Jackson Cionek
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O espaço também participa do Nós - quando a arquitetura permite Ser

O espaço também participa do Nós - quando a arquitetura permite Ser

Do ótimo local ao Homem de Milho: percepção, metabolismo e possibilidades de transcender-se Ser

O mundo que não percebemos

Imagine que você caminhe por uma floresta.

Reconhece a trilha, escuta pássaros e percebe a luz atravessando as árvores.

Mas, enquanto caminha, raízes continuam crescendo, insetos modificam trajetórias e o vento movimenta folhas que você não observa.

Seu corpo ajusta o equilíbrio, a respiração e a preparação dos próximos passos.

Quanto desses acontecimentos você percebe conscientemente?

Toda percepção é uma construção, mas muitos processos que a tornam possível não aparecem na própria percepção.

Nossos sistemas sensoriais encontram apenas parte das condições ambientais. Memórias, expectativas e estados metabólicos participam da experiência.

O mundo que percebemos não esgota o mundo em que existimos.

E talvez o espaço ofereça possibilidades que ainda não conseguimos reconhecer.

Quando o caminho conhecido se torna limite

Imagine que você percorra diariamente a mesma trilha.

Conhece suas curvas e obstáculos.

Seus movimentos tornaram-se eficientes.

Na BrainLatam, investigamos essa permanência como uma possível expressão do ótimo local.

Uma organização conhecida permite agir com menor necessidade de reconsiderar cada gesto.

Isso é importante para aprender.

Mas existe uma dificuldade.

Quando o caminho que funciona se transforma na única possibilidade que reconhecemos, aquilo que ainda poderíamos perceber pode permanecer inacessível.

Agora imagine que uma criança caminhe ao seu lado.

Ela para diante de uma árvore.

Aponta algo que você nunca havia observado.

Seu movimento também precisa parar.

O mesmo território começa a oferecer outra experiência.

A arquitetura participa da atenção

Imagine entrar em um edifício desconhecido.

Você procura uma sala.

Caminha por um corredor.

Ao aproximar-se de uma esquina, prepara-se para encontrar aquilo que ainda não consegue ver.

Djebbara e colaboradores investigaram como curvas arquitetônicas modificam demandas de atenção espacial durante a navegação.

Utilizando EEG móvel e realidade virtual, encontraram diferenças comportamentais e eletrofisiológicas relacionadas às configurações do ambiente.

A parede não precisa mover-se para transformar os movimentos que nosso Corpo-Território prepara.

Mas o estudo não demonstra que determinada arquitetura produza universalmente medo, segurança ou liberdade.

A questão é compreender como o ambiente participa das possibilidades perceptivas e motoras.

APUS: aquilo que podemos alcançar

James Gibson desenvolveu o conceito de affordances: possibilidades de ação oferecidas pelo ambiente em relação às capacidades de quem o encontra.

Imagine uma escada.

Para uma pessoa, representa acesso.

Para outra, uma barreira.

Uma rampa pode transformar essas possibilidades.

Na extensão conceitual da BrainLatam, APUS permite investigar posição, orientação, alcance e movimento como propriocepção estendida.

Mas uma possibilidade não depende somente do desenho arquitetônico.

Depende também das condições daquele Corpo-Território.

O espaço não oferece o mesmo Fazer para todos.

Uma arquitetura que permite Ser precisa reconhecer diferenças sem transformar algumas delas em impedimentos permanentes de participação.

Tekoha: o mundo que encontramos dentro

Agora imagine entrar em uma cozinha.

Você sente fome.

O cheiro do alimento desperta lembranças.

Talvez reconheça uma receita de seus antepassados.

Na BrainLatam, utilizamos Tekoha como janela autoral para investigar a interocepção estendida e o território corporalmente vivido.

Essa interpretação não substitui o significado guarani originário de Tekoha, profundamente relacionado aos modos de existência e ao território.

A fome modifica nossa experiência da cozinha.

O alimento transforma processos metabólicos.

A memória participa do significado do encontro.

O que acontece fora participa do que experimentamos dentro, e nossas condições internas transformam aquilo que encontramos fora.

APUS e Tekoha não representam dois mundos separados.

