Jackson Cionek
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Economia da atenção - quando nossas emoções são transformadas em lucro

Economia da atenção - quando nossas emoções são transformadas em lucro

Quantas escolhas digitais nasceram do Weichö?

Vamos imaginar uma cena conhecida.
Você pega o celular para responder uma mensagem. Uma notificação conduz a um vídeo. O vídeo termina, mas o próximo começa automaticamente. Uma manchete provoca indignação. Um comentário parece absurdo demais para ser ignorado. Depois surge uma imagem de alguém aparentemente mais bonito, mais rico, mais feliz ou mais realizado.
Quando você percebe, a mensagem inicial ainda não foi respondida.
Podemos dizer que todas essas escolhas foram suas. Afinal, foi sua mão que tocou a tela. Mas talvez possamos fazer uma pergunta mais exigente:
A escolha nasceu do Weichö ou foi favorecida por uma arquitetura construída para antecipar, estimular e prolongar determinadas respostas?
Este blog não é apenas sobre “vício em celular”. Também não pretende afirmar que toda tecnologia digital faz mal. O relatório Childhood in a Digital World, publicado pelo UNICEF em 2025, não encontrou evidência clara de que o tempo de tela, isoladamente, prejudique diretamente a saúde mental das crianças. Os efeitos dependem do conteúdo, das experiências vividas, das vulnerabilidades individuais e do que o uso digital substitui ou acrescenta à vida. (UNICEF)
O problema que investigaremos juntos é outro:
O que acontece quando a permanência, a repetição, o medo, o desejo e a indignação se tornam recursos econômicos?

A plataforma não precisa conhecer você por inteiro

Talvez uma plataforma não saiba quem você é.
Ela não conhece completamente suas memórias, sua história familiar, seu território, suas contradições ou aquilo que você deseja construir para o futuro. Mas pode conhecer padrões suficientes para prever qual conteúdo provavelmente interromperá seu movimento.
Ela observa, por exemplo:
  • em qual imagem você parou;
  • qual vídeo assistiu até o final;
  • o que compartilhou;
  • quanto tempo permaneceu;
  • qual anúncio abriu;
  • qual pessoa visitou;
  • em que horário costuma retornar;
  • diante de qual emoção reage mais rapidamente.
A economia da atenção transforma essas regularidades em dados. Os dados alimentam sistemas de previsão e classificação. As previsões, por sua vez, orientam anúncios, recomendações e novas tentativas de capturar seu próximo movimento.
O sociólogo brasileiro Sérgio Amadeu da Silveira descreve esse processo como parte do colonialismo de dados: informações produzidas por populações e instituições tornam-se matéria-prima concentrada em grandes infraestruturas corporativas, geralmente controladas pelo Norte Global. Em sua análise de 2025, ele chama atenção para a entrega de dados educacionais, jurídicos e sociais brasileiros a empresas estrangeiras, frequentemente apresentada como simples eficiência tecnológica. (Conexões)
Podemos, então, reformular a pergunta:
A plataforma precisa conhecer nosso Weichö ou apenas descobrir quais estímulos conseguem fazê-lo repetir um comportamento?

Quando clicar não significa desejar

Talvez este seja um dos pontos mais importantes para pensarmos juntos.
As plataformas frequentemente interpretam cliques, curtidas, compartilhamentos e tempo de permanência como sinais daquilo que desejamos. São as chamadas preferências reveladas: aquilo que o comportamento parece demonstrar.
Mas nosso comportamento imediato nem sempre corresponde ao que valorizamos quando conseguimos parar e refletir.
Em uma auditoria algorítmica publicada em 2025, Smitha Milli e sua equipe compararam conteúdos selecionados por um sistema baseado em engajamento com aquilo que as próprias pessoas declaravam querer ver. O algoritmo amplificou conteúdos mais partidários, hostis e emocionalmente carregados, embora os participantes não dissessem preferi-los quando eram consultados diretamente. (PubMed)
Talvez você já tenha vivido algo semelhante.
Você não gosta da discussão, mas continua lendo.
Não deseja sentir medo, mas abre a notícia.
Não aprova a humilhação, mas assiste ao vídeo até o final.
Não queria comprar, mas retorna ao produto.
Não se sente bem com a comparação, mas procura outra imagem.
O clique aconteceu. Porém, será que ele expressou um desejo ou apenas revelou que determinado estímulo conseguiu capturar sua atenção?
Uma resposta pode ser subjetivamente vivida como “minha” e, ao mesmo tempo, ter sido favorecida por condições que não escolhi conscientemente.
Reconhecer essa influência não elimina nossa responsabilidade. Amplia nossa capacidade de compreender onde a escolha começou a ser organizada.

