Jackson Cionek
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Quando o Bioma também entra na decisão

Quando o Bioma também entra na decisão

Do Corpo-Território a novas métricas de desenvolvimento

No Blog 9 chegamos a uma possibilidade: pertencer sem permanecer na mesma posição.

O Jiwasa não precisaria transformar diferenças em uniformidade. Um Corpo-Território poderia participar do coletivo, aproximar-se, divergir, sair, retornar e transcender a própria posição anterior sem que aquilo que foi ontem se transformasse em sentença sobre aquilo que deverá ser amanhã.

Mas alguma coisa ainda ficou fora da conversa.

Onde esse Corpo está?

Que água bebe?

Que temperatura atravessa?

Quanto tempo leva para chegar ao trabalho?

Que alimento consegue encontrar?

Que ar respira?

Quanto custa morar onde vive?

Há sombra?

Há árvores?

Há transporte?

Há rio?

Há violência?

Há emprego?

Existe floresta, plantação, concreto, mineração, indústria, litoral ou seca ao redor dele?

Se o Corpo-Território é indivisível, talvez uma IA Personalíssima que represente apenas desejos explicitamente individuais ainda esteja enxergando uma pessoa abstrata.

O território também participa das possibilidades de Ser.

E então nossa pergunta muda:

quanto uma região produz?

pode não ser suficiente.

Precisamos também perguntar:

o desenvolvimento está ampliando ou reduzindo as possibilidades de Ser dos Corpos-Territórios que vivem naquele Bioma?


Quando conquistar também ensina como desejar

Os modelos extrativistas não retiram apenas recursos.

Eles também podem produzir formas de imaginar o sucesso.

A conquista histórica não operou somente pela força física. Leis, instituições, educação, propriedade, religião, linguagem e sistemas econômicos também foram utilizados, em diferentes períodos e contextos, para reorganizar territórios e populações segundo as estruturas de quem detinha poder.

O problema mais profundo aparece quando o conquistado não deseja mais libertar-se da estrutura, mas apenas trocar de posição dentro dela.

A formulação popularmente atribuída a Paulo Freire — “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor” — não aparece dessa forma literal em Pedagogia do Oprimido, mas sintetiza uma questão central de sua obra: a possibilidade de o oprimido internalizar as referências do próprio sistema opressor. Freire contrapôs à “educação bancária”, baseada em transmissão e passividade, uma educação problematizadora capaz de permitir às pessoas interpretar e transformar suas relações com o mundo.

Talvez possamos transportar essa pergunta para a economia.

Se uma comunidade historicamente explorada recebe a oportunidade de desenvolver-se, desenvolvimento significa finalmente poder extrair tanto quanto aqueles que antes a exploravam?

Ou podemos imaginar outras formas de produzir valor?

Esse é um ponto importante porque o problema não é simplesmente capitalismo contra não capitalismo.

Mercados, crédito, propriedade, comércio, acumulação e diferentes formas de troca aparecem em sociedades muito anteriores ao capitalismo industrial moderno. Colocar todas elas sob a mesma palavra “capitalismo” é historicamente discutível.

O que podemos questionar é outra coisa:

por que considerar evolução econômica aquilo que aumenta a produção e simultaneamente amplia desigualdades, dependência material e destruição das condições que tornam essa produção possível?


E se desenvolvimento não for ocupar o lugar do conquistador?

David Graeber e David Wengrow questionaram justamente narrativas lineares segundo as quais a humanidade necessariamente caminharia de sociedades simples para agricultura, cidades, Estados hierárquicos e, finalmente, para as formas econômicas contemporâneas.

Em discussão sobre O Despertar de Tudo, Wengrow recupera um argumento desenvolvido anteriormente por Graeber: certas concepções modernas de liberdade podem ser compreendidas historicamente em relação à escravidão e à mercantilização. Nesse argumento, a “liberdade como posse pessoal” torna-se também a capacidade de dispor da própria força de trabalho de forma transacional. Trata-se de uma interpretação antropológica sobre a genealogia de certas relações capitalistas, e não da afirmação de que todo capitalismo seja simplesmente escravidão.

Essa diferença importa.

Não precisamos substituir uma simplificação por outra.

Mas podemos perguntar:

quanto daquilo que chamamos desenvolvimento ainda depende da capacidade de converter Corpo, tempo e território em mercadoria?

Na América Latina essa pergunta é particularmente material.

Um estudo de 2026 analisou a extração de materiais na América Latina e no Caribe entre 1970 e 2023 e encontrou uma ligação persistente entre crescimento econômico e expansão da extração. Houve ganhos relativos de eficiência em alguns contextos, mas eles não produziram uma redução absoluta consistente da pressão material.