O Homem de Milho

Imagine uma criança diante de uma espiga de milho.

Ela observa, sente o cheiro e começa a comer.

Mas de onde veio aquele alimento?

Da semente, do solo, da água, da luz e do trabalho de quem cultivou.

Agora sua matéria participa da digestão e do metabolismo celular.

Aquilo que estava fora passa a constituir processos internos.

A criança também aprende uma receita, escuta histórias e reconhece práticas culturais.

A alimentação não produz apenas energia. Também participa de conhecimentos, sentimentos e pertencimento.

Na interpretação metafórica da BrainLatam inspirada no Popol Wuj, o Homem de Milho reconhece sua continuidade nas relações que sustentam a vida.

Não substituímos os significados próprios da tradição maia K'iche'.

A escola também participa do metabolismo

Agora imagine essa criança entrando na escola.

Encontra paredes, professores, colegas, linguagens e narrativas.

Continua respirando, alimentando-se e regulando sua temperatura.

Ao mesmo tempo, aprende movimentos, modifica expectativas e constrói conhecimentos.

Educação, alimentação e convivência participam das condições de desenvolvimento do Corpo-Território, embora por mecanismos diferentes.

Nem toda transformação educativa corresponde a uma mudança metabólica específica já demonstrada.

Mas não precisamos separar artificialmente o organismo das experiências que participa em produzir.

O Homem de Milho não apenas habita o Bioma. Sua existência continua sendo produzida nas relações materiais, culturais e educativas que estabelece com ele.

A confiança precisa encontrar lugar

Voltemos à escola.

Uma criança sofreu humilhações durante meses.

Agora as cadeiras são reorganizadas em círculo.

Ela consegue observar os colegas.

Mas será que isso basta para sentir confiança?

Talvez continue esperando outra agressão.

A arquitetura pode oferecer encontros, mas não substitui a transformação das relações.

Um círculo não produz pertencimento quando as pessoas continuam sendo punidas por discordar.

Precisamos de espaços onde perguntar, errar e experimentar não signifique necessariamente exclusão.

A segurança psicológica pode favorecer comportamentos de aprendizagem.

E a possibilidade de deixar de Ser apenas aquilo que conhecemos depende também de não perder nosso lugar Entre Nós.

Consciência é movimento

Na hipótese da Consciência 5D, propomos:

“Consciência é um movimento que se percebe Ser no metabolismo produzido.”

Isso não significa que a consciência controle todos os processos que sustentam sua experiência.

O metabolismo envolve trocas contínuas de matéria e energia.

A percepção envolve processos que não precisam tornar-se explícitos.

Alfredo Pereira Jr., em seu Monismo de Triplo Aspecto, investiga relações entre processos fisiológicos, padrões mentais inconscientes e experiência consciente.

Essa teoria não comprova a Consciência 5D.

Mas oferece um diálogo importante.

Não precisamos perceber todos os processos envolvidos em nossa existência para que eles participem das condições em que conseguimos perceber-nos Ser.

O Nós ultrapassa as paredes

Ailton Krenak nos convida a reconhecer rios, árvores, montanhas e outros seres como participantes das relações da vida.

Uma praça não é apenas um lugar de encontros humanos.

As árvores participam da sombra.

O solo e a água participam das condições ambientais.

Outros organismos encontram possibilidades próprias de existência.

O Nós não precisa terminar onde termina a presença humana.

Isso não exige atribuir cognição humana às montanhas.

Exige reconhecer que o Bioma participa materialmente das condições em que vivemos.

Na metáfora do Homem de Milho, pertencimento não significa dominar o território.

Significa reconhecer que nossa existência depende de relações que podemos cuidar ou transformar.

Descolonizar também é transformar espaços

Imagine uma escola onde apenas uma pessoa pode falar.

Agora imagine outra em que os estudantes investiguem o território, cultivem alimentos e participem das perguntas.

Nenhuma configuração arquitetônica garante democracia.

Mas as possibilidades de participação podem ser diferentes.

Silvia Rivera Cusicanqui nos convida a questionar a permanência da colonialidade mesmo nos discursos que pretendem superá-la.

Descolonizar a arquitetura não significa impor outro modelo universal.

