estudos recentes em neurociência ambiental mostram que ambientes urbanos e naturais podem modular redes cerebrais associadas ao estresse, atenção e regulação emocional (Bratman et al., 2022).

Isso significa que cidades não são apenas construções físicas.

Elas são também ambientes neuropsicológicos.


Experimento 3 — A cidade como rede de mentes

Uma cidade não é apenas um espaço geográfico.

Ela é uma rede de pessoas interagindo continuamente.

Conversas, cooperação, aprendizado e cultura criam dinâmicas coletivas.

Pesquisas em neurociência social e estudos de sincronização inter-cerebral mostram que interações humanas podem gerar padrões compartilhados de atividade neural (Liu et al., 2023).

Em escala urbana, isso levanta uma hipótese interessante:

as cidades podem funcionar como ecossistemas de inteligência coletiva.


Por que o CINV é importante nesse cenário

O Centro Interdisciplinario de Neurociencia de Valparaíso (CINV) tem se destacado na América Latina por integrar:

  • neurociência

  • biologia

  • psicologia

  • educação

  • divulgação científica

Ao aproximar pesquisa científica da cidade, o CINV sugere um caminho promissor:

estudar o cérebro dentro dos contextos reais onde as pessoas vivem.

Esse tipo de abordagem dialoga com uma visão mais ampla da ciência da mente, na qual processos cognitivos emergem da interação entre:

  • cérebro

  • corpo

  • ambiente social

  • território.


Um último experimento

Volte ao início deste texto.

Imagine novamente Valparaíso.

As escadas.

Os morros.

O mar.

Agora imagine estudantes, pesquisadores e moradores da cidade conversando sobre ciência.

Talvez seja isso que iniciativas como as do CINV estão tentando mostrar:

a ciência não precisa ficar isolada dentro de laboratórios.

Ela pode nascer no encontro entre conhecimento, cidade e território.

E quando ciência e território se encontram, novas perguntas sobre a mente humana começam a surgir.


Referências

Bratman, G. N., et al. (2022). Nature and mental health: An ecosystem service perspective. Science Advances.

Damasio, A. (2021). The feeling of life itself and the construction of consciousness. Nature Reviews Neuroscience.

Ekstrom, A. D., Spiers, H. J., Bohbot, V. D., & Rosenbaum, R. S. (2018). Human spatial navigation. Princeton University Press.

Epstein, R. A., Patai, E. Z., Julian, J. B., & Spiers, H. J. (2022). The cognitive map in humans: Spatial navigation and beyond. Nature Neuroscience.

Henrich, J. (2020). The WEIRDest People in the World. Farrar, Straus and Giroux.

Liu, D., et al. (2023). Inter-brain synchronization during social interaction. Nature Human Behaviour.

Pereira Jr., A., & Furlan, F. A. (2021). Triple-aspect monism and the science of consciousness. Frontiers in Psychology.

Valdes, J. L., et al. (2021). Neuroscience development in Latin America: Challenges and opportunities. Frontiers in Neuroscience.

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Jackson Cionek

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