Jackson Cionek
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dEUS: quando os eus deixam de competir e passam a compor

dEUS: quando os eus deixam de competir e passam a compor

E se Deus não fosse apenas uma ideia acima da vida, mas uma forma de sentir a composição viva de todos os eus dentro da Terra?

Este texto não propõe uma religião. Também não pretende negar nenhuma experiência espiritual pessoal. A proposta aqui é outra: pensar dEUS como um conceito neurofilosófico e decolonial, nascido da vida, do DNA, dos Eus Tensionais, do Jiwasa e da relação com todos os seres vivos.

Na nossa leitura, o ser humano não é um “eu” único, fixo e isolado. Somos muitos eus em composição. Cada tarefa, cada vínculo, cada memória, cada medo, cada desejo e cada território ativa formas diferentes de ser e estar. Há o eu que trabalha, o eu que cuida, o eu que se defende, o eu que cria, o eu que ama, o eu que teme, o eu que pertence e o eu que tenta sobreviver.

Chamamos essas formas de Eus Tensionais.

Eles não são personagens imaginários. São modos corporais aprendidos. Cada Eu Tensional organiza postura, respiração, atenção, memória, interocepção, propriocepção e ação. Um eu aparece quando precisamos nos proteger. Outro quando precisamos ensinar. Outro quando precisamos negociar. Outro quando estamos em fruição. Cada eu é um metabolismo existencial.

A base disso começa muito antes da linguagem. Começa no DNA.

O DNA não é apenas uma molécula biológica que carrega instruções. Ele é uma inteligência de continuidade da vida. Desde a célula-ovo, a vida organiza diferenciações, ritmos, formas, limites, aberturas e possibilidades. O corpo nasce como composição. Células diferentes se tornam tecidos, órgãos e sistemas. Nenhuma célula precisa ser “tudo”. Cada uma participa de um todo maior.

Essa é uma das imagens centrais para entender dEUS.

A vida não funciona pela competição absoluta entre partes. Ela funciona pela composição entre diferenças. Quando as partes deixam de competir destrutivamente e passam a compor funcionalmente, o corpo vive melhor. O mesmo pode ser pensado para os Eus Tensionais, para o Jiwasa e para o território.

Na perspectiva da Mente Damasiana, a consciência nasce da regulação do organismo, dos sentimentos e da relação entre corpo e mundo. Antonio Damasio, em Feeling & Knowing, reforça que a consciência depende de processos corporais profundos, nos quais sentir e conhecer não são separados. A mente não é uma entidade solta; ela emerge da vida organizada no corpo. (PhilPapers)

É aqui que dEUS começa a ganhar forma.

Quando os Eus Tensionais competem dentro de nós, vivemos fragmentados. Um eu quer criar, outro quer se defender, outro quer agradar, outro quer controlar, outro quer fugir. Essa competição interna pode gerar ansiedade, rigidez, culpa, medo e Zona 3. O corpo fica sequestrado por tensões que não conseguem compor.

Mas quando os eus começam a se reconhecer como partes de um mesmo organismo, algo muda. O eu que se defende não precisa destruir o eu que cria. O eu que sente medo não precisa silenciar o eu que confia. O eu que trabalha não precisa esmagar o eu que contempla. Os eus deixam de disputar o comando e passam a compor um campo maior de consciência.

Esse campo maior é o que estamos chamando de dEUS: a composição viva dos eus em relação com o DNA, com o corpo, com o território, com o Jiwasa e com todos os seres vivos.

A grafia é importante: dEUS.
O “EUS” aparece dentro da palavra.
Não como vaidade individual, mas como integração.

dEUS é quando os eus deixam de competir e passam a compor.

Essa ideia conversa com Pachamama, mas faz um caminho diferente. Pachamama parte do todo para o indivíduo: a Terra como corpo vivo, mãe, matriz, território e condição de existência. dEUS, na nossa formulação, parte do DNA e dos eus para chegar ao todo. É o caminho do um ao mundo, da célula ao corpo, do corpo ao coletivo, do coletivo à Terra.

Pachamama diz: o todo vive em nós.
dEUS diz: nossos eus podem compor com o todo.

