Jackson Cionek
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OHBM 2026: Naturalistic environments, memory, sleep and creativity — por que a ciência entende tão bem o cérebro parado e tão pouco o cérebro vivendo?

OHBM 2026: Naturalistic environments, memory, sleep and creativity — por que a ciência entende tão bem o cérebro parado e tão pouco o cérebro vivendo?

A OHBM 2026 traz um eixo especialmente fértil para quem quer pensar neurociência com mais corpo, mais tempo real e mais vida concreta. A keynote de Nanthia Suthana destaca human cognition in naturalistic environments, integrando EEG de alta densidade, sensores vestíveis, vídeo em primeira pessoa e comportamento em mundo real. Ao mesmo tempo, a programação oral inclui o tópico Wake-to-sleep transition facilitates novel idea generation based on associative recombination, enquanto a Talairach Lecture de Maiken Nedergaard reforça a relação entre sono, limpeza cerebral e cognitive health. Só essa combinação já mostra uma mudança importante: memória, criatividade e saúde cognitiva não estão sendo pensadas apenas em tarefas estáticas de laboratório, mas também em relação com ambiente, transição de estados e vida vivida.

Isso tem enorme valor para uma leitura de Neurociência Decolonial. Durante muito tempo, a ciência acumulou muito conhecimento sobre o cérebro parado: sentado, imóvel, isolado, respondendo a estímulos controlados. Isso trouxe avanços importantes, claro. Mas a vida humana real quase nunca acontece assim. A gente lembra andando, cria cochilando, se regula respirando, pensa melhor quando muda de estado, erra quando está sobrecarregado e reorganiza o sentido do mundo em transições sutis entre atenção, fadiga, repouso e imaginação.

Na linguagem Brain Bee, a pergunta pode ficar assim:

Criatividade e memória aparecem melhor quando a pessoa está parada no laboratório ou vivendo de forma mais real?

Essa pergunta é forte porque toca uma experiência que adolescentes reconhecem na hora. Muita gente já percebeu que boas ideias não aparecem só quando se está tentando pensar com força. Às vezes elas aparecem depois de descansar, de caminhar, de mudar de ambiente, de deixar o corpo sair de um estado rígido. O ponto da OHBM 2026 é que isso agora aparece de forma mais clara na própria agenda científica, quando a programação aproxima naturalistic environments, wake-to-sleep transition, memory e cognitive health.

Aqui, os avatares que mais ajudam são APUS, DANA e Brainlly.

APUS entra porque pensar, lembrar e criar nunca são apenas operações internas do cérebro. Também envolvem corpo no espaço, navegação, ritmo, pausa, deslocamento, orientação, sensação de abertura ou confinamento. Quando a ciência sai do cérebro parado e entra em naturalistic environments, APUS ajuda a lembrar que a cognição acontece em corpo-território.

DANA entra porque sono, restauração, metabolismo e estabilidade do sistema importam muito. A Talairach Lecture de Maiken Nedergaard é especialmente relevante aqui, porque liga sono, sistema glinfático e manutenção da saúde cognitiva. Isso ajuda a sair da ideia de que descansar seria apenas “desligar”. Em muitos casos, descansar é reorganizar as condições biológicas que tornam memória, clareza e criatividade possíveis.

Brainlly entra porque este é um tema claramente ligado à observação fina de transições de estado. Se a OHBM fala em wake-to-sleep transition, em comportamento em mundo real e em integração de EEG com sensores, então precisamos de uma lente capaz de acompanhar dinâmica, variação e mudança de modo, não apenas médias estáticas.

A crítica decolonial aqui pode ser simples: muita teoria ainda fica cristalizada quando trata cognição como se ela aparecesse melhor apenas em condições de imobilidade e controle máximo. Mas talvez a própria vida esteja dizendo outra coisa. Talvez algumas formas importantes de memória e criatividade só apareçam quando o corpo consegue sair da rigidez, mudar de estado e se reorganizar em relação com o ambiente. A própria OHBM 2026 sugere isso ao aproximar o estudo da cognição em naturalistic environments de temas como transição sono-vigília e saúde cognitiva.

