Antes de aprender o valor do dinheiro, quem ensinou seu cérebro a confiar nele?
Antes de aprender o valor do dinheiro, quem ensinou seu cérebro a confiar nele?
Neurociência Decolonial, pré-linguagem, dívida, juros, Drex Cidadão e outras possibilidades de bem-estar.
1. O dinheiro ainda não existe para essa criança
Imagine uma criança de dois anos esperando o alimento.
Ela não conhece juros, bancos, inflação ou dívida pública.
Mas reconhece aproximações. Percebe quem costuma cuidar dela. Aprende relações entre espera, necessidade e satisfação.
Seu organismo constrói expectativas antes de conseguir explicá-las verbalmente.
Agora imagine essa criança aos quatro anos, acompanhando um adulto ao supermercado.
O adulto aproxima um cartão de uma máquina.
Aparecem números.
Os alimentos são levados para casa.
A criança talvez comece a compreender que aquele gesto participa da obtenção de coisas importantes.
Mas de onde vieram os números?
Por que algumas famílias conseguem comprar alimentos enquanto outras precisam escolher o que deixar na prateleira?
Antes de compreender o dinheiro, já estamos aprendendo como o mundo distribui possibilidades.
2. O que aprendemos antes das palavras?
A Neurociência do desenvolvimento investiga como experiências de cuidado, aprendizagem e interação participam da formação de expectativas e da regulação emocional.
Nos primeiros anos, crianças começam a reconhecer trocas, propriedades, compartilhamento e diferenças entre necessidades e desejos.
Isso não significa que já compreendam os mecanismos monetários.
Também não autoriza afirmar que pobreza produza um destino cerebral inevitável.
Na BrainLatam, propomos investigar a pré-linguagem como terreno de experiências a partir do qual serão construídas classificações posteriores.
Ciência, Política, Religião e Economia não nascem como instituições prontas no cérebro.
Mas aprender regularidades, negociar relações, atribuir significados e utilizar recursos envolve capacidades que precedem esses nomes.
O organismo já precisava viver antes de aprender a explicar como a sociedade organizava sua vida.
3. Quando a confiança se transforma em valor monetário
Imagine entregar uma nota de cem reais para comprar alimentos.
O papel não contém cem reais em comida.
Seu poder de compra depende de uma organização social, econômica e institucional que sustenta sua aceitação.
Essa confiança monetária não é idêntica à confiança infantil nos cuidadores.
Mas ambas permitem investigar como expectativas são construídas e atualizadas pela experiência.
Chamamos de fé no dinheiro, metaforicamente, a convicção cotidiana de que determinada moeda continuará sendo aceita.
Uma criança aprende a usar dinheiro muito antes de compreender sua criação.
E talvez muitos adultos continuem sem saber de onde surgem os depósitos bancários.
Será que aprendemos a confiar no dinheiro antes de aprender a questionar quem pode criá-lo?
4. A maior parte do dinheiro bancário nasce da dívida
Imagine solicitar um empréstimo de cem mil reais.
O banco aprova a operação.
Registra um crédito contra você e cria um depósito em sua conta.
Esse depósito constitui dinheiro bancário novo.
Você poderá utilizá-lo para pagar máquinas, trabalhadores ou fornecedores.
Mas também assumiu uma dívida que deverá devolver conforme o contrato.
O Banco da Inglaterra descreve explicitamente esse mecanismo: empréstimos bancários criam depósitos.
O sistema não depende apenas de repassar poupanças previamente depositadas.
Entretanto, existem outras formas de moeda e criação monetária.
A maior parte do dinheiro utilizado em contas bancárias nasce associada a obrigações financeiras. Isso não significa que toda moeda precise nascer de um empréstimo privado.
5. E se o dinheiro chegasse sem criar uma dívida pessoal?
Agora imagine outra arquitetura.
Uma autoridade pública emite moeda digital e realiza uma transferência definitiva ao cidadão.
A pessoa recebe recursos sem contratar empréstimo.
Não há prestação individual a pagar nem juros decorrentes daquela transferência.
Na BrainLatam, chamamos essa hipótese de Drex Cidadão: crédito monetário sem débito do beneficiário.