Essa formulação também conversa com os ciclos vegetais. O ser humano pertence ao mundo vegetal muito mais do que costuma admitir. Verdejar, florescer, frutificar, recolher, atravessar inverno, retornar na primavera: esses ciclos não são apenas metáforas externas. Eles ajudam o corpo a compreender ritmos de expansão e recolhimento. Nem todo tempo é tempo de produzir. Nem todo tempo é tempo de florescer. Há tempos de raiz, de silêncio, de fruto, de queda e de renascimento.

Quando a cultura moderna exige produtividade contínua, ela violenta esses ciclos. Obriga todos os eus a performarem o tempo todo. O corpo perde estação. O DNA continua pertencendo à vida, mas a mente social tenta operar como máquina.

dEUS aparece como recuperação dessa composição viva.

Na neurociência contemporânea, pesquisas sobre interocepção e self reforçam que o senso de eu está profundamente ligado à percepção interna do corpo. Estudos recentes indicam que o self não é apenas uma narrativa cognitiva, mas depende de sinais corporais, regulação fisiológica e integração com o ambiente. (Frontiers)

Isso é decisivo para os Eus Tensionais. O eu não nasce apenas de uma ideia sobre si mesmo. Ele nasce de estados corporais. Cada eu tem uma respiração, uma postura, uma temperatura afetiva, um campo de atenção e uma relação com o território.

Quando esses eus ficam isolados, o corpo se fragmenta. Quando entram em composição, o corpo ganha unidade dinâmica. Não uma unidade rígida, mas uma unidade viva.

Essa unidade viva pode se expandir para o Jiwasa.

Jiwasa é quando o território vira “a gente”. É quando o coletivo emerge sem apagar o indivíduo. Em um Jiwasa saudável, cada pessoa mantém sua singularidade, mas participa de uma inteligência coletiva. A liderança circula. A criticidade permanece. A diferença não destrói o pertencimento.

dEUS é o passo seguinte: quando os eus individuais conseguem compor com um Jiwasa maior, que inclui não apenas humanos, mas também água, mata, montanha, animais, plantas, clima, memória e futuro.

Aqui nos aproximamos novamente dos povos originários. Muitas cosmologias indígenas não separam radicalmente humanos e não humanos. A vida é relação entre seres. A Terra não é cenário, mas participante. O rio, a montanha, a floresta e os animais não são apenas recursos; são presenças no mundo. Ailton Krenak, em Futuro Ancestral, ajuda a recolocar essa continuidade entre corpo, território e vida.

O conceito de dEUS não precisa copiar Pachamama, nem substituir tradições religiosas. Ele pode funcionar como ponte neurodecolonial: uma forma de mostrar que espiritualidade, quando não é capturada por medo ou poder, pode ser entendida como composição dos eus com a vida.

Isso também ajuda a diferenciar devoção de dívida.

Quando uma pessoa sente que recebeu uma inspiração, um dom, um encontro ou uma experiência muito boa, pode surgir o impulso de retribuir. Esse impulso pode ser bonito. Ele nasce do pertencimento. Mas, se for capturado pela ansiedade, pode virar obrigação, culpa ou medo.

A verdadeira devoção, dentro dessa leitura, não nasce da dívida.
Nasce da composição.

Quando o corpo sente que pertence, ele quer contribuir. Não porque deve pagar algo, mas porque participar do todo é uma forma de manter o fluxo da vida. Essa é uma devoção próxima de Pachamama, do APUS e do Jiwasa: cuidado como resposta ao pertencimento.

As pesquisas com hyperscanning também ajudam a sustentar essa leitura. Revisões recentes mostram que a sincronização entre cérebros aparece em contextos de cooperação, empatia, comunicação e objetivos compartilhados. Isso sugere que o “eu” humano pode se acoplar a outros corpos em processos coletivos reais. (PMC)

Mas a linguagem científica ainda é colonial quando descreve isso apenas como “inter-brain synchrony” ou “coordenação social”. Ela mede a composição, mas raramente reconhece o sentido vivido dessa composição. Mede cérebros acoplados, mas não pergunta que mundo, que território, que confiança e que espiritualidade corporal permitem esse acoplamento.

A Neurociência Decolonial precisa fazer essa pergunta.

Não basta estudar o eu isolado.
Precisamos estudar os eus em composição.

Não basta estudar o cérebro individual.
Precisamos estudar o corpo em Jiwasa.

Não basta estudar espiritualidade como crença.
Precisamos estudar devoção como corpo que retribui pertencimento.

dEUS, portanto, é um conceito transversal. Ele ajuda a ligar DNA, Eus Tensionais, APUS, Jiwasa, Pachamama e DREX Cidadão. No plano individual, ele organiza os eus. No plano coletivo, organiza o pertencimento. No plano territorial, reconhece que todos os seres participam da continuidade da vida.

Quando dEUS está ferido, os eus competem. O corpo entra em Zona 3. A pessoa se fragmenta, o coletivo vira ameaça, a terra vira recurso e a espiritualidade vira medo ou controle.

Quando dEUS compõe, os eus colaboram. O corpo entra em Zona 2. A pessoa respira melhor, percebe o outro, sente o território, respeita os ciclos e participa do mundo com mais criticidade e cuidado.

Essa visão também muda a política. Se os eus precisam compor, a sociedade também precisa. Um Estado saudável não deveria estimular competição permanente entre corpos fragmentados. Deveria criar condições para que os cidadãos possam viver com estabilidade mínima, pertencimento, educação, saúde, tempo e cuidado.

Aqui o DREX Cidadão aparece como metabolismo social: o dinheiro nascendo no cidadão para sustentar a vida, e não apenas nos bancos, na dívida ou na especulação. Se a economia organiza os corpos, ela pode ferir ou favorecer dEUS. Pode colocar os eus em competição desesperada ou permitir que eles componham com o coletivo.

No fim, dEUS não é uma fuga do mundo.
É uma maneira de pertencer melhor a ele.

É o DNA lembrando que veio da vida.
É o corpo lembrando que tem muitos eus.
É o Jiwasa lembrando que o coletivo não precisa esmagar o indivíduo.
É Pachamama lembrando que todos pertencem à Terra.
É a consciência lembrando que pensar é compor.

Talvez a pergunta não seja apenas “em que Deus eu acredito?”.
Talvez a pergunta mais profunda seja:

que eus dentro de mim ainda estão competindo, e quais já conseguem compor com a vida?

Quando essa composição acontece, dEUS deixa de ser apenas uma palavra e se torna experiência corporal, coletiva e territorial.

Porque dEUS, nesta leitura, é isso:

a vida reconhecendo a si mesma através dos eus que finalmente deixam de competir e começam a compor.


Referências

DAMASIO, Antonio. Feeling & Knowing: Making Minds Conscious. New York: Pantheon Books, 2021.
Base para compreender consciência como processo corporal, interoceptivo, proprioceptivo e situado. (PhilPapers)

MUSCULUS, Lisa et al. “An Embodied Cognition Perspective on the Role of Interoception in the Development of the Minimal Self.” Frontiers in Psychology, 2021.
Relaciona interocepção, cognição incorporada e desenvolvimento do senso mínimo de self. (Frontiers)

MONTI, Angelo et al. “The inside of me: interoceptive constraints on the concept of self.” Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 2022.
Revisa evidências de que nascimento, manutenção e perda do conceito de self estão profundamente ligados à interocepção. (PubMed)

KRENAK, Ailton. Futuro Ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
Referência latino-americana central para pensar pertencimento, território vivo, ancestralidade e continuidade da vida.

ESCOBAR, Arturo. Pluriversal Politics: The Real and the Possible. Durham: Duke University Press, 2021.
Ajuda a pensar pluriverso, território como ontologia e produção coletiva de mundos.

HAESBAERT, Rogério. “Do corpo-território ao território-corpo (da Terra): contribuições decoloniais.” GEOgraphia, 2020.
Contribui para articular corpo-território, território-corpo da Terra e pensamento decolonial latino-americano.

AZHARI, A. et al. “A Systematic Review of Inter-Brain Synchrony and Social Interaction.” 2025.
Mostra que a sincronia entre cérebros aparece em contextos de cooperação, empatia e comunicação. (PMC)

SCHILBACH, L. et al. “Synchrony Across Brains.” Annual Review of Psychology, 2025.
Revisão sobre neurociência de segunda pessoa, interação em tempo real e sincronização entre cérebros. (Annual Reviews)



 



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New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States