Jackson Cionek
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Quando nos reunimos - liberdade, alostase e o "um entre nós"

Quando nos reunimos -  liberdade, alostase e o "um entre nós"

Quando as palavras começam a prender

No texto anterior, chegamos à ideia de que liberdade precisa de chão. Não basta enxergar outro caminho. É preciso ter condições para experimentá-lo, errar, corrigir e continuar existindo.

Agora podemos fazer outra pergunta:

O que acontece quando esse Movimento não pode ser produzido sozinho?

Há acontecimentos humanos que dificilmente cabem em um indivíduo isolado. Cantamos juntos. Dançamos. Choramos um morto. Celebramos uma chegada. Caminhamos, comemos, permanecemos em silêncio e repetimos gestos que outras gerações repetiram antes de nós.

Talvez tenhamos separado em "religião", "política", "arte", "cura" e "festa" acontecimentos que, em muitos mundos ameríndios, não precisavam existir como domínios independentes.

Em 2026, a antropóloga Paola Andrade Gibram mostrou como, entre os Kaingang, práticas tỹnh, envolvendo canto, dança, pintura corporal e ornamentação, participam das próprias mobilizações políticas no Acampamento Terra Livre. Não aparecem simplesmente como adorno de uma política que aconteceria em outro lugar. (Portal de Revistas da USP)

Talvez liberdade também precise de lugares onde Corpos-Territórios consigam mudar juntos.

Alostase: não voltar, mas continuar

A alostase oferece uma linguagem interessante para isso.

Em vez de imaginar regulação apenas como retorno a um estado anterior, podemos pensar em regulação antecipatória e adaptativa diante das demandas. Katsumi e colaboradores propuseram, em 2022, a alostase como princípio importante da organização cerebral relacionado à regulação preditiva dos recursos do corpo. Trata-se de uma perspectiva teórica, não de uma explicação única para toda experiência humana. (PubMed)

Isso muda nossa leitura de um funeral.

Depois de uma morte, ninguém retorna exatamente ao estado anterior.

João Kelmer mostrou em 2025 como, entre os Boe (Bororo), luto e memória são elaborados ritualmente. Perdas pessoais e coletivas entram em ações, cantos, danças, cuidados e relações pelas quais os vivos também se reorganizam. (SciELO)

Talvez o ritual não seja simplesmente uma "descarga".

Pode ser uma maneira coletiva de construir um depois habitável.

Na extensão que propomos na Consciência 5D, um encontro poderia funcionar como uma infraestrutura alostática coletiva:

antecipação -> preparação -> encontro -> ritmo -> Movimento -> Qualia -> relação -> reorganização -> próximo estado

Essa é uma hipótese BrainLatam, não uma definição estabelecida de ritual.

Quando dois corpos não são apenas dois cérebros

A neurociência começa a medir pequenas partes dessas relações.

Em 2026, Federico Curzel e colaboradores utilizaram fNIRS hyperscanning durante escuta musical em 34 díades de amigos. Ouvir música juntos esteve associado a maior sincronização neural interpessoal do que ouvi-la separadamente, e a similaridade do prazer relatado pelos participantes relacionou-se à sincronização observada. (ScienceDirect)

Em 2024, Chenghao Zhou e colaboradores utilizaram EEG hyperscanning durante contato pelas mãos. O resultado não foi simplesmente "toque gera sincronia": entre parceiros românticos, o contato aumentou medidas de conectividade interpessoal ao longo do tempo; entre desconhecidos, o padrão foi diferente e chegou a diminuir. (Springer)

Isso não demonstra uma "consciência coletiva".

Nem mostra que dois cérebros se tornam um.

Mostra algo mais cuidadoso:

O significado relacional de um acontecimento participa da dinâmica neural que conseguimos medir.

O mesmo toque não é o mesmo encontro quando muda quem toca quem.

A unidade do acontecimento pode ser maior que uma palavra

Em um ritual, talvez a unidade de sentido não seja uma palavra isolada.

Pode ser:

canto + ritmo + gesto + território + memória + presença dos outros.

O arqueólogo indígena Jaime Xamen Wai Wai escreveu, em 2024, sobre como a arqueologia lhe permitiu reencontrar partes da história Waiwai e defender uma arqueologia indígena capaz de modificar as narrativas sobre o passado amazônico. Sua reflexão relaciona arqueologia a trajetória, território, conhecimentos e anciãos, e não apenas a objetos retirados de um lugar para serem interpretados externamente. (SciELO Brazil)

Uma Neurociência Decolonial pode aprender algo daqui.