Isso não significa ausência de contabilidade, custos ou limites econômicos.
A emissão precisaria de regras legais, governança, proteção monetária e avaliação inflacionária.
O Drex oficial do Banco Central não corresponde a esse programa.
Propomos investigar uma CBDC pública de varejo com finalidade distributiva.
Por que não estudar formas de ampliar a circulação monetária sem exigir que cada novo beneficiário comece sua participação como devedor?
6. O Estado não é uma economia familiar
Imagine uma família diante das contas do mês.
Ela precisa receber renda, utilizar reservas ou contratar crédito.
Não possui autoridade para emitir a moeda nacional.
O Estado brasileiro opera em condições diferentes.
Participa da organização monetária por meio de instituições públicas, tributação, despesas, dívida soberana e Banco Central.
Isso não significa que possa gastar sem limites.
Existem normas fiscais, riscos de inflação, restrições cambiais e capacidades produtivas concretas.
Mas comparar suas operações diretamente ao orçamento doméstico produz uma analogia incompleta.
Uma família não administra o sistema monetário.
O Estado precisa avaliar não apenas de onde vêm os recursos financeiros, mas quais capacidades reais sua política monetária consegue mobilizar e sustentar.
7. Quem ganha quando o dinheiro rende juros elevados?
O Brasil mantém meta de inflação de 3%.
Em setembro de 2026, a Selic foi reduzida para 13,75% ao ano.
A estabilidade dos preços protege o poder de compra, especialmente de quem possui pouca capacidade de proteção financeira.
Mas juros elevados também encarecem financiamentos e afetam rendimentos de ativos financeiros.
Os efeitos são distribuídos de maneira desigual.
Na BrainLatam, discutimos essa assimetria em O Brasil como Coisa de Ricos.
A meta não prova que exista uma decisão secreta para enriquecer investidores.
Mas seus custos e benefícios distributivos merecem investigação pública.
Por que avaliamos tão cuidadosamente a inflação e nem sempre com a mesma atenção as possibilidades de vida restringidas pelo custo do crédito?
8. O ótimo local que aprendemos a defender
Imagine crescer ouvindo que toda dívida pública funciona como dívida familiar.
Mais tarde, você encontra especialistas que repetem a mesma comparação.
Ela parece evidente.
Oferece segurança intelectual.
Em Ótimos locais - quando uma crença funciona bem demais, propomos uma metáfora: ideias podem funcionar tão bem em determinado contexto que deixam de permitir outras perguntas.
Isso também acontece quando valores religiosos, políticos ou econômicos são confundidos com premissas científicas indiscutíveis.
A fé pessoal não impede pesquisa rigorosa.
O problema surge quando qualquer convicção fecha antecipadamente o campo das hipóteses.
Um modelo pode funcionar sem representar todas as possibilidades existentes.
9. O valor do dinheiro medido pelo bem-estar
Imagine acompanhar aquela criança até a adolescência.
Sua família conseguiu alimentação, moradia e condições para estudar?
Precisou enfrentar insegurança constante?
Que oportunidades chegaram até ela?
Uma meta-análise publicada em 2024 encontrou associação entre escassez financeira e pior desempenho em tarefas cognitivas, embora a relação variasse segundo fatores educacionais e metodológicos.
Não significa que a pobreza determine a inteligência.
Mostra a importância de investigar condições materiais conjuntamente com processos cognitivos.
Na BrainLatam, propomos avaliar a economia também pelo bem-estar: saúde, autonomia, descanso, aprendizagem e participação.
O valor social do dinheiro não pode ser compreendido apenas pelos juros que remunera, mas também pelas condições de vida que permite sustentar.
10. Rendimento Bioma: a riqueza que não aparece na conta
Imagine uma floresta conservando água, biodiversidade e fertilidade dos solos.
Essas condições sustentam produção e existência humana.
Mas quanto de seu valor aparece nas transações comerciais?
O Rendimento Bioma propõe investigar mecanismos de reconhecimento econômico da sustentação ecológica.
Isso poderia envolver financiamento territorial, conservação verificada e distribuição transparente.
O Rendimento-Estado, em nossa formulação, possui finalidade distinta: reconhecer a participação econômica individual no Estado independentemente do emprego.
