Jackson Cionek
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Retirando Satanás da Sala

Retirando Satanás da Sala

Série: Respiração, Corpo, Consciência e Troca dos Eus Tensionais


Introdução — Brain Bee (consciência em primeira pessoa)

Às vezes, entro numa sala e algo pesa.
Não é o ambiente.
Não são as pessoas.

Sou eu — mas não exatamente “eu”.

Meu corpo está tenso demais para a situação.
Minha respiração curta.
Meu coração previsível.

Percebo então:
há um Eu aqui que não escolhi conscientemente.

É isso que, neste texto, chamo de Satanás na sala.


Satanás como metáfora fisiológica, não moral

Aqui, “Satanás” não é entidade, pecado ou oposição espiritual.
É uma metáfora funcional:

o Eu Tensional sequestrado por ideologias, crenças ou narrativas rígidas.

Esse Eu:

  • ocupa o corpo,

  • fixa a respiração,

  • empobrece a variabilidade,

  • silencia o sentir.

Ele não é mau.
Ele é excessivamente dominante.


Zona 3: quando o corpo perde a variação

Na Zona 3, o corpo:

  • mantém tensão contínua,

  • sustenta respiração rígida,

  • reduz HRV e RMSSD,

  • perde acesso à interocepção e à propriocepção finas.

A consciência fica estreita.
O corpo reage antes de perceber.
A narrativa governa o ritmo fisiológico.

Nesse estado, o Eu Tensional:

  • acredita estar certo,

  • sente-se ameaçado,

  • defende-se o tempo todo.

Esse é o “Satanás” —
não por maldade, mas por perda de liberdade corporal.


O ponto central: a fisiologia é a mesma

Aqui está o aspecto mais importante:

Zona 1, Zona 2 e Zona 3 acontecem sobre a mesma fisiologia respiratória básica.

O que muda não é o pulmão.
É como o corpo usa a respiração.

  • Na Zona 3:
    a respiração sustenta rigidez sem escolha.

  • Na Zona 2:
    a respiração permite variação, escuta e regulação.

  • Na Zona 1:
    a respiração sustenta tensão por escolha consciente.

Não há troca de sistema.
troca de relação com o mesmo sistema.


Zona 2: regulação sem colapso

Na Zona 2:

  • a expiração recupera espaço,

  • o RMSSD sobe,

  • o nervo vago atua,

  • o sentir retorna.

Aqui, o corpo:

  • não nega a tensão,

  • não foge da ação,

  • mas recupera a possibilidade de variar.

É o estado de fruição, presença e reorganização.
Não é passividade.
É liberdade fisiológica.


Zona 1: tensionar por escolha

A Zona 1 não é problema.
Ela é necessária para:

  • agir,

  • trabalhar,

  • decidir,

  • proteger.

A diferença é que, aqui:

  • a tensão é assumida conscientemente,

  • a respiração se ajusta ao objetivo,

  • o corpo sabe que poderá voltar.

Zona 1 saudável não aprisiona.
Ela serve e se despede.


Fé como mecanismo corporal (Yãy hã mĩy)

O conceito de Yãy hã mĩy, de origem no povo Maxakali, descreve originalmente:

o ato de imitar-se ser aquilo que se pretende tornar —
um processo corporal, não apenas simbólico.

Em sentido ampliado, a fé funciona assim:

  • o corpo sustenta um modo de ser,

  • a respiração acompanha,

  • a postura confirma,

  • o Eu se organiza.

Quando a fé:

  • amplia variação → ela liberta.

  • fixa o corpo → ela aprisiona.

A diferença não está na crença,
mas no efeito corporal da crença.


Liberdade de expressão como exigência biológica

Liberdade de expressão, aqui, não é slogan político.
É necessidade do DNA.

O corpo precisa:

  • variar tensões,

  • sinalizar necessidades,

  • mudar de ritmo,

  • reorganizar metabolismo.

Quando ideologias, crenças ou culturas:

  • proíbem sentir,

  • bloqueiam movimento,

  • exigem rigidez constante,

o corpo se defende fixando Eus tensionais.

O “Satanás” nasce da repressão da variação,
não da presença do conflito.


Retirar Satanás da sala não é expulsar ninguém

Não se trata de eliminar Eus tensionais.
Eles são necessários.

Trata-se de:

  • retirar o monopólio,

  • devolver o corpo à possibilidade de escolha,

  • permitir alternância entre zonas.

Quando isso ocorre:

  • a respiração se solta,

  • o coração varia,

  • o sentir retorna,

  • a consciência se amplia.

Nada místico.
Nada violento.

Apenas fisiologia recuperando liberdade.


Reconhecendo o momento da troca

Perguntas simples:

  • Estou tenso sem saber por quê?

  • Minha respiração poderia variar mais?

  • Posso sair da defesa sem desaparecer?

  • Posso agir sem me aprisionar?

Quando essas perguntas surgem,
o “Satanás” já começou a sair da sala.


Fechamento — o encerramento da série

“Satanás” é o nome que damos
quando esquecemos que o corpo pode variar.

Zona 3 não é pecado.
Zona 1 não é virtude.
Zona 2 não é fuga.

São modos corporais de existir.

A verdadeira fé não fixa.
A verdadeira consciência não aprisiona.
A verdadeira liberdade é poder variar.

Respirar, sentir, tensionar e soltar —
por escolha.


Este texto faz parte da série Respiração, Corpo, Consciência e Troca dos Eus Tensionais, onde diferentes aspectos do mesmo sistema vivo são abordados por ângulos complementares.


Referências (pós-2020)

Thayer, J. F., & Lane, R. D. (2021). Neurovisceral Integration and Self-Regulation. Biological Psychology.
→ Fundamenta a relação entre variabilidade autonômica, rigidez e flexibilidade do self corporal.

Laborde, S., et al. (2022). HRV as a Marker of Self-Regulatory Capacity. Biological Psychology.
→ Relaciona HRV e RMSSD à capacidade de alternar estados sem colapso.

Seth, A. K. (2021). Being You: A New Science of Consciousness. Faber & Faber.
→ Sustenta a consciência como processo corporal preditivo, não abstrato.

Berntson, G. G., & Khalsa, S. S. (2021). Interoception and Autonomic Regulation. Trends in Cognitive Sciences.
→ Mostra como sentir corporal regula estados de consciência.

Mashour, G. A., & Hudetz, A. G. (2021). Disconnecting Consciousness. Trends in Cognitive Sciences.
→ Analisa como estados rígidos alteram integração consciente.

Critchley, H. D., & Garfinkel, S. N. (2021). Interoception and Emotion. Current Opinion in Psychology.
→ Relaciona interocepção à liberdade de resposta emocional.

Porges, S. W. (2021). Polyvagal Theory: A Science of Safety. Frontiers in Integrative Neuroscience.
→ Fundamenta a segurança corporal como pré-requisito para variação autonômica.

Varela, F. J., et al. (edições recentes). The Embodied Mind. MIT Press.
→ Sustenta a cognição como experiência corporificada, alinhada à noção de Taa e variação.


Retirando Satanás da Sala

Taa: Saber que Vem do Corpo

Pressão, Postura e Variabilidade Cardíaca

Quando o Coração Para: EEG, Gamas e Estados de Transição

Do R do QRS ao Cérebro: Batimento como Informação

O Ciclo Respiratório Completo e RMSSD

Respiração Inteira: Ponte entre APUS e Tekoha

Jejum, mTOR e Ritmos Metabólicos

Tekoha: Interocepção, pH e Microbiota

Musculação, Força e Memória no APUS

Respiração como Regulador do Sistema Autonômico

RMSSD e HRV: Variar é Saúde

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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States