Significa permitir que os Corpos-Territórios participem da construção dos lugares onde aprenderão, viverão e produzirão seus futuros.

Quem não foi escutado pode reconhecer necessidades que os projetos anteriores desconheciam.

Como investigar os espaços que permitem Ser?

Podemos comparar ambientes com diferentes condições de acessibilidade, circulação, iluminação, vegetação e participação.

Registraríamos movimentos, escolhas, orientação, sentimentos e experiências relatadas.

EEG móvel, fNIRS, ECG e respiração poderiam oferecer medidas complementares.

Mas nenhum sinal isolado demonstra pertencimento, liberdade ou consciência coletiva.

Também precisaríamos observar as transições.

O que muda quando alguém encontra um caminho desconhecido?

Quando uma criança consegue participar?

Quando uma comunidade transforma o projeto de sua escola?

A pergunta não é apenas qual espaço produz menor esforço, mas quais possibilidades passam a existir para quem antes não conseguia encontrá-las.

Quando o espaço participa do Jiwasa

Imagine uma comunidade planejando sua escola.

Arquitetos apresentam desenhos.

Professores reconhecem dificuldades.

Crianças fazem perguntas inesperadas.

Moradores identificam relações com a água, o alimento e a vegetação.

Talvez nenhuma pessoa possua antecipadamente o projeto completo.

Na hipótese do Quorum Sensing Humano, investigamos se a reciprocidade amplia as possibilidades individuais e coletivas.

Um espaço Jiwasa não obriga todos a viver da mesma maneira. Permite encontrar, recusar, reconsiderar e transformar movimentos sem perder pertencimento.

Nossa pergunta permanece:

Que condições arquitetônicas, metabólicas, educativas e territoriais permitem ampliar as possibilidades de Ser, sentir, perceber e agir Entre Nós?

Talvez a arquitetura que permite Ser seja aquela que não nos mantém presos ao ótimo local.

Aquela que reconhece o Homem de Milho.

E que oferece condições para percebermos possibilidades que ainda não sabíamos que poderiam emergir.


Referências comentadas

Gibson, James J. (1979). The Ecological Approach to Visual Perception. Houghton Mifflin.

Desenvolve o conceito de affordances, relacionando as possibilidades de ação às características do ambiente e às capacidades dos organismos. Fundamenta a discussão sobre espaços que oferecem oportunidades diferentes para diferentes Corpos-Territórios.

Djebbara, Zakaria et al. (2025). Turning corners in built environments shifts spatial attention costs. NeuroImage, 322, 121549.

Investigação com EEG móvel e navegação em realidade virtual que demonstrou mudanças nas demandas de atenção espacial associadas a curvas arquitetônicas. Não estabelece relações universais entre geometria e sentimentos específicos.

Pereira Jr., Alfredo (2014). Triple-aspect monism: Physiological, mental unconscious and conscious aspects of brain activity. Journal of Integrative Neuroscience, 13(2), 201–227.

Apresenta o Monismo de Triplo Aspecto, distinguindo processos fisiológicos, padrões mentais inconscientes e experiências conscientes. Oferece um diálogo filosófico com a Consciência 5D, sem validar diretamente essa hipótese autoral.

Edmondson, Amy (1999). Psychological Safety and Learning Behavior in Work Teams. Administrative Science Quarterly, 44(2), 350–383.

Relaciona segurança psicológica a comportamentos de aprendizagem em equipes. Contribui para compreender por que a organização física de um espaço não substitui relações que permitam perguntar, errar e discordar.

Sudimac, Sonja; Sale, Vera; Kühn, Simone (2022). How nature nurtures: Amygdala activity decreases as the result of a one-hour walk in nature. Molecular Psychiatry, 27, 4446–4452.

Estudo experimental sobre respostas da amígdala após caminhadas em ambientes naturais e urbanos. Oferece evidências sobre relações entre experiência ambiental e processamento do estresse, sem demonstrar benefícios idênticos para todos os ambientes naturais.

Krenak, Ailton (2019). Ideias para adiar o fim do mundo. Companhia das Letras.