Uma arquitetura de moeda pública poderia ser estudada como instrumento distributivo.
Nenhum desses mecanismos dispensa financiamento, avaliação ou governança.
O pertencimento e a conservação podem tornar-se perguntas econômicas sem precisarmos reduzir toda riqueza à venda de mercadorias.
11. Produção de Excessos: consumir menos e viver melhor
Imagine duas indústrias.
Uma amplia continuamente a extração de recursos para vender produtos descartáveis.
Outra investe em tecnologia, durabilidade, reparação e serviços especializados.
A segunda poderia gerar mais valor agregado com menor utilização de matéria-prima.
Na BrainLatam, a Produção de Excessos propõe investigar sobretaxas sobre atividades que ultrapassem limites ecológicos ou ampliem desperdícios.
Essas medidas exigiriam critérios públicos e avaliação de impactos sobre empregos, preços e competitividade.
Uma economia de maior valor agregado poderia fortalecer industrialização, conhecimento e serviços.
Mas reduzir a intensidade material não garante, automaticamente, menor impacto total.
Precisamos medir os resultados.
A pergunta não é como produzir menos possibilidades. É como produzir mais riqueza social consumindo menos recursos desnecessários.
12. Pernambuco pode fazer perguntas que ainda não existem
Pedro Carelli, Mauro Copelli e Nivaldo Vasconcelos participam do diálogo Neurobucano entre Física, Computação e Neurociência.
Essas áreas possuem instrumentos sofisticados para estudar sistemas complexos.
Mas quais perguntas sobre bem-estar poderiam surgir dos territórios latino-americanos?
Na BrainLatam, propomos investigar Tekoha/APUS e Consciência 5D como formulações conceituais abertas à avaliação científica.
Não são mecanismos cerebrais já demonstrados.
A ciência colaborativa poderia reunir pesquisadores, comunidades e instituições para investigar experiências econômicas e condições de vida com métodos adequados.
Não queremos que a Neurociência decida qual economia devemos adotar. Queremos que contribua para compreender como diferentes economias afetam o bem-estar das pessoas.
13. O Despertar de Tudo começa com outra pergunta
David Graeber e David Wengrow questionam, em O Despertar de Tudo, a ideia de que nossas instituições atuais resultaram de uma trajetória histórica inevitável.
Ailton Krenak e Antônio Bispo dos Santos também nos convidam a reconsiderar riqueza, reciprocidade e território.
Outras formas de organização existiram.
Outras ainda podem ser investigadas.
Volte à criança que observava o cartão no supermercado.
Ela aprenderá o que é dinheiro.
Mas precisará acreditar que a arquitetura monetária que encontrou é a única possível?
Que educação econômica permitiria a essa criança compreender dívida, crédito, juros e distribuição antes de aceitar como inevitável o mundo que recebeu?
Recortamos para saber, não para Ser.
FAZER É CIÊNCIA. JULGAR É POLÍTICA.
Deixa vir. Deixa ficar. Deixa Ser. Pode desobedecer. Deixa ir.
Jiwasa: que o dinheiro possa servir à vida, e que cada Corpo-Território conserve a possibilidade de imaginar outros futuros.
Referências científicas e intelectuais
As referências acompanham a trajetória da narrativa: o desenvolvimento da confiança na infância, a criação monetária por crédito, os limites dos modelos econômicos e a investigação latino-americana de outras condições de bem-estar.
1. KIMZAN, Ilayda; YÜKSEK USTA, Semiha (2024). Children understand economics too: knowledge and experience of basic financial concepts. Early Child Development and Care.
A pesquisa com crianças pré-escolares identifica conhecimentos iniciais sobre dinheiro, compras, poupança e empréstimos. Evidencia que conceitos econômicos começam a ser aprendidos na infância, embora mecanismos monetários abstratos ainda não sejam plenamente compreendidos.
Get Access
2. DE ALMEIDA, Filipa et al. (2024). Financial scarcity and cognitive performance: A meta-analysis. Journal of Economic Psychology, 101, 102702.