Uma pergunta melhor, então, seria esta:

O que muda na memória e na criatividade quando o corpo sai do modo fixo e entra num estado mais vivo de transição, repouso ou exploração?

Essa é uma pergunta boa para a OHBM 2026, boa para a Brain Bee e muito importante para a América Latina. Porque aqui também precisamos de uma neurociência que não trate o viver como ruído, mas como parte do próprio fenômeno.

Uma proposta Brain Bee de experimento com EEG + NIRS

A proposta pode ser simples e muito rica: comparar participantes em momentos pré e pós cochilo curto, pré e pós caminhada leve ou depois de uma navegação ecológica simples, seguidos de uma tarefa de memória associativa e outra de geração criativa.

Com EEG + NIRS portátil, a gente pode acompanhar mudanças de atenção, esforço e regulação ao longo dessas transições. O foco não seria provar que “descansar resolve tudo”, mas perceber como certos estados corporais favorecem reorganização de memória e surgimento de novas ideias. A hipótese central é direta: parte da criatividade e da clareza pode depender menos de forçar o cérebro e mais de permitir que o corpo mude de estado com qualidade.

Onde a OHBM 2026 já aponta nessa direção

Esse blog nasce diretamente da programação oficial. A keynote de Nanthia Suthana destaca a investigação da cognição humana em naturalistic environments, com integração de EEG, sensores vestíveis e comportamento em mundo real. A programação oral inclui Wake-to-sleep transition facilitates novel idea generation based on associative recombination, e a Talairach Lecture de Maiken Nedergaard reforça a ligação entre sono e cognitive health. Isso desloca a pergunta.

Em vez de perguntar apenas “como o cérebro executa uma tarefa?”, a discussão pode ficar mais rica: como memória, criatividade e saúde cognitiva mudam quando a ciência acompanha estados reais do corpo em transição?

Por que isso importa para a América Latina

Na nossa região, pensar cognição de forma mais ecológica e incorporada tem muita força. A vida cotidiana raramente separa corpo, ambiente, memória e criação. A gente aprende em deslocamento, lembra em situação, descansa em condições nem sempre ideais, cria no intervalo e regula a mente em relação com território, clima, barulho, rotina e convivência.

Esse ponto é especialmente importante para jovens de 14 a 17 anos. Eles já sentem na prática que há dias em que a cabeça não funciona bem porque o corpo está esgotado, e dias em que uma ideia aparece quase do nada depois de mudar o ritmo. Se a Brain Bee Latam quiser inspirar perguntas científicas novas, esse é um terreno muito potente.

A beleza desse tema da OHBM 2026 está justamente aí: ele já abre espaço para sair do cérebro imóvel e entrar no cérebro vivendo.

Em vez de perguntar apenas como a memória funciona numa tarefa parada, a gente pode perguntar:

O que muda depois de um cochilo curto?
Como caminhar ou explorar o ambiente muda atenção e criação?
Será que parte da inteligência aparece melhor quando o corpo consegue mudar de estado?

Quando a neurociência começa a medir isso, ela deixa de ser apenas uma ciência da execução controlada e começa a virar também uma ciência da vida cognitiva em movimento.

Referências usadas neste blog

  • OHBM 2026 — keynote de Nanthia Suthana, destacando human cognition in naturalistic environments com integração de EEG, sensores vestíveis, vídeo em primeira pessoa e comportamento em mundo real.

  • OHBM 2026 — sessão oral “Higher Cognitive Functions”, incluindo o tópico Wake-to-sleep transition facilitates novel idea generation based on associative recombination.

  • OHBM 2026 — Talairach Lecture de Maiken Nedergaard, com ênfase em sono, sistema glinfático e cognitive health.







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New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States