Em vez de perguntar somente:

"Que área cerebral se ativa durante este ritual?"

podemos perguntar:

"Que mundo de relações precisa permanecer inteiro para que este acontecimento faça sentido?"

Talvez o próprio recorte experimental possa destruir parte daquilo que pretendíamos compreender.

DANA: proteger a transcendência sem possuir sua explicação

É aqui que podemos atualizar DANA.

Na formulação BrainLatam, DANA é um princípio filosófico e regulatório de religiosidade laica ou neutralidade ativa: o Estado protege o direito de acreditar, não acreditar, duvidar e mudar de crença sem decidir qual explicação transcendental é verdadeira. DANA não é proposta como nova religião nem como descoberta científica. (brainlatam)

Podemos agora acrescentar uma função.

Um Estado laico não precisa oferecer transcendência.

Mas pode proteger espaços de transcendência.

Canto.

Dança.

Silêncio.

Contemplação.

Festa.

Rito.

Arte.

Encontro.

Uma experiência de transcendência pode ser real como experiência sem que sua intensidade prove Deus, espírito, ancestralidade ou qualquer explicação metafísica específica.

DANA protegeria justamente essa abertura: a possibilidade de viver experiências que ultrapassem temporariamente o "eu" habitual sem que uma instituição transforme imediatamente aquele acontecimento em doutrina obrigatória.

Jiwasa: um "nós" que inclui quem escuta

A palavra aimará jiwasa oferece outra perturbação.

Um estudo peruano publicado em 2024 sobre comunicação intercultural registra jiwasa-naka como uma forma inclusiva de "nós", em contraste com formas que excluem o interlocutor. (SciELO Peru)

Isso não significa que falantes de aimará sejam naturalmente mais coletivos.

Mas essa distinção linguística permite uma pergunta:

O que muda quando o "nós" inclui explicitamente quem fala e quem escuta?

Na extensão BrainLatam, chamamos de Jiwasa um espaço relacional no qual diferentes Corpos-Territórios podem participar de uma tarefa comum sem que um deles precise possuir permanentemente o coletivo.

A formulação recente do projeto descreve o Jiwasa verdadeiro como adaptativo: a liderança muda de acordo com a necessidade. O Jiwasa falso concentra função, medo e dependência. (brainlatam)

Podemos resumir:

O líder pode participar do Jiwasa. Não pode possuir o Jiwasa.

Deus como "um entre nós"

Aqui podemos atualizar uma ideia antiga da BrainLatam.

Em 2023 escrevemos:

"A verdade está entre nós, não está em nós." (brainlatam)

Dentro de DANA, podemos levar essa alegoria adiante:

Deus pode ser pensado como um Jiwasa verdadeiro: "um entre nós" que orienta todos nós.

Precisamos marcar cuidadosamente a genealogia dessa frase.

Isso não é uma tradução aimará de Deus.

Não é teologia indígena.

Não é afirmação científica de que Deus exista.

É uma extensão filosófica BrainLatam.

Seu valor está justamente em retirar de qualquer indivíduo a posse do lugar transcendente.

Se Deus está "entre nós", nenhum sacerdote, político, empresário ou líder pode tornar-se proprietário permanente da voz que deve orientar todos.

O "entre" desaparece quando alguém o captura.

Egrégora sem precisar inventar uma entidade invisível

Podemos atualizar também a palavra egrégora.

Não precisamos utilizá-la como afirmação de que uma entidade sobrenatural independente surge sobre um grupo.

Podemos tratá-la como metáfora para uma configuração emergente:

corpos + palavras + ritmos + símbolos + memórias + expectativas + Movimento + Qualia -> configuração coletiva

Ninguém possui sozinho essa configuração.

Mas cada participante pode ser modificado por ela.

E aqui surge uma advertência decisiva:

sincronia não é sinônimo de liberdade.

Um grupo autoritário também pode cantar junto.

Um culto baseado no medo pode produzir pertencimento.

Uma multidão pode sincronizar raiva.

A mesma capacidade coletiva que reorganiza Corpos-Territórios pode ampliar o espaço de busca ou estreitá-lo.

Jiwasa verdadeiro ou pertencimento capturado?

Por isso precisamos de um critério prático.

Depois do encontro:

existem mais Movimentos possíveis ou menos?