Questiona a separação entre humanidade e Terra e a redução de rios, montanhas e florestas a recursos. Fundamenta a ampliação ética e filosófica do Nós para além das relações exclusivamente humanas.

Rivera Cusicanqui, Silvia (2010). Ch'ixinakax utxiwa: una reflexión sobre prácticas y discursos descolonizadores.

Questiona a reprodução da colonialidade em discursos e instituições e contribui para pensar projetos territoriais que preservem diferenças sem assimilá-las a modelos universais.

Christenson, Allen J. (2007). Popol Vuh: Sacred Book of the Quiché Maya People.

Tradução comentada das narrativas maias K'iche', incluindo os seres de madeira e de milho. A interpretação do Homem de Milho como metáfora do Corpo-Território relacional é original da BrainLatam e não substitui os significados culturais da obra.

De Jaegher, Hanne; Di Paolo, Ezequiel (2007). Participatory sense-making: An enactive approach to social cognition. Phenomenology and the Cognitive Sciences, 6, 485–507.

Desenvolve a produção participativa de sentido, oferecendo fundamentos para investigar como encontros recíprocos modificam possibilidades de ação e interpretação.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2020). Neuroarquitetura — utilizando o EEG para criar ambientes mais alegres e produtivos.

Introduz aplicações de EEG na investigação de experiências relacionadas aos ambientes construídos, em diálogo com a neuroarquitetura.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2022). Biofilia e Neuroarquitetura — fazendo a conexão da natureza com o nosso cérebro.

Discute a integração de elementos naturais aos ambientes construídos, relacionando arquitetura, experiências sensoriais e possíveis efeitos sobre o bem-estar.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2025). Arquitetura que pensa comigo — virar esquinas e o custo invisível da atenção.

Relaciona pesquisas sobre navegação e atenção à experiência do Corpo-Território em espaços construídos.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2025). Ótimos Locais como Eus Tensionais — Formação, Restrição e Desenvolvimento.

Desenvolve a hipótese autoral de organizações perceptivas e sensório-motoras eficientes que podem, em determinadas condições, restringir a exploração de outras possibilidades.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2026). Ótimos locais — quando uma crença funciona bem demais.

Investiga como narrativas eficientes podem tornar-se limites para novas interpretações, sem considerar hábitos e conhecimentos prévios como obstáculos inevitáveis à aprendizagem.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2026). APUS e Tekoha — como o mundo entra no corpo e o corpo retorna ao mundo.

Apresenta a interpretação autoral da propriocepção e interocepção estendidas, preservando a distinção em relação aos significados indígenas originários.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2026). Território — o ambiente não é cenário: do Homem de Barro ao Homem de Milho.

Desenvolve a interpretação do território como participante da experiência do Ser e a metáfora do Homem de Milho como reconhecimento das relações que sustentam a existência.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2026). O que não entra na atenção também pode limitar o futuro que conseguimos imaginar.

Investiga a relação entre atenção, repertórios perceptivos e possibilidades de antecipação e criação de futuros.

BrainLatam — Cionek, Jackson (2026). Um mesmo evento — metabolismo, movimento e consciência.

Aprofunda a hipótese da Consciência 5D, relacionando metabolismo produzido, movimento e experiência de perceber-se Ser.

Cionek, Jackson. Religare — Religiosidade Plena em um Estado Democrático, Laico e de Direito.

Obra filosófica autoral sobre liberdade de Ser, pertencimento, religiosidade e emergência de possibilidades compartilhadas, em diálogo com o Estado-Jiwasa.

Nota científica e conceitual: A pesquisa sobre atenção espacial, ambientes naturais, segurança psicológica e percepção ecológica fornece bases para investigar como o espaço participa de nossas experiências. As relações propostas entre ótimo local, Homem de Milho, APUS/Tekoha estendidos, Consciência 5D e Jiwasa permanecem interpretações e hipóteses autorais, não mecanismos neurocientíficos comprovados.

Princípio central: O espaço também participa do Nós porque aquilo que conseguimos perceber é apenas parte das relações que tornam nossa existência possível. Transcender-se Ser pode começar quando confiança, pertencimento e novos encontros permitem que outras possibilidades deixem de permanecer invisíveis ao nosso Corpo-Território.

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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States