A emoção é conteúdo e também combustível

Indignação, medo e desejo não são invenções das plataformas. Essas emoções participam da vida humana muito antes das redes digitais.
A novidade está na capacidade de observar, testar e selecionar continuamente quais estímulos geram mais resposta em cada pessoa.
Um estudo publicado em 2023 por William Brady e colaboradores mostrou que usuários de redes sociais tendem a perceber mais indignação moral nas mensagens do que as próprias pessoas que as escreveram relatavam sentir. Essa superestimação aumentou a percepção de hostilidade entre grupos, de polarização e de extremismo. (Nature)
Não estamos apenas reagindo ao que outras pessoas sentem. Podemos estar reagindo a uma versão amplificada daquilo que imaginamos que elas sentem.
Outro estudo, publicado em 2022, investigou notificações de smartphones por meio de medidas comportamentais e eletrofisiológicas. Os resultados indicaram interferência no controle cognitivo e na atenção durante uma tarefa exigente. Isso não significa que cada notificação provoque um dano permanente. Mostra que uma pequena interrupção pode disputar recursos com aquilo que estávamos tentando realizar. (PubMed)
Podemos observar o ciclo:
A notificação interrompe.
O conteúdo provoca.
A emoção orienta o próximo clique.
O clique produz dados.
Os dados refinam a próxima provocação.
A emoção não é somente sentida.
Ela também pode ser medida, prevista e economicamente utilizada.

Não é falta de autocontrole da criança

O UNICEF descreve recursos como rolagem infinita, reprodução automática, notificações, sequências de uso, contadores de visualizações e curtidas como elementos capazes de prolongar a permanência e incentivar o retorno às plataformas. Crianças e adolescentes podem ser especialmente sensíveis porque suas capacidades de autorregulação ainda estão em desenvolvimento e porque recompensas sociais, como aprovação de colegas, possuem grande importância nesse período da vida. (UNICEF)
Isso nos impede de reduzir o problema à frase:
“A criança precisa aprender a largar o celular.”
Quem deve demonstrar mais autocontrole: uma criança ou uma corporação com equipes de engenharia, psicologia, design, ciência de dados e inteligência artificial?
A educação pode fortalecer a percepção crítica, mas não deve transferir toda a responsabilidade para o indivíduo. São igualmente necessários design responsável, transparência, proteção de dados, regulação e limites para práticas comerciais persuasivas.
Em 2026, o UNICEF publicou um relatório construído a partir de consultas com mais de duzentas crianças de sete países, incluindo o Brasil. As crianças relataram oportunidades de aprendizagem e expressão, mas também falta de controle, exploração de dados e ambientes que não são consistentemente seguros ou justos. O relatório conclui que políticas e plataformas precisam ser desenvolvidas com as crianças, e não apenas para elas. (UNICEF)
Aqui encontramos novamente a agência compartilhada.
A criança não é apenas alguém a ser protegida. Também é participante da investigação sobre o mundo digital que habita.

Podemos construir nossas próprias interrupções

As plataformas procuram retirar atritos: o vídeo começa sozinho, a tela não termina e a próxima recomendação já está disponível.
Mas jovens não permanecem necessariamente passivos.
Em entrevistas com adolescentes de 13 a 16 anos, Nikhila Natarajan encontrou estratégias criadas pelos próprios participantes para interromper a rolagem infinita. Alguns introduziam limites de tempo, bloqueios, lembretes e outras fricções capazes de devolver pontos de parada a uma experiência desenhada para não terminar. (ijoc.org)
Talvez possamos realizar agora um pequeno exercício.
Pense na última vez em que permaneceu mais tempo do que pretendia em uma plataforma.
O que você havia entrado para fazer?
Qual foi a primeira interrupção?
Que emoção manteve sua permanência?
Havia algum ponto natural para parar?
O que a plataforma ganhou com sua continuidade?
O que você deixou de perceber no Corpo-Território?
Essas perguntas não procuram culpados. Elas devolvem visibilidade ao encontro entre intenção, emoção, corpo e arquitetura digital.