Outro estudo sobre regiões mineradoras latino-americanas observou que especializações extrativas podem coexistir com degradação ambiental, conflitos e baixa diversificação produtiva nas próprias regiões que fornecem os recursos.

Produzir riqueza, portanto, não responde sozinho à pergunta:

riqueza para quem, por quanto tempo e deixando quais possibilidades depois?


O Bioma já participa da economia - mesmo quando a contabilidade não percebe

Uma árvore em pé não está parada.

Ela participa de água, temperatura, solo, biodiversidade, carbono, sombra e inúmeras relações ecológicas.

Um manguezal não está improdutivo porque não virou condomínio.

Um rio que continua potável não deixou de produzir porque nenhuma fábrica engarrafou sua água.

Biodiversidade e contribuições da natureza às pessoas estão espacialmente conectadas; estudos recentes buscam justamente identificar regiões onde conservação da biodiversidade e manutenção de benefícios fundamentais às sociedades humanas se sobrepõem.

O problema é que nossos indicadores econômicos conseguem enxergar muito rapidamente aquilo que foi retirado.

Toneladas.

Barril.

Madeira.

Minério.

Soja.

Energia.

Exportação.

PIB.

Mas possuem muito mais dificuldade para atribuir valor econômico ao que continuou funcionando porque não foi destruído.

Na hipótese BrainLatam, é aqui que surge o:

Rendimento Bioma

A proposta parte de uma inversão simples.

Se a continuidade funcional de um Bioma produz condições materiais que sustentam a sociedade, parte desse valor também poderia retornar continuamente aos territórios e aos Corpos-Territórios que participam de sua preservação e regeneração.

A BrainLatam já vem formulando essa hipótese como uma forma de reconhecer economicamente água, solo, biodiversidade, vegetação, conectividade ecológica, estabilidade territorial e regeneração — sem reduzir o Bioma a apenas uma tonelada de carbono equivalente.

Seria importante que cada Bioma possuísse métricas próprias.

Não se mede Amazônia exatamente como Caatinga.

Não se mede Pantanal como Mata Atlântica.

Nem Cerrado como Pampa.

O território precisa poder dizer o que significa continuar funcional naquele território.


Produção de Excessos

Isso também nos leva a outra hipótese BrainLatam.

Não somos contra produzir.

Corpos precisam de alimento.

Cidades precisam de moradia.

Hospitais precisam de equipamentos.

Países precisam de energia, infraestrutura, medicamentos, ciência e tecnologia.

A pergunta aparece quando a produção deixa de responder predominantemente a necessidades e passa a depender estruturalmente de produzir cada vez mais porque parar de crescer ameaça o próprio sistema.

Chamamos isso de Produção de Excessos.

Não seria simplesmente definir politicamente que determinado produto é supérfluo.

A questão seria estabelecer uma relação entre:

necessidade + capacidade ecológica + valor agregado + retirada territorial + regeneração.

Quanto mais uma atividade ultrapassasse necessidades definidas coletivamente e aumentasse sua pressão sobre recursos finitos, maior poderia ser sua obrigação econômica de restituir capacidade ao Bioma.

Essa restituição poderia assumir diferentes instrumentos jurídicos ou tributários.

O importante, nesta etapa, não é afirmar qual mecanismo é correto.

É formular o princípio:

retirar mais território para gerar o mesmo valor não deveria ser automaticamente interpretado como desenvolvimento superior.

É uma hipótese que a BrainLatam já vem desenvolvendo ao discutir Produção de Excessos e a possibilidade de produzir mais conhecimento e valor agregado retirando proporcionalmente menos matéria do território.


E o dinheiro?

Aqui a discussão chega ao Drex Cidadão.

Precisamos fazer uma distinção importante.

O Drex oficial, desenvolvido pelo Banco Central do Brasil, é uma infraestrutura para transações e liquidação envolvendo ativos digitais e serviços financeiros. Seu desenho atual prevê acesso através de intermediários financeiros autorizados. Ele não corresponde a uma renda universal paga diretamente pelo Banco Central e tampouco ao modelo de “crédito sem débito” discutido pela BrainLatam.

Drex Cidadão é uma hipótese BrainLatam.

A proposta pergunta:

e se parte da criação monetária pudesse chegar ao cidadão não inicialmente como dívida, mas como expressão material de seu pertencimento ao Estado?

E se o Rendimento Bioma pudesse compor esse metabolismo?

Teríamos então dois movimentos:

Drex Cidadão → pertencimento à comunidade política.

Rendimento Bioma → pertencimento às relações ecológicas que tornam essa comunidade materialmente possível.