Consigo discordar e continuar pertencendo?

Uma liderança pode ser substituída?

O ritual permite novas perguntas ou exige que uma resposta seja repetida?

O sentir encontra expressão ou é transformado imediatamente em medo, culpa, dívida ou obediência?

Danilo Silva Guimarães lembra, em 2025, que condições fisiológicas e culturais participam conjuntamente do campo de necessidades e possibilidades no qual a ação humana acontece. (Jornal USP)

Liberdade, portanto, não acontece fora das relações que nos sustentam e também nos limitam.

Ailton Krenak, em Futuro ancestral, publicado em 2022, desloca nossa atenção novamente para relações entre vida, rios, territórios e outros seres, perturbando a ideia de futuro como algo separado das condições que tornam a existência possível agora. (Companhia das Letras)

Talvez o verdadeiro "nós" também precise ser territorial.

Liberdade precisa de um "entre nós"

No texto anterior, dissemos que liberdade precisa de chão.

Agora podemos acrescentar:

liberdade também precisa de encontros nos quais possamos mudar sem desaparecer.

Festa, arte, dança, canto, silêncio, jogo e ritual podem ser mais do que entretenimento ou doutrina.

Podem constituir espaços onde o sentir encontra Movimento antes de precisar transformar-se em crença.

Uma sociedade livre não é apenas aquela em que podemos pronunciar qualquer palavra.

Talvez seja também aquela que preserva diversidade suficiente de encontros para reorganizarmos luto, alegria, medo, mudança e pertencimento sem entregar a alguém o monopólio de dizer o que essas experiências significam.

DANA protege a abertura.

A alostase ajuda a perguntar como continuamos.

Jiwasa pergunta o que conseguimos produzir entre nós.

E a Neurociência Decolonial ganha uma tarefa: não medir apenas cérebros que estão juntos, mas investigar que relações tornam possível estar juntos sem que o coletivo destrua a diferença.

Talvez ser livre não seja viver sem coletivo.

É conseguir pertencer sem desaparecer dentro dele.

Um "nós" só continua vivo enquanto ainda existe espaço para cada "eu" mover-se dentro dele.

Referências

GIBRAM, Paola Andrade. Cantos da vida contra governos da morte: os kanhgág tỹnh e o Acampamento Terra Livre. Revista de Antropologia, 2026. Pesquisa antropológica sobre práticas expressivas Kaingang e mobilização política. (Portal de Revistas da USP)

KELMER, João. Fazendo parentesco com os mortos no Brasil Central: luto, memória e ritual entre os Boe (Bororo). Mana, 2025. (SciELO)

WAI WAI, Jaime Xamen. Uma história de como os Waiwai da Amazônia vêm construindo e agora contando suas arqueologias. Estudos Avançados, 2024. Referência de arqueologia indígena produzida por um pesquisador Waiwai. (SciELO Brazil)

GUIMARÃES, Danilo Silva. Sentimentos mobilizados diante de demandas de pessoas e seus mundos. Jornal da USP, 2025. (Jornal USP)

KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. Companhia das Letras, 2022. (Companhia das Letras)

ESCOBAR, W. Comunicación intercultural desde los medios de comunicación. 2024. Referência para a distinção linguística aimará entre formas inclusivas e exclusivas de "nós". (SciELO Peru)

KATSUMI, Yuta et al. Allostasis as a core feature of hierarchical gradients in the human brain. Network Neuroscience, 2022. Perspectiva teórica sobre alostase e regulação preditiva. (MIT Press Direct)

CURZEL, Federico et al. Joint music listening enhances interpersonal affective and neural synchrony. Cortex, 2026. Estudo com fNIRS hyperscanning em díades de amigos durante escuta musical compartilhada. (LEAD Lab)

ZHOU, Chenghao et al. Brain-to-brain synchrony increased during interpersonal touch in romantic lovers: an EEG-based hyperscanning study. BMC Psychology, 2024. (Springer)

BRAINLATAM. Estado responsável, laico e plural - DANA e pertencimento sem conversão. 2026. Fonte conceitual para DANA como princípio filosófico e regulatório, diferenciado de evidência científica. (brainlatam)

BRAINLATAM. Jiwasa: Cuando el Yo Solo Existe en el Nosotros. 2026. Fonte para as extensões BrainLatam de Jiwasa verdadeiro, Jiwasa falso e alostase coletiva. (brainlatam)










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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States