A meta-análise reuniu 29 conjuntos de dados e 111.852 participantes, encontrando uma associação negativa entre escassez financeira e desempenho cognitivo, com heterogeneidade e fatores moderadores importantes. Não demonstra que a pobreza determine a capacidade intelectual individual.
ScienceDirect
3. McLEAY, Michael; RADIA, Amar; THOMAS, Ryland (2014). Money Creation in the Modern Economy. Bank of England Quarterly Bulletin.
Embora anterior a 2021, esta referência institucional é fundamental: demonstra que bancos comerciais criam depósitos ao conceder empréstimos. Permite distinguir criação de moeda bancária, endividamento e operações de moeda pública.
the UK's central bank
4. BANCO CENTRAL DO BRASIL (2024). Resolução CMN nº 5.141 - Meta de inflação.
Estabelece a meta contínua de inflação de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual. É a referência para analisar o regime monetário brasileiro sem atribuir sua criação a intenções não demonstradas.
Banco Central do Brasil
5. BANCO CENTRAL DO BRASIL (2026). Ata do Copom - Setembro de 2026.
Registra a redução da Selic para 13,75% ao ano e apresenta a justificativa monetária da decisão. Seus efeitos distributivos precisam ser examinados separadamente, considerando devedores, poupadores, atividade econômica e preços.
Copom
6. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Piloto Drex.
Documenta a experimentação oficial de transações e liquidação de ativos digitais. As operações dos usuários finais são simuladas, e o projeto não constitui o programa de emissão distributiva direta proposto como Drex Cidadão.
Banco Central do Brasil
7. BRAINLATAM — CIONEK, Jackson (2026). Drex Cidadão: dinheiro como metabolismo do território.
Propõe inverter a lógica de acesso inicial à circulação monetária, investigando crédito público diretamente ao cidadão sem obrigação individual de reembolso. É uma hipótese de arquitetura monetária, não uma política já validada.
brainlatam
8. BRAINLATAM — CIONEK, Jackson (2026). O Brasil como Coisa de Ricos.
Questiona a distribuição desigual de condições para interpretar e influenciar decisões públicas, oferecendo fundamentos para examinar os efeitos sociais das regras econômicas.
brainlatam
9. BRAINLATAM — CIONEK, Jackson (2026). Ótimos locais - quando uma crença funciona bem demais.
Desenvolve a metáfora do ótimo local semântico-afetivo para investigar como uma crença funcional pode restringir a exploração de alternativas, inclusive na compreensão da economia.
quando uma crença funciona bem demais
10. BRAINLATAM — CIONEK, Jackson (2026). Quando o Bioma também entra na decisão.
Relaciona produção, necessidades sociais, capacidade ecológica e restituição territorial, aprofundando o Rendimento Bioma e a discussão da Produção de Excessos.
brainlatam
11. BRAINLATAM — CIONEK, Jackson (2026). Produzir mais até quando? Quando o excesso começa a produzir menos futuro.
Propõe avaliar a produção excedente segundo recursos finitos, suficiência, agregação de valor e regeneração, incluindo possíveis instrumentos de remuneração ecológica.
Eleições 2026 Presidente
12. KRENAK, Ailton (2022). Futuro ancestral. Companhia das Letras.
O pensamento indígena brasileiro propõe outras relações entre humanidade, território e continuidade da vida, convidando a investigar o que nossos indicadores econômicos deixam de reconhecer.
13. BISPO DOS SANTOS, Antônio (2023). A terra dá, a terra quer. Ubu Editora/Piseagrama.
Nêgo Bispo desenvolve perspectivas quilombolas de confluência, reciprocidade e contracolonização, ampliando o repertório de perguntas sobre produção, valor e pertencimento.
14. SERAFIM, Felipe; CARVALHO, Tawan; COPELLI, Mauro; CARELLI, Pedro (2024). Maximum-entropy-based metrics for quantifying critical dynamics in spiking neuron data. Physical Review E.
A investigação realizada na UFPE demonstra a capacidade de pesquisadores pernambucanos de desenvolver métodos quantitativos para compreender dinâmicas neurais, oferecendo uma base de colaboração interdisciplinar para novas perguntas científicas.
BRAINLATAM | NEUROBUCANO | W46/2026 | BLOG 08/08