A criação de dinheiro deixaria de estar conceitualmente separada da pergunta:

o que queremos manter vivo?


IA Personalíssima: não decidir pelo Bioma, mas permitir que ele entre na decisão

É aqui que voltamos à IA Personalíssima.

Ela não deveria simplesmente informar:

“Jackson quer X.”

“Maria quer Y.”

“Esta comunidade prefere Z.”

Talvez precise conseguir reconhecer também:

nesta região a água está diminuindo;

o calor aumentou;

o tempo de deslocamento cresceu;

o alimento tornou-se menos acessível;

o solo perdeu capacidade;

a poluição aumentou;

a biodiversidade caiu;

determinado Corpo-Território passou a gastar mais energia apenas para continuar vivendo onde sempre viveu.

Isso não significa que uma IA possa decidir automaticamente o que é bom para uma população.

Muito menos que algum algoritmo deva substituir política, cultura, ciência ou deliberação democrática.

Significa apenas que o Bioma deixa de permanecer invisível quando decidimos sobre desenvolvimento.

No Blog 9 dissemos:

pertencer sem permanecer na mesma posição.

Agora podemos acrescentar:

mudar de posição exige que existam posições para onde seja possível ir.

Não existe transcendência do Ser num território em que todas as possibilidades foram removidas.

Não existe verdadeira liberdade de escolha quando respirar, comer, morar, deslocar-se ou beber água já consome quase toda a margem possível daquele Corpo.

Por isso Corpo-Território não é metáfora decorativa.

É uma mudança de unidade de análise.


Qual economia aumenta possibilidades de Ser?

Talvez uma nova métrica de desenvolvimento não precise substituir o PIB.

Pode colocá-lo no lugar certo.

PIB nos informa algo importante sobre atividade econômica.

Mas não responde sozinho:

a água melhorou?

o território tornou-se habitável?

há mais tempo disponível?

a alimentação tornou-se mais diversa?

o Corpo pode mover-se?

a biodiversidade consegue continuar?

a desigualdade caiu?

o futuro ganhou possibilidades ou as perdeu?

Nesse sentido, Rendimento Bioma, Drex Cidadão e Produção de Excessos não são respostas prontas.

São hipóteses para tornar novas perguntas economicamente formuláveis e cientificamente testáveis.

Talvez desenvolvimento não seja finalmente permitir que o conquistado se torne conquistador.

Talvez seja permitir que ele já não precise ocupar nenhuma dessas duas posições.

Nem conquistador.

Nem conquistado.

Mas participante de um território capaz de continuar produzindo diferenças, movimento e possibilidades de Ser.

O Jiwasa do Blog anterior dizia:

posso pertencer sem permanecer na mesma posição.

O Bioma agora responde:

sim — desde que nossa maneira de desenvolver não destrua justamente o espaço necessário para você poder mudar.

E talvez essa seja a pergunta que uma economia do Corpo-Território precise aprender a fazer:

não apenas quanto produzimos, mas quantas possibilidades de Ser nossa produção deixa vivas depois que passa.

Referências

FALCONÍ, F.; BURBANO, R.; CANGO, P.; INTRIAGO, R. Extraction and dematerialization in Latin America, 1970–2023. Ecological Economics, v. 244, 108947, 2026.

URIBE-SIERRA, S. E.; PANEZ-PINTO, A.; TOSCANA-APARICIO, A.; MANSILLA-QUIÑONES, P. Mining, development and unequal regionalization in subnational Latin American contexts. The Extractive Industries and Society, v. 13, 101209, 2023.

NEUGARTEN, R. A. et al. Mapping the planet’s critical areas for biodiversity and nature’s contributions to people. Nature Communications, 2024.

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Referenciado em estudos contemporâneos sobre educação bancária, educação problematizadora e formação da consciência crítica.

GRAEBER, D.; WENGROW, D. O Despertar de Tudo: Uma Nova História da Humanidade. As discussões sobre liberdade, propriedade de si e a relação histórica entre escravidão e determinadas estruturas capitalistas são retomadas por David Wengrow em entrevista acadêmica publicada em Mana.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Drex – Real Digital. Descrição oficial da infraestrutura Drex e de seu modelo de acesso intermediado.

BRAINLATAM. Quem mantém o Brasil vivo também produz riqueza? Desenvolvimento da hipótese do Rendimento Bioma, 2026.

BRAINLATAM. Produzir mais até quando? Quando o excesso começa a produzir menos futuro, 2026.

BRAINLATAM. Quando o Estado pulsa em cada Corpo-Território. Articulação entre Drex Cidadão, Rendimento Estatal, Rendimento Bioma e pertencimento, 2026.












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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States