Jackson Cionek
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Quando o sentir ganha um nome

Quando o sentir ganha um nome

Quando as palavras começam a prender

No primeiro texto desta série, permanecemos por algum tempo antes da palavra. Observamos um corpo que aprende, imita, diferencia, aproxima-se, recua e participa antes de conseguir explicar exatamente o que está acontecendo.

Agora podemos avançar um pouco.

Alguma coisa aconteceu.

Nosso coração acelerou. Nosso corpo ficou leve ou pesado. Tivemos vontade de nos aproximar, fugir, permanecer, abraçar, discutir ou simplesmente ficar em silêncio.

Então alguém pergunta:

"O que você está sentindo?"

Talvez hesitemos por alguns segundos.

"Medo."

"Ansiedade."

"Amor."

"Raiva."

"Vergonha."

Encontramos uma palavra.

E alguma coisa muda.

A palavra não entrou em um espaço vazio. Ela encontrou uma experiência que já estava acontecendo. Mas, ao encontrá-la, começou também a organizá-la.

É nesse momento que surge a pergunta deste segundo blog:

O que acontece com uma experiência quando precisamos fazê-la caber em uma palavra?

Talvez nomear seja recortar

Podemos experimentar isso com algo mais simples.

Imagine uma faixa de cores que passa lentamente do azul para o roxo. Em determinado ponto, alguém pergunta:

"Isso ainda é azul ou já é roxo?"

Talvez seja fácil nas extremidades. No meio, nem tanto.

Danilo Silva Guimarães recupera justamente uma experiência desse tipo ao refletir sobre percepção, ambiguidade e vida social. Ele lembra uma tarefa com gradientes de cores em que, em certos pontos, já não era evidente onde uma cor terminava e outra começava. Depois amplia a questão: convivência, práticas sociais e condições ambientais podem treinar diferentes capacidades de perceber, distinguir e nomear aquilo que encontramos. (Jornal da USP)

A cor não precisou mudar abruptamente para que nossa linguagem exigisse uma fronteira.

Talvez algo parecido aconteça quando dizemos:

"medo".

Onde exatamente termina o medo e começa a ansiedade?

Quando admiração se transforma em amor?

Onde indignação se diferencia de raiva?

Quando tranquilidade passa a ser chamada de paz?

Não precisamos concluir que todas as palavras são arbitrárias ou que nenhuma distinção existe. Precisamos apenas perceber que uma palavra produz uma fronteira suficientemente útil para conseguirmos nos relacionar com uma experiência que talvez seja mais contínua, misturada e ambivalente do que o nome sugere.

Nomear pode ser necessário.

Mas nomear não é fotografar.

É recortar.

A palavra que encontramos também tem uma história

Quando dizemos "medo", não inventamos essa palavra naquele instante.

Ela já estava aqui.

Foi usada por nossos pais, professores, amigos, livros, músicas, religiões, profissionais de saúde e pelas pessoas com quem crescemos.

Com ela vieram exemplos de quando deveríamos sentir medo, de quem poderia demonstrá-lo, de quando seria vergonhoso senti-lo e do que deveríamos fazer depois.

Marta Rizo García, pesquisadora da Universidad Autónoma de la Ciudad de México, propôs em 2022 que comunicação, corpo e emoções precisam ser pensados conjuntamente. Sua reflexão sobre o giro afetivo questiona a ideia de emoções como acontecimentos puramente interiores, separados das relações sociais pelas quais ganham expressão e sentido. (Comunicación y Sociedad)

Pesquisadoras brasileiras que estudaram emoções na educação infantil chegaram a uma questão semelhante por outro caminho. Jéssica Bispo Batista, Juliana Campregher Pasqualini e Giselle Modé Magalhães observaram que o desenvolvimento afetivo da criança acontece dentro de relações sociais concretas e que significados culturais passam a mediar progressivamente sua relação com o mundo. (SciELO)

Então talvez o movimento não seja simplesmente:

corpo sente -> mente descobre a palavra correta.

Pode ser mais circular:

corpo sente -> encontramos uma palavra disponível em nossa cultura -> a palavra organiza a experiência -> aprendemos também a sentir e interpretar através dessa organização.

A palavra não apenas sai do sentir.

Depois de aprendida, ela pode voltar para ele.

E se outra língua tivesse chegado primeiro?

Esta pergunta pode nos acompanhar sem precisarmos cair em determinismo linguístico.

Não estamos dizendo que falar uma língua diferente produz automaticamente outro cérebro ou torna impossível compreender aquilo que outras culturas sentem.

Estamos perguntando algo mais modesto:

se tivéssemos aprendido outras palavras, outras distinções e outras metáforas desde a infância, organizaríamos todas as nossas experiências exatamente da mesma maneira?

Provavelmente não.

Um estudo publicado em 2023 comparou 960 participantes brasileiros e britânicos e encontrou diferenças entre os grupos nas crenças sobre experiência e expressão emocional. Os autores são cuidadosos: isso não significa que exista uma "emoção brasileira" homogênea, mas indica que contexto cultural participa das crenças que desenvolvemos sobre como emoções devem ser vividas, controladas ou expressas. (SciELO)

Aqui começamos a perceber por que as palavras são ferramentas tão poderosas de relacionamento.

Elas não nos dão apenas nomes.

Elas nos oferecem formas compartilhadas de organizar aquilo que acontece conosco.

Compreender sem traduzir imediatamente

Há uma passagem do catálogo Mundos Indígenas que talvez nos ajude a permanecer um pouco mais nessa questão.

Ao apresentar os mundos Yanomami, Ye'kwana, Xakriabá, Tikmu'un e Pataxoop, a exposição propõe que o visitante tente experienciar conceitos indígenas sem imediatamente traduzi-los ou compará-los com sua realidade conhecida. A ideia não é abandonar a tradução para sempre, mas evitar que nossas categorias anteriores ocupem o espaço antes que algo diferente possa ser percebido.

Isso nos oferece um exercício simples para nossa própria vida.

Quando surge algo dentro de nós, talvez possamos perguntar:

eu preciso nomear isso imediatamente?

Ou posso permanecer alguns instantes com aquilo antes de decidir se é medo, raiva, ansiedade, amor, espiritualidade, fracasso ou qualquer outra coisa?

Não porque o nome seja ruim.

Mas porque talvez uma experiência ainda esteja se formando.

O cérebro também muda quando palavras entram na cena

Aqui podemos aproximar a neurociência sem pedir que ela resolva a questão filosófica.

Em 2022, pesquisadoras brasileiras da UFRJ e UFF fizeram um experimento com EEG. Participantes viam imagens de alimentos ultraprocessados. Antes de algumas imagens, aparecia uma frase advertindo sobre consequências negativas desses alimentos; antes de outras, uma frase-controle.

A imagem continuava sendo alimento.

Mas o contexto verbal havia mudado.

As advertências textuais foram associadas a mudanças no potencial positivo tardio, um componente do EEG relacionado à relevância motivacional dos estímulos, e também a avaliações menores de agradabilidade. (Frontiers)

Não podemos concluir daí que "a palavra criou a emoção".

Mas podemos concluir algo suficiente para nossa reflexão:

uma sequência de palavras apresentada antes de uma experiência visual pode participar da maneira como essa experiência será posteriormente processada e avaliada.

Em 2024, outro estudo utilizou fNIRS enquanto participantes lidavam com situações emocionalmente negativas. Em algumas condições, precisavam selecionar palavras para nomear o próprio estado antes de tentar reinterpretar a situação. O ato de rotular afetivamente modificou a dinâmica da regulação posterior e esteve associado a maior atividade em regiões pré-frontais durante a reavaliação. Curiosamente, nesse experimento, combinar rotulação e reavaliação não tornou a regulação subjetiva mais eficaz do que reavaliar sem rotular previamente. (Springer)

Esse resultado é especialmente interessante para nós porque evita uma conclusão fácil como:

"nomear emoções sempre faz bem".

Talvez nomear ajude em algumas situações.

Talvez, em outras, a palavra introduza uma organização que modifica aquilo que faremos em seguida.

A ciência ainda está investigando esses processos.

"Eu estou com medo" e "isto é perigoso"

Agora podemos fazer uma pequena distinção.

Imagine que eu diga:

"Estou sentindo medo."

Estou tentando colocar uma experiência em palavras.

Mas posso avançar:

"Estou sentindo medo porque aquela pessoa é perigosa."

Agora não estou apenas nomeando meu sentir.

Estou propondo uma explicação sobre o mundo.

E posso avançar mais:

"Se sinto medo quando encontro pessoas assim, é porque pessoas assim são perigosas."

Perceba como caminhamos.

experiência -> nome -> explicação -> possível crença.

O medo pode ser absolutamente real como experiência.

Mas a palavra "medo" não tornou automaticamente verdadeira a explicação construída depois.

Ainda assim, essa explicação pode voltar a modificar o próximo encontro.

Na próxima vez que eu vir alguém parecido:

palavra aprendida -> expectativa -> atenção -> corpo responde -> "eu sabia".

Estamos nos aproximando do fenômeno que exploraremos nos próximos blogs.

Mas ainda não precisamos chegar lá.

Talvez a palavra deva continuar sendo uma pergunta

"Medo."

"Amor."

"Injustiça."

"Deus."

"Liberdade."

Nem todas essas palavras nomeiam emoções. Algumas abrem campos inteiros de experiências, memórias, relações e histórias.

Podemos precisar delas.

Sem palavras, seria muito mais difícil compartilhar o que vivemos, construir coletivamente, ensinar, discordar ou perguntar.

O problema não começa quando nomeamos.

Talvez comece quando esquecemos que nomeamos.

Quando o recorte passa a parecer a totalidade.

Quando dizemos "é medo" e deixamos de observar aquilo que continua acontecendo.

Quando dizemos "é amor" e já não precisamos encontrar novamente a relação.

Quando dizemos "é liberdade" e deixamos de perguntar liberdade para quem, de quê, para fazer o quê.

Talvez possamos então carregar uma prática simples para o próximo texto:

usar a palavra sem obrigar a experiência a terminar dentro dela.

Nomeamos porque precisamos nos relacionar.

Mas talvez possamos deixar uma fresta aberta.

Porque a experiência pode continuar mudando.

E, se continuar mudando, talvez nossas palavras também precisem mudar.

A pergunta permanece:

O que acontece com a experiência quando precisamos fazê-la caber em uma palavra?

Talvez a resposta não esteja em parar de nomear.

Talvez esteja em aprender a perceber quando o nome que nos ajudou a encontrar alguma coisa começa, silenciosamente, a determinar aquilo que ainda conseguimos encontrar.

Referências principais

BATISTA, J. B.; PASQUALINI, J. C.; MAGALHÃES, G. M. Estudo sobre Emoções e Sentimentos na Educação Infantil. Educação & Realidade, 2022. (SciELO)

FERNANDES, T. F. C. et al. Impact of textual warnings on emotional brain responses to ultra-processed food products. Frontiers in Nutrition, 2022. (Frontiers)

FONSECA, R. G. et al. Cross-cultural differences in beliefs about emotions: A comparison between Brazilian and British participants. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 2023. (SciELO)

GUIMARÃES, Danilo Silva. Ambiguidades e ambivalências na percepção do mundo e das pessoas. Jornal da USP, 2025. (Jornal da USP)

RIZO GARCÍA, Marta. Comunicación, cuerpo y emociones. La incorporación de la dimensión emocional en la investigación de la comunicación. Comunicación y Sociedad, 2022. (Comunicación y Sociedad)

YOSHIMURA, Shinpei; SHIMOMURA, Kouga; ONODA, Keiichi. Diminished negative emotion regulation through affect labeling and reappraisal: insights from functional near infrared spectroscopy on lateral prefrontal cortex activation. BMC Psychology, 2024. (Springer)

Mundos Indígenas. Espaço do Conhecimento UFMG. Fonte primária para a proposta de aproximar-se de diferentes mundos sem impor equivalências e traduções imediatas.






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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States