Papel, Pedra e Tesoura diante da tela

Na interpretação BrainLatam, Papel, Pedra e Tesoura não são três conectomas anatômicos reconhecidos pela neurociência. São mapas metacognitivos provisórios para observar configurações funcionais.
Em Pedra, uma mensagem pode solicitar defesa imediata: atacar, fugir, bloquear, responder, compartilhar antes que seja tarde.
Em Tesoura, podemos recortar rapidamente o mundo: amigo ou inimigo, verdadeiro ou falso, vencedor ou fracassado, bonito ou feio, pertencente ou excluído.
Em Papel, ampliamos temporariamente a superfície de contato. Percebemos a respiração, a postura, o território, a origem da informação e aquilo que ainda não compreendemos.
Nenhum desses modos é sempre bom ou ruim. Pedra protege. Tesoura analisa. Papel permite escutar.
A pergunta metacognitiva passa a ser:
Qual modo esta interface está tentando solicitar de mim agora? E tenho condições de escolher outro movimento?
Uma plataforma pode descobrir que nosso medo mantém a permanência em Pedra. Pode aprender que nossa comparação social mantém Tesoura recortando pessoas e classificando vidas. Recuperar Papel talvez signifique inserir uma pausa entre estímulo e resposta.
Não para permanecer eternamente contemplando, mas para recuperar a possibilidade de escolher.

A atenção já era organizada antes das plataformas

Seria um erro imaginar que somente as tecnologias digitais aprenderam a organizar emoções, percepções e comportamentos.
As sociedades humanas sempre construíram espaços, rituais, narrativas, músicas e imagens capazes de orientar a atenção coletiva.
A arqueologia de Chavín de Huántar, no Peru, oferece uma janela importante. Uma pesquisa de 2025 encontrou evidências químicas e microbotânicas do uso ritual institucionalizado de plantas psicoativas, como vilca e espécies relacionadas ao tabaco, em uma galeria subterrânea. O estudo sugere que experiências sensoriais e estados alterados participavam de rituais ligados à integração social e à formação de hierarquias. (PMC)
Essa evidência não autoriza chamar Chavín de “plataforma ancestral”, nem reduzir suas práticas a técnicas de manipulação. Também não permite romantizar o mundo pré-colombiano. Ela abre uma pergunta histórica:
Quem organiza a atenção coletiva, por quais meios e para produzir que tipo de relação?
Em Caral, pesquisas arqueoastronômicas conduzidas com participação da arqueóloga peruana Ruth Shady Solís identificaram relações entre construções, rio, paisagem e eventos celestes. A arquitetura podia orientar a atenção para ciclos sazonais, agrícolas e rituais, integrando espaço social, terra e céu. (Cambridge University Press & Assessment)
A diferença não é que as sociedades pré-colombianas possuíam uma atenção “pura” e nós possuímos uma atenção “artificial”.
A diferença contemporânea está na combinação de personalização contínua, coleta massiva de dados, testes permanentes, alcance global e remuneração baseada em previsão comportamental.
A praça antiga podia organizar o olhar coletivo.
A plataforma digital pode reorganizar uma tela diferente para cada pessoa, observar sua resposta e modificar o próximo estímulo quase imediatamente.

Quando a atenção latino-americana vira matéria-prima

Na América Latina, a economia da atenção também encontra desigualdades históricas de trabalho, infraestrutura e soberania.
Uma etnografia publicada em 2022 por Rafael Grohmann e colaboradores investigou plataformas de “fazendas de cliques” no Brasil e na Colômbia. Pessoas realizavam tarefas de curtir, seguir, comentar e movimentar contas, atualizando formas históricas de informalidade e trabalho precário. (DOI)
Isso nos mostra que até aquilo que parece ser atenção espontânea pode ter sido fabricado.
Uma publicação parece popular.
A popularidade atrai atenção verdadeira.
A atenção aumenta o valor comercial.
Mas parte dos sinais iniciais pode ter sido produzida por trabalho mal remunerado, contas comercializadas ou interações automatizadas.
A economia da atenção não captura apenas quem observa. Ela também organiza o trabalho de quem precisa fabricar visibilidade para sobreviver.
Na leitura de Sérgio Amadeu, isso participa de uma relação colonial porque os territórios produzem dados, cultura e comportamento, enquanto o controle das infraestruturas e da capacidade de processá-los permanece concentrado em poucas corporações. (Google Books)

Uma ecologia da atenção

Em Futuro ancestral, publicado em 2022, Ailton Krenak desloca o pensamento da ideia de um futuro fabricado apenas pelo mercado e nos aproxima de rios, territórios e relações que já sustentavam mundos antes da expansão colonial. Sua reflexão não trata diretamente de algoritmos, mas permite uma inferência importante: atenção também pode ser vínculo, cuidado e participação no mundo, e não somente recurso disponível para extração. (Companhia das Letras)
Talvez a educação precise ir além de ensinar a usar ferramentas digitais.
Podemos aprender juntos a perguntar:
  • Quem desenhou este ambiente?
  • Qual comportamento ele recompensa?
  • Que emoção está sendo selecionada?
  • Quais dados são produzidos?
  • Quem recebe valor econômico?
  • O que desaparece quando minha atenção permanece aqui?
  • Esta escolha corresponde ao mundo que desejo construir?
Não buscamos retornar a uma vida sem tecnologia.
Buscamos uma tecnologia na qual permanência não seja confundida com bem-estar, clique não seja confundido com desejo e previsibilidade não seja confundida com liberdade.
A NeuroEducação do Weichö pode ajudar cada pessoa a perceber que a captura não acontece apenas “dentro da mente”. Ela acontece no encontro entre Corpo-Território, interface, modelo econômico, linguagem, relações sociais e condições materiais de vida.
Chegamos, então, à pergunta que não pode ser respondida apenas pela neurociência, pela escola ou pela própria pessoa usuária:
Quantas de nossas escolhas digitais nasceram do Weichö e quantas foram induzidas por estruturas que lucram com a captura de nossa atenção?
Talvez não exista uma fronteira simples entre as duas.
Mas perceber a disputa já pode ser o primeiro movimento para que a atenção volte a participar da vida que desejamos viver.

Referências comentadas

UNICEF Innocenti (2025). Childhood in a Digital World: Screen Time, Digital Skills and Mental Health.
O relatório rejeita explicações baseadas apenas no tempo de tela e mostra que conteúdo, experiências prejudiciais, desigualdade de acesso e segurança das plataformas são dimensões decisivas para compreender a vida digital das crianças. (UNICEF)
Baghdasaryan, B.; Vosloo, S. — UNICEF Innocenti (2026). Children’s Best Interests in Digital Policy and Practice.
Construído com participação de crianças de sete países, incluindo o Brasil, o relatório defende plataformas desenvolvidas com crianças, maior responsabilidade corporativa e ambientes digitais seguros, justos e inclusivos. (UNICEF)
Milli, S. et al. (2025). Engagement, User Satisfaction, and the Amplification of Divisive Content on Social Media.
A auditoria algorítmica distingue comportamento observado de preferência refletida e mostra que conteúdos que geram engajamento não são necessariamente aqueles que as pessoas afirmam desejar. (PubMed)
Brady, W. J. et al. (2023). Overperception of Moral Outrage in Online Social Networks Inflates Beliefs About Intergroup Hostility.
O estudo demonstra que usuários podem perceber mais indignação nas mensagens do que seus autores realmente relatam sentir, ampliando expectativas de hostilidade e polarização. (Nature)
Upshaw, J. D. et al. (2022). The Hidden Cost of a Smartphone: The Effects of Smartphone Notifications on Cognitive Control from a Behavioral and Electrophysiological Perspective.
A pesquisa combina medidas comportamentais e eletrofisiológicas para investigar como notificações disputam atenção e controle cognitivo durante tarefas exigentes. (PubMed)
Natarajan, N. (2024). Do They Stop? How Do They Stop? Why Do They Stop? Whether, How, and Why Teens Insert “Frictions” Into Social Media’s Infinite Scroll.
As entrevistas mostram que adolescentes não são apenas vítimas passivas do design e podem criar bloqueios, pausas e outras fricções para recuperar pontos de saída. (ijoc.org)
Silveira, S. A. da (2025). A hipótese do colonialismo de dados e o neoliberalismo.
O sociólogo brasileiro analisa como a transferência de dados públicos e sociais para infraestruturas corporativas estrangeiras aprofunda subordinações tecnológicas e desigualdades geopolíticas. (Conexões)
Grohmann, R. et al. (2022). Click Farm Platforms: An Updating of Informal Work in Brazil and Colombia.
A etnografia revela o trabalho precário envolvido na fabricação de cliques, seguidores e visibilidade, conectando a economia das plataformas às formas históricas de informalidade latino-americana. (DOI)
Rick, J. W. et al. (2025). Pre-Hispanic Ritual Use of Psychoactive Plants at Chavín de Huántar, Peru.
Análises químicas e microbotânicas oferecem evidência direta do uso institucionalizado de plantas psicoativas em rituais andinos, abrindo perguntas sobre atenção, experiência sensorial, integração social e poder. (PMC)
González-García, A. C. et al. (2021). The River and the Sky: Astronomy and Topography in Caral Society, America’s First Urban Centers.
A referência arqueológica demonstra relações entre arquitetura, rio, paisagem e eventos celestes em Caral; embora anterior ao recorte pós-2021, permanece importante como base para pensar como espaços sociais orientavam atenção e temporalidade coletiva. (Cambridge University Press & Assessment)
Krenak, A. (2022). Futuro ancestral.
O intelectual indígena brasileiro desloca a imaginação do futuro exclusivamente mercadológico e recoloca rios, territórios e outros seres como participantes das possibilidades de continuidade da vida. (Companhia das Letras)




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Jackson